O turfe brasileiro amanheceu de luto nesta quarta-feira (19). Leandro Henrique, jóquei pernambucano de 27 anos e vencedor do Grande Prêmio Brasil de 2025, não resistiu aos ferimentos sofridos em uma queda no último domingo (16), durante disputa no hipódromo da Gávea, na zona sul do Rio de Janeiro.
Internado primeiro no Hospital Municipal Miguel Couto e, depois, em uma unidade particular, o atleta teve fratura exposta no quadril e traumatismo craniano. Apesar da cirurgia de emergência e da posterior transferência, o quadro se agravou na madrugada e resultou em sua morte, confirmada pela família.
Como aconteceu o acidente na segunda prova de domingo
Leandro participava do segundo páreo da programação oficial do Jockey Club Brasileiro quando o cavalo que montava saiu do traçado principal e atravessou para a área dos cavaletes. A manobra inesperada lançou o jóquei ao solo em alta velocidade. Na queda, ele bateu a cabeça e sofreu a grave lesão no quadril.
A equipe médica de pista prestou os primeiros socorros ainda no gramado. Em seguida, ambulâncias o conduziram ao Miguel Couto, referência em trauma na capital fluminense. No hospital público, Leandro foi submetido a cirurgia para conter hemorragias internas e estabilizar a fratura. Com o aval dos médicos, a família providenciou a transferência, na terça (18), para uma instituição privada que pudesse dar continuidade ao tratamento neurológico intensivo. O esforço, porém, mostrou-se insuficiente diante da piora de seu estado.
Fratura exposta e traumatismo craniano
Médicos relatam que o tipo de fratura no quadril enfrentada por Leandro leva risco elevado de infecção e de comprometimento vascular. Somado ao traumatismo craniano, o quadro clínico exigia monitoramento neurológico constante. Segundo pessoas próximas, as primeiras 48 horas foram consideradas críticas; a morte cerebral, contudo, foi confirmada já na madrugada de quarta.
Carreira marcada por feitos inéditos
Nascido em Pernambuco, Leandro Henrique deixou o estado ainda adolescente, decidido a construir trajetória no turfe carioca. Sua ascensão foi meteórica: antes dos 25 anos, acumulava vitórias em páreos clássicos e havia se tornado um dos nomes mais festejados da Gávea. A consagração veio no Grande Prêmio Brasil de 2025, principal prova da modalidade no país.
A chegada histórica com Sinsel
Naquele domingo decisivo de 2025, Leandro montou o puro-sangue Sinsel. Nos metros finais, assumiu a dianteira e, convicto da vitória, ergueu-se um pouco na sela para comemorar. A celebração precoce quase custou caro: Valparaiso, conduzido por Wilkley Xavier, primo do próprio Leandro, reagiu de forma fulminante. Os dois cavaleiros cruzaram o disco praticamente juntos, obrigando os comissários a recorrerem ao photochart. A imagem mostrou vantagem mínima – “um focinho”, como se diz na pista – a favor de Sinsel. O momento ganhou repercussão nacional e colocou o nome de Leandro entre os grandes do esporte.
Reconhecimento da família e dos colegas
Em nota publicada nas redes sociais, parentes lembraram a determinação que o levou do interior pernambucano às maiores raias do país. “Enfrentou quedas, fraturas, dificuldades e injustiças. Nenhum obstáculo o fez desistir”, escreveu a família. A postagem recorda também o apoio que ele recebia dos fãs e a influência que exercia sobre jovens aprendizes de jóquei.
Luto oficial no Jockey Club Brasileiro
Instantes após a confirmação da morte, o Jockey Club Brasileiro divulgou comunicado manifestando pesar. A entidade ressaltou a “trajetória marcante” do atleta e decretou luto oficial. Funcionários, treinadores, criadores e apostadores que costumam frequentar o hipódromo relataram clima de consternação. As corridas programadas para esta quarta tiveram um minuto de silêncio em homenagem a Leandro.
Solidariedade à esposa e à filha
Leandro era casado com a também jóquei Victoria Mota, com quem tem uma filha de um ano, Manoela. Amigos próximos contam que o casal costumava dividir a rotina de treinos nas madrugadas do hipódromo. Ainda não foram divulgados data e local do velório; a expectativa é de que o corpo seja sepultado no Rio de Janeiro, onde a família reside.
Repercussão no universo do turfe
Brasileiros que atuam em centros hípicos de São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul publicaram mensagens lembrando o talento do colega. Ex-adversários destacam sua habilidade de “sentir” o cavalo e de tomar decisões rápidas em reta final, algo que, segundo treinadores, não se ensina – “se nasce com esse feeling”, afirmou um profissional da Gávea. A Confederação Brasileira de Turfe estuda organizar, ainda neste ano, um páreo com troféu que leve o nome do jóquei.
Uma carreira curta, mas intensa
Leandro iniciou como aprendiz em 2015. Desde então, participou de centenas de corridas e conquistou as principais taças do calendário nacional. Entre elas, além do GP Brasil, figuram o Grande Prêmio São Paulo e o GP Presidente da República. Em uma década, somou números que muitos colegas alcançam apenas em toda a vida profissional.
Questões de segurança voltam ao debate
O acidente reabriu discussões sobre procedimentos de segurança em hipódromos brasileiros. Embora quedas façam parte dos riscos da profissão, críticos apontam necessidade de aprimorar barreiras laterais e rever a distância entre a pista e as estruturas fixas. Representantes do Jockey Club afirmam que a direção analisará imagens da prova para identificar fatores que contribuíram para a mudança abrupta de rumo do cavalo.
Equipamentos de proteção
Capacete, colete salva-vidas e botas especiais fazem parte do regulamento obrigatório. Fontes ouvidas na raia asseguram que Leandro utilizava todos os itens no momento do impacto. Ainda assim, a força da colisão e o modo como o corpo foi projetado limitaram a eficácia dos equipamentos, sobretudo contra a fratura exposta.
Próximos passos da investigação
Embora não exista indício de mau funcionamento de equipamentos, a comissão de corridas abriu inquérito interno. Serão analisados relatórios de veterinários, depoimentos de comissários e o laudo da necropsia. Concluído o processo, a entidade pode recomendar alterações no percurso ou na rotina de treinamento de cavalos jovens, que por vezes se assustam com ruídos vindos da arquibancada.
Memória e legado
Para além dos troféus, amigos ressaltam o caráter generoso de Leandro. Ele costumava doar parte das premiações a instituições que cuidam de crianças em situação de vulnerabilidade no Recife, sua cidade natal. A família pretende manter o gesto vivo por meio de um fundo que receberá o nome do atleta.
Impacto na temporada nacional de 2025
A morte de um dos principais competidores altera o panorama das provas de elite. Leandro era favorito a defender o título do GP Brasil no próximo ano. Treinadores que contavam com sua montaria agora estudam substitutos. Apesar da perda, colegas prometem levar à raia a mesma garra que o pernambucano demonstrou em cada largada.
O adeus de um país inteiro
Ao fim desta quarta-feira, as redes sociais do jóquei somavam milhares de mensagens de fãs, muitos deles iniciantes na modalidade que descobriram o turfe após ver a chegada eletrizante de 2025. A imagem do braço erguido antes do disco – e do sorriso que misturava ousadia e paixão – ganhou novo significado. Tornou-se símbolo de quem correu sem medo, viveu cada segundo e partiu, ainda jovem, deixando a pista de grama coberta de lembranças.