EUA negam que rotular PCC e Comando Vermelho como terroristas abra caminho para ação militar no Brasil

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A inclusão do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) na lista norte-americana de organizações terroristas não concede novos poderes às Forças Armadas dos Estados Unidos para operar em território brasileiro. A garantia foi dada por um porta-voz do Departamento de Estado, em resposta ao Metrópoles, após declarações do secretário de Defesa Pete Hegseth insinuarem que grupos classificados como terroristas poderiam virar alvos militares em cooperação com governos regionais.

O recuo diplomático busca conter a apreensão em Brasília e em outras capitais latino-americanas diante da estratégia de Washington de tratar facções ligadas ao narcotráfico como ameaça à segurança nacional. Embora a designação trave bens, feche contas e criminalize qualquer apoio financeiro aos grupos, ela não autoriza ataques extraterritoriais sem acordo expresso do país onde o alvo se encontra.

Esclarecimento do Departamento de Estado

Procurada pela reportagem, a chancelaria norte-americana fez questão de separar a dimensão jurídica da decisão — essencialmente econômica e administrativa — de qualquer desdobramento militar. “A classificação não confere às Forças Armadas dos EUA poderes adicionais além dos já existentes”, resumiu o porta-voz. Em outras palavras, a norma serve para bloquear ativos, vetar transações e endurecer processos penais dentro do sistema judicial norte-americano, mas não muda as regras de emprego de tropas.

A nota foi publicada depois que Hegseth, durante visita ao Panamá, mencionou que “organizações terroristas designadas poderão ser alvos legítimos do governo dos Estados Unidos, em parceria com governos amigos”. O comentário, sem detalhar limites ou condições, provocou turbulência porque o Brasil não integra a coalizão regional criada pela Casa Branca para enfrentar cartéis de droga.

O que disse o chefe do Pentágono

No Panamá, Hegseth fora instado a comentar ações contra dissidentes das Farc e membros do Exército de Libertação Nacional (ELN) na Colômbia. Ao responder, ampliou o leque: colocou qualquer grupo enquadrado como terrorista na mira de eventuais operações conjuntas — de terra, mar ou ar — “onde quer que trafiquem drogas ou ameacem o povo americano ou nossos parceiros”. Citou inclusive o modelo de ofensiva naval já em curso no Pacífico e no Caribe como exemplo a ser replicado em terra firme.

A fala extrapolou a moldura jurídica adotada até então e levantou questionamentos sobre soberania, sobretudo porque PCC e CV têm base no Brasil. Em ano eleitoral nos EUA, a retórica de “narcoterrorismo” ocupou o centro do discurso de segurança da gestão Donald Trump, que pressiona países vizinhos a aderirem à campanha.

Efeitos práticos da lista de terrorismo

A inscrição do PCC e do CV como Foreign Terrorist Organizations (FTO) amplia o alcance de sanções financeiras, facilita ordens de prisão internacional e criminaliza qualquer apoio material, mesmo indireto, sob jurisdição norte-americana. Empresas e indivíduos que façam negócios com as facções podem ser alvo de processos civis e criminais nos EUA, além de bloqueio de ativos.

No campo interno brasileiro, porém, nada muda automaticamente. A legislação nacional continua definindo os parâmetros para classificar crime organizado e terrorismo dentro das fronteiras do país. Autoridades brasileiras seguem obrigadas a abrir investigações próprias ou a cooperar via acordos de assistência mútua já existentes, mas não têm obrigação legal de adotar a mesma nomenclatura usada por Washington.

Sanções financeiras já em vigor

  • Congelamento de contas bancárias e bens sob jurisdição dos EUA.
  • Proibição de transações comerciais ou cambiais com qualquer entidade ligada ao PCC ou ao CV.
  • Punições a terceiros que facilitem lavagem de dinheiro ou envio de recursos.

Fontes ligadas ao Tesouro dos EUA confirmam que novas listagens vêm sendo preparadas contra pessoas e empresas suspeitas de operar esquemas de lavagem para o PCC em mercados internacionais, principalmente no Paraguai e nos Estados Unidos.

Brasil fora da coalizão de Trump

Diferentemente de Colômbia, Equador e Panamá, o Brasil optou por não aderir à aliança capitaneada por Washington para ações combinadas de inteligência e, potencialmente, operações de interdição em solo. Para o criminalista William Pimentel, especialista em crime transnacional, a escolha preserva a autonomia brasileira sobre decisões de segurança interna, mas limita a voz do país no desenho das missões regionais.

“O Brasil deixa de influenciar protocolos que afetam organizações originadas em seu território; em compensação, mantém controle sobre uso de força dentro de suas fronteiras”, avalia o advogado. Mesmo fora da coalizão, Brasília pode continuar trocando informações por canais como Interpol, Polícia Federal e acordos bilaterais de assistência jurídica.

Preocupação com militarização do combate ao crime

Especialistas temem que o rótulo de terrorismo sirva de atalho para justificar ações militares em vez de investigações policiais. A experiência recente no Oriente Médio, lembram, mostra que a linha entre contraterrorismo e direito penal costuma se esvair quando tropas entram em cena. No caso latino-americano, as facções operam dentro de comunidades urbanas ou zonas de fronteira densamente povoadas, onde o uso de força letal por exércitos estrangeiros criaria riscos civis e tensões diplomáticas.

O chanceler brasileiro, Mauro Vieira, já havia expressado preocupação semelhante. Segundo ele, qualquer medida que ultrapasse os canais clássicos de cooperação policial violaria a soberania nacional. Em reação, fontes do governo Trump classificaram como “absurda” a hipótese de intervenção militar no Brasil, insistindo que a lista de terrorismo visa apenas “cortar o oxigênio financeiro” dos grupos.

Efeitos de longo prazo na estratégia regional

  1. Pressão para que países latino-americanos alinhem suas listas de organizações terroristas às de Washington.
  2. Maior integração de bases de dados de inteligência sobre movimentação financeira de facções.
  3. Risco de expansão do papel de forças armadas no policiamento de fronteiras e áreas urbanas.

Para analistas do Conselho de Relações Exteriores dos EUA, o próximo passo será medir a eficácia das sanções financeiras. Se a designação não impactar o fluxo de cocaína e armas, é provável que a Casa Branca volte a discutir opções “cinéticas”, e a tensão sobre operações extraterritoriais retornará ao centro do debate.

Por ora, o posicionamento do Departamento de Estado busca apaziguar aliados e evitar atritos com o governo brasileiro, lembrando que qualquer ação militar só ocorreria “em parceria” — palavra que, no jargão diplomático, pressupõe convite ou consentimento formal. Até lá, PCC e Comando Vermelho permanecem na mira econômica dos EUA, mas fora do alcance imediato de seus fuzis.

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Escobar Oliver é profissional do mercado digital desde 2021, com experiência em produção de conteúdo, SEO e gestão de portais de notícias. Como responsável pelo RSO Notícias, dedica-se a oferecer informações confiáveis, atualizadas e relevantes, sempre com compromisso editorial, transparência e qualidade na comunicação.