Mais de 150 mil viajantes ficaram sem sair do chão neste fim de semana depois que o vulcão Anak Krakatau, no Estreito de Sunda, expeliu nuvens de cinzas e forçou o fechamento temporário de seis aeroportos, entre eles o principal terminal do país, Soekarno-Hatta, que serve a Grande Jacarta. A coluna vulcânica atingiu até 15 quilômetros de altitude no lado de Sumatra e obrigou o redirecionamento ou cancelamento de 467 voos domésticos e internacionais.
Sem previsão firme de reabertura completa, o Ministério dos Transportes pediu às companhias aéreas que ofereçam reembolso imediato, redistribuam rotas e evitem aglomerações nos saguões. A ordem veio após testes mostrarem que a pluma de cinzas avançava para o oeste de Java, colocando em risco a segurança de aeronaves e a saúde de moradores.
Impacto imediato no transporte aéreo
Aeroportos que suspenderam operações
- Soekarno-Hatta (Jacarta)
- Halim Perdanakusuma (Jacarta)
- Husein Sastranegara (Bandung)
- Radin Inten II (Lampung)
- Fatmawati Soekarno (Bengkulu)
- Depati Amir (Pangkal Pinang)
Rotas internacionais mais afetadas
Voos com origem ou destino em Singapura, Doha, Sydney e Kuala Lumpur foram os primeiros a ser suspensos. Como o espaço aéreo sobre o Estreito de Sunda serve de corredor para conexões entre o Sudeste Asiático e a Oceania, o efeito dominó alcançou companhias de vários países, que ainda estudam alternativas em aeroportos de Sumatra e Bornéu.
Condições de saúde e rotina nas comunidades vizinhas
O Ministério da Saúde recomendou que moradores de Java Ocidental e sul de Sumatra permaneçam em casa sempre que possível, usem máscaras e proteção ocular. Escolas de municípios costeiros suspenderam as aulas depois que estudantes relataram ardência nos olhos e na pele. Em Pesisir Selatan, pescadores deixaram de sair para o mar graças à visibilidade reduzida e ao risco de queda de cinzas quentes.
A irritação ocular foi um dos sintomas mais comuns. Aldi Candra Prayogi, morador de Lampung, conta que a sensação era de “grãos de areia raspando a retina” e que precisou de colírios a cada poucas horas. A poeira no quintal, relata, exige varredura constante. Autoridades locais distribuíram cerca de 10 mil máscaras descartáveis e abriram postos de atendimento emergencial para problemas respiratórios.
Detalhes da erupção
Atividade sísmica contínua
A primeira explosão relevante ocorreu na noite de sexta-feira, liberando fontes de lava visíveis a quilômetros. Dois novos pulsos foram registrados na madrugada de domingo, acompanhados de estrondos e tremores de baixa magnitude. De acordo com a agência de meteorologia BMKG, a coluna alcançou 6 km de altura sobre Java e 15 km sobre Sumatra, suficientes para espalhar partículas finas por centenas de quilômetros.
Ausência de alerta de tsunami
Mesmo com a intensidade do evento, a agência de mitigação de desastres afirmou que não há risco imediato de tsunami, pois o volume de material deslocado até agora não alterou significativamente a estrutura submarina do vulcão. Ainda assim, boias de monitoramento permanecem em alerta máximo no Estreito de Sunda.
Um vulcão marcado por tragédias
De 1883 a 2018: herança de destruição
Anak Krakatau — “filhote de Krakatoa” em indonésio — ergueu-se do mar no início do século XX, ocupando a caldeira deixada pela lendária erupção de 1883, que matou mais de 36 mil pessoas e destruiu 165 vilarejos em menos de dois dias. O estrondo foi ouvido a quase 5 mil quilômetros de distância e permanece como o som mais alto já documentado na história.
Em dezembro de 2018, parte do cone de Anak Krakatau ruiu e se deslocou em massa para o mar, gerando um tsunami que deixou mais de 400 mortos nas costas de Java e Sumatra. Estudos posteriores mostraram blocos de rocha de até 90 metros de altura deslizando para dentro do Estreito de Sunda, o que explica a onda devastadora que se formou sem aviso prévio.
Papel no Círculo de Fogo do Pacífico
O vulcão integra o chamado Anel de Fogo do Pacífico, cadeia de 40 mil quilômetros que concentra 75% dos vulcões ativos do planeta e 90% dos terremotos. O arquipélago indonésio, posicionado sobre três grandes placas tectônicas, registra a maior densidade de atividade vulcânica do mundo.
Recomendações e próximos passos
O ministro dos Transportes, Dudy Purwagandhi, pediu que companhias aéreas reforcem equipes de atendimento, publiquem horários revisados em tempo real e adotem rotas alternativas para reduzir o acúmulo de passageiros. Ele cobrou que reembolsos sejam processados “sem burocracia” e sugeriu que viajantes adiem deslocamentos não essenciais pelo menos até terça-feira.
Já o Ministério da Saúde mantém campanhas de distribuição de máscaras N95 e alerta para o risco de complicações respiratórias entre crianças, idosos e pessoas com doenças pré-existentes. Clínicas móveis percorrem vilarejos costeiros para fornecer água potável e orientar a população sobre limpeza de telhados, onde a deposição de cinzas pode provocar colapso estrutural se atingir grande espessura.
Equipes do Centro de Vulcanologia e Mitigação de Desastres Geológicos continuam monitorando a sismicidade do Anak Krakatau em tempo real. Caso a atividade se intensifique, planos de evacuação previamente definidos para ilhas próximas podem ser acionados. Até o momento, não há ordem de retirada, mas a recomendação é manter distância mínima de cinco quilômetros do cone.
Para especialistas, a sequência de erupções reforça a necessidade de investimentos em sistemas de alerta antecipado que integrem dados sísmicos, variações de nível do mar e imagens de satélite. Estudos indicam que, embora difícil prever o momento exato de explosões, é possível melhorar protocolos de resposta rápida, reduzindo o tempo entre o início de eventos e a disseminação de avisos.
Enquanto o tráfego aéreo tenta retomar a normalidade e moradores lidam com a chuva de cinzas, Anak Krakatau lembra ao mundo que o legado geológico da região continua ativo — e capaz de interromper, em poucas horas, a rotina de centenas de milhares de pessoas em dois continentes.