Em Gana, caixões viram esculturas que contam a vida de quem parte

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O último adeus do músico ganês Frederick Teiko Ofori ecoou em forma de acordes silenciosos: o corpo dele foi colocado dentro de uma guitarra gigante talhada em madeira. A escultura funerária, exibida no vilarejo de Adjen Kotoku Amoama, nos arredores de Acra, transformou o velório num espetáculo de memória afetiva. Nada de caixões retangulares: em boa parte do sul de Gana, sobretudo entre o povo Ga, a vida pregressa define a forma da derradeira morada.

Pescadores descem à terra em peixes ou canoas do tamanho de gente; agricultores, em favas de cacau; motoristas, dentro de carros; religiosos, em Bíblias; pilotos, em aviões. O costume, nascido na metade do século XX, converte funerais em narrativas visuais e sustenta um mercado artesanal que já chama atenção de museus e colecionadores mundo afora.

Esculturas que nascem de histórias pessoais

Responsável pela guitarra de Ofori, o artesão Daniel Oblie Mensah — ou simplesmente “Hello”, como é conhecido nos becos de Acra — fabrica “caixões de fantasia” há mais de 30 anos. Para ele, cada encomenda é uma biografia condensada em madeira:

  • Motivação: a família chega à oficina com fotos ou anotações sobre profissão, paixões e símbolos que definem quem partiu.
  • Processo: as peças ganham estrutura primeiro em tábuas brutas, depois recebem curvas, detalhes, tintas e brilho. O trabalho leva cerca de duas semanas.
  • Custo médio: 10 mil cedis ganeses, algo em torno de R$ 4.900.

“Teacher” e a caneta que virou caixão

O ritual se repetiu no funeral de Samuel Commey Tetteh, educador que lecionou por mais de meio século em Paanor. Conhecido por todos como “Teacher”, ele foi velado dentro de uma caneta monumental, também assinada por Mensah. Vestido de branco, o corpo recebeu a visita de ex-alunos e vizinhos ao som de tambores que vararam a madrugada. Aos olhos da comunidade, a peça simbolizava a tinta que o professor usou para escrever a própria história.

Da tradição Ga aos salões de arte contemporânea

Embora pareçam invenções modernas, esses caixões têm raízes nos palanquins cerimoniais usados por chefes Ga para exibir poder e identidade. A partir da década de 1950, carpinteiros locais passaram a transferir o conceito para funerais, inaugurando uma estética que mistura religiosidade, status social e comentário artístico.

Com o tempo, as esculturas deixaram de sumir totalmente sob a terra. Algumas permanecem inteiras graças a acordos com museus internacionais. Há guitarras, peixes e aviões ganeses expostos no Met, em Nova York, e em galerias da Europa, onde são apresentados como exemplos de arte vernacular africana.

Ferramentas novas, saberes antigos

O ofício ainda se apoia em ensinamentos transmitidos de pai para filho. Contudo, ferramentas elétricas encurtaram prazos e garantiram acabamento mais fino. Para Lawrence Okoe Anang, 26 anos, que administra a Carpintaria Erico ao lado do irmão, a inovação não substitui o legado: “sou carpinteiro, fabricante de caixões e artista, tudo junto”, afirma.

Anang recorda o projeto que mais lhe deu trabalho: um crocodilo encomendado para um sacerdote do rio Volta. Na época, ainda aprendiz, ele e o pai levaram dias apenas para acertar a curvatura das mandíbulas e o encaixe das escamas.

Mercado aquecido pelas encomendas de fora

A fama internacional abriu uma segunda frente de negócio. Caixões destinados a museus ou colecionadores custam mais caro porque precisam resistir a décadas sob luz artificial. Os artesãos investem em madeiras nobres, acabamentos envernizados e estruturas reforçadas, diferentes dos modelos que seguem direto para o enterro.

Apesar disso, a essência permanece: cada peça nasce para contar uma história. Se o destino é a galeria, a narrativa se mantém visível; se vai para o solo, a memória se tranca na escuridão junto ao corpo que a inspirou.

Identidade até o fim

No distrito costeiro de Accra, um caixão em forma de siri aguarda o funeral de um pescador. Um pouco mais adiante, um leão dourado será a morada final de um chefe tribal. Habilidades manuais, imaginação sem freios e rituais comunitários transformam luto em celebração. Em Gana, a morte não encerra a biografia: ela apenas muda de suporte — da carne para a madeira esculpida.

Entre o sagrado e o espetáculo

A exuberância dos funerais ganeses costuma surpreender visitantes estrangeiros, mas, para os locais, ela cumpre funções muito claras:

  1. Prestígio social: a criatividade do caixão demonstra o respeito da família e o status do falecido.
  2. Expressão cultural: reforça a ligação com a etnia Ga e seus símbolos.
  3. Consolo coletivo: ao transformar tristeza em obra de arte, a comunidade compartilha o luto de forma festiva.

No caso de Frederick Ofori, o som da guitarra silenciosa acompanhou a última procissão. A madeira encerrou acordes que ninguém mais ouvirá, mas a imagem — aquela guitarra gigante deslizando pela rua de terra — ficou na memória dos que ficaram. É assim que, em Gana, cada caixão conta a história de quem partiu e inspira as próximas páginas de quem segue vivo.

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Escobar Oliver é profissional do mercado digital desde 2021, com experiência em produção de conteúdo, SEO e gestão de portais de notícias. Como responsável pelo RSO Notícias, dedica-se a oferecer informações confiáveis, atualizadas e relevantes, sempre com compromisso editorial, transparência e qualidade na comunicação.