Deportados sem passado: afegãos obrigados a recomeçar sob o Talebã enfrentam fome, medo e isolamento

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Uma fila de caminhões exibe montes de colchões gastos, gaiolas com galinhas e poucas malas no ponto de passagem de Torkham, a fronteira seca mais movimentada entre Paquistão e Afeganistão. Lá, famílias inteiras – algumas que nunca pisaram em solo afegão – recebem um carimbo de entrada, um pacote de biscoitos da ONU e a missão de reconstruir a vida num país comandado pelo Talebã, onde a ajuda internacional mingua e as mulheres foram excluídas das escolas e universidades.

O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) calcula que, somente em 2026, mais de 1 milhão de pessoas foram empurradas de volta do Paquistão e do Irã. Somando os últimos três anos, 6 milhões cruzaram a fronteira no sentido inverso ao histórico fluxo de fuga que começou na invasão soviética de 1979. Órfãos de pátria, documentos e garantia de direitos, esses deportados chegam a um território em colapso econômico e diplomático.

Retorno em massa pressiona país em crise

O Afeganistão carrega números alarmantes: 21,9 milhões de cidadãos – quase metade da população – dependem de assistência para sobreviver, segundo a ONU. No mesmo relatório, o Unicef alerta que 1 milhão de crianças enfrenta desnutrição aguda com risco de morte. As deportações em ritmo industrial ampliam a demanda por alimento, água, abrigo e emprego numa economia estagnada por sanções internacionais relacionadas a terrorismo e violações de direitos humanos.

Do lado paquistanês, a justificativa oficial mistura segurança interna e custo social. Autoridades de Islamabad afirmam que não distinguirão entre indocumentados e portadores de registro quando considerarem necessário expulsar “ameaças potenciais”. No Irã, o discurso ganhou contornos bélicos após a guerra de 12 dias contra Israel e Estados Unidos, em 2025; Teerã passou a rotular afegãos sem visto como suspeitos de espionagem. Para organizações como a Human Rights Watch, a prática vai além de deportação: envolve batidas noturnas, prisões sem mandado e extorsão policial.

Vida em abrigos improvisados

“Nem tenda para morar”

Quem atravessa o “Ponto Zero” recebe abrigo provisório em tendas de lona puída montadas por agências humanitárias. Sob calor de 40 °C, mulheres abanam bebês enquanto homens esperam nomear caminhões e burros para algum vilarejo distante. Zarina, 40 anos, chegou com três filhas após ser expulsa de Karachi. “Não trouxe dinheiro, não tenho tenda, não tenho trabalho”, conta, sentada no chão batido de um galpão improvisado.

Caminho sem volta

A maioria traz lembranças amargas do país vizinho. Sarwar, 45 anos, passou quatro décadas no Paquistão e voltou com 39 parentes num único caminhão alugado. Ele admite alívio por abandonar o que chama de “assédio policial diário”, mas reconhece não ter ideia de como alimentar a família agora. A polícia paquistanesa, procurada pela imprensa internacional, nega perseguição sistemática e classifica denúncias de maus-tratos como “casos isolados”.

Medo e incerteza sob o Talebã

Restrição às mulheres amplia vulnerabilidade

Desde que o Talebã retomou Kabul em agosto de 2021, meninas estão proibidas de cursar o ensino médio e universidades; mulheres não podem trabalhar para ONGs ou órgãos públicos na maioria das províncias. Para mães como Nazia, 35 anos, que nasceu no Paquistão e jamais viveu sob leis talebãs, a fronteira representa mais que choque cultural – é a perda do futuro das filhas. “No Paquistão elas estudavam; aqui, nem sabemos se haverá pão amanhã”, lamenta.

Promessa de anistia não convence

Homens ligados ao antigo governo ou às forças de segurança temem represálias. Um ex-agente de segurança, deportado primeiro do Irã e depois do Paquistão, vive escondido numa casa afastada de Jalalabad. Ele diz conhecer colegas assassinados apesar da anistia anunciada pelo Talebã em 2021. “Não piso na rua. Minha família inteira tem medo”, diz. O governo talebã não apresenta registros de ataques seletivos, mas grupos de direitos humanos relatam casos de desaparecimento e execuções.

Resposta internacional limitada

Ajuda encolhe com sanções

O fluxo de doações caiu depois que governos ocidentais suspenderam programas de desenvolvimento e congelaram reservas do Banco Central afegão. A Organização das Nações Unidas mantém operações mínimas, porém alerta que o caixa para 2026 só cobre metade do necessário. “Nenhum país sustentaria sozinho um choque populacional deste tamanho”, reconhece Charlie Goodlake, porta-voz do Acnur em Kabul.

Isolamento diplomático

Até agora, apenas a Rússia reconheceu formalmente a administração do Emirado Islâmico. O ministro talebã das Relações Exteriores, Amir Khan Muttaqi, aposta no eixo regional para quebrar o cerco político. Ele cita acordos comerciais com China, Índia e repúblicas da Ásia Central como prova de que “o Afeganistão caminha para a autossuficiência”. Sobre a educação feminina, repete que se trata de “assunto interno” – postura que trava negociação com doadores, segundo analistas.

Exceções temporárias

Sob pressão de agências humanitárias, o Paquistão concedeu anistia temporária a 16 mil afegãos considerados vulneráveis. A medida, elogiada pela ONU, cobre apenas pequena fração dos estimados 250 mil que continuam em risco imediato de expulsão. Paralelamente, famílias deportadas se espalham por províncias afegãs onde não há infraestrutura para recebê-las. Muitas vendem bens doados – barracas, pacotes de arroz, utensílios – para financiar passagens de ônibus rumo a cidades maiores, na esperança de encontrar parente distante ou trabalho informal.

Futuro em suspenso

A cena que se repete todos os dias em Torkham resume o dilema. Crianças seguram cadernos sem ter escola. Mulheres escondem diplomas universitários que não valem mais. Homens procuram emprego num mercado paralisado. Ao mesmo tempo, o Talebã comemora o retorno de “filhos da pátria” e promete que, num horizonte de longo prazo, a reabsorção dessa mão de obra fortalecerá a economia local. No presente, porém, a realidade cabe no veredito de uma jovem que carregava sacolas de plástico vazias em meio à poeira da fronteira: “Chegamos com nada e por enquanto nada temos”.

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Escobar Oliver é profissional do mercado digital desde 2021, com experiência em produção de conteúdo, SEO e gestão de portais de notícias. Como responsável pelo RSO Notícias, dedica-se a oferecer informações confiáveis, atualizadas e relevantes, sempre com compromisso editorial, transparência e qualidade na comunicação.