A Organização das Nações Unidas entrou na fase decisiva para escolher quem substituirá António Guterres a partir de 1º de janeiro de 2027, e o cenário nunca foi tão favorável a uma mulher — ou a um nome da América Latina. Das sete candidaturas formalizadas até o momento, quatro são femininas e cinco representam países latino-americanos ou caribenhos, combinação que pode romper dois tabus simultâneos: o de gênero, vigente desde a fundação da ONU em 1945, e o regional, pois apenas um latino-americano ocupou o posto até hoje.
O processo, que se estenderá até o segundo semestre de 2026, envolve diálogos públicos na Assembleia Geral e negociações reservadas no Conselho de Segurança. Nesse percurso, sondagens informais já revelam vantagem para duas mulheres da região: a costarriquenha Rebeca Grynspan e a guianense Carolyn Rodrigues-Birkett.
Uma corrida com sotaque latino
A regra não escrita de alternância geográfica pesa a favor da América Latina e do Caribe. Desde o peruano Javier Pérez de Cuéllar (1982-1991), o grupo não voltou a chefiar a Secretaria-Geral. Agora, além de Grynspan e Rodrigues-Birkett, outros três latino-americanos entraram na disputa: a ex-presidente chilena Michelle Bachelet, a diplomata equatoriana María Fernanda Espinosa e o argentino Rafael Mariano Grossi.
Completam a lista o ex-presidente do Senegal Macky Sall e o diplomata ugandês Olara Otunnu. O desenho atual mantém a tradição de candidaturas múltiplas até as últimas semanas, quando as capitais iniciam barganhas mais diretas para reduzir o número de postulantes.
Quem são os sete nomes na mesa
- Rebeca Grynspan (Costa Rica) – Economista, ex-vice-presidente de seu país e atual secretária-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad).
- Carolyn Rodrigues-Birkett (Guiana) – Embaixadora guianense na ONU desde 2020, com passagem pelo Itamaraty local como chanceler.
- Michelle Bachelet (Chile) – Duas vezes presidente do Chile, ex-diretora da ONU Mulheres e ex-alta comissária de Direitos Humanos.
- María Fernanda Espinosa (Equador) – Ex-ministra de Relações Exteriores e única latino-americana a presidir a Assembleia Geral da ONU (2018-2019).
- Rafael Mariano Grossi (Argentina) – Diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) desde 2019.
- Macky Sall (Senegal) – Presidente senegalês de 2012 a 2024, figura de peso na União Africana.
- Olara Otunnu (Uganda) – Diplomata, advogado e ex-subsecretário-geral para Crianças e Conflitos Armados.
Sondagens mostram leve vantagem feminina
O primeiro straw poll — votação sigilosa que mede o apoio inicial no Conselho de Segurança — ocorreu em 30 de julho. Dos 15 integrantes do órgão, 10 incentivaram a candidatura de Rebeca Grynspan e nove apoiaram Carolyn Rodrigues-Birkett. Entre os homens, Rafael Grossi liderou com sete incentivos.
Michelle Bachelet recebeu seis votos favoráveis, mas também cinco sinais de desencorajamento, refletindo resistências a seu perfil político. María Fernanda Espinosa, com cinco incentivos, mantém-se competitiva, enquanto Macky Sall somou seis apoios. Recém-chegado à disputa, Olara Otunnu obteve apenas dois votos de incentivo.
Por que o placar ainda pode mudar
A configuração do Conselho de Segurança exige ao menos nove votos positivos e nenhum veto dos cinco membros permanentes (China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia). Um único veto basta para retirar um candidato da corrida. Por isso, as campainhas de alerta soam não apenas com o número de incentivos, mas com indícios de que alguma potência possa pressionar contra determinado nome.
A partir de agora, novos straw polls devem ocorrer, alternando cédulas coloridas que indicam se o voto veio de um membro permanente ou rotativo. O objetivo é permitir que candidatos avaliem suas chances antes do teste definitivo.
Etapas formais até 2026
- Apresentação de candidaturas – Governos enviam cartas oficiais à presidência da Assembleia Geral. Esse rito permanece aberto até poucas semanas antes da votação final.
- Diálogos públicos – Os candidatos participam de sessões transmitidas para todos os 193 Estados-membros, apresentando agendas e respondendo perguntas.
- Sondagens no Conselho de Segurança – Membros avaliam a viabilidade política de cada nome em votações informais.
- Recomendação oficial – Com base nas negociações, o Conselho aprova uma resolução sugerindo um único candidato.
- Votação na Assembleia Geral – A recomendação é submetida ao plenário, normalmente por aclamação, consolidando o mandato de cinco anos.
O que pesa na decisão
Além da rotação regional e da busca por representatividade de gênero, entram na balança fatores como experiência em mediação de conflitos, habilidade para dialogar com potências rivais e capacidade de administrar um orçamento anual superior a US$ 3 bilhões. Episódios recentes, como a guerra na Ucrânia e as tensões em Gaza, reforçam a necessidade de um perfil considerado equilibrado pelos cinco membros permanentes.
No plano interno, a ONU também avalia compromissos com reformas administrativas e transparência, pontos cobrados por doadores diante de escândalos de assédio, fraudes em missões de paz e críticas ao ritmo das respostas humanitárias.
Tabu de 80 anos
Desde 1945, nove homens — quatro europeus, três asiáticos, um africano e um latino-americano — comandaram a organização. Tentativas anteriores de eleger uma mulher, como as candidaturas da búlgara Irina Bokova em 2016, ficaram pelo caminho. A composição atual do Conselho de Segurança e o volume de candidaturas femininas sinalizam uma oportunidade inédita de virar essa página.
Próximos passos
A expectativa é que o Conselho de Segurança realize novas rodadas de votação entre agosto e dezembro de 2026. Até lá, candidatos podem retirar-se em favor de nomes mais viáveis, e governos regionais negociarão apoios cruzados em troca de posições em agências da ONU ou compromissos políticos.
Se a tendência atual se mantiver, a Assembleia Geral poderá celebrar não apenas a primeira secretária-geral, mas também o retorno da América Latina ao mais alto cargo diplomático do planeta.