A campanha presidencial de 2026 não afetará apenas o rumo da economia ou das políticas sociais. O pleito colocará em jogo o futuro das relações do Brasil com dois países em guerra – Israel e Ucrânia – após uma sucessão de choques diplomáticos que deixaram ambas as embaixadas em Brasília sem embaixador titular e esfriaram projetos bilaterais.
Dependendo de quem vencer, o Itamaraty pode retomar o diálogo de alto nível com Tel Aviv e Kiev ou manter o distanciamento que marcou os últimos anos. De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) busca a reeleição sob críticas de ter comparado a ofensiva israelense em Gaza ao Holocausto e de ter colocado o presidente Volodymyr Zelensky no mesmo patamar de responsabilidade que Vladimir Putin pela guerra na Europa. Do outro, o senador Flávio Bolsonaro (PL) promete alinhar a política externa de forma mais clara a Israel e adota postura tida como “neutra” em relação ao conflito Rússia–Ucrânia.
Crise aberta com Israel
Comparação com o Holocausto eleva a temperatura
A tensão com Israel explodiu em fevereiro de 2024, quando Lula disse que as ações israelenses na Faixa de Gaza lembravam “o que Hitler fez com os judeus”. A frase foi recebida em Tel Aviv como ofensa grave. O governo israelense declarou o presidente brasileiro persona non grata e convocou o então embaixador do Brasil, Frederico Meyer, para uma reprimenda pública no Museu do Holocausto.
Sentindo-se humilhado, o Planalto chamou Meyer de volta. Pouco depois, a gestão petista desligou o diplomata do posto e retirou o país da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA). Além disso, o Brasil passou a apoiar na Corte Internacional de Justiça a ação da África do Sul que acusa Israel de genocídio.
Embaixadas sem titulares e relação rebaixada
O impasse se consolidou em maio de 2024, quando Brasília ficou sem embaixador em Israel. Em Tel Aviv, o governo manteve Daniel Zonshine no cargo até a aposentadoria dele, em agosto de 2025, mas não obteve do Itamaraty o agrément para o substituto, Gali Dagan. Sem resposta, Israel retirou a indicação e passou a operar com encarregado de negócios, o que na prática rebaixa o grau da relação.
No campo simbólico, diplomatas brasileiros passaram a evitar eventos oficiais promovidos pela representação israelense em Brasília. Empresários ligados ao intercâmbio bilateral relatam projetos parados à espera de sinal verde político.
Impasse com a Ucrânia
Declarações de Lula desagradaram Kiev
Em outra frente, o Planalto coleciona atritos com Kiev. Ao sugerir que Zelensky dividia a culpa pela guerra com Putin, Lula irritou o governo ucraniano, que ainda esperava uma condenação explícita do Brasil à invasão russa iniciada em 2022. A frustração só aumentou quando Lula manteve a proximidade histórica com Moscou, reforçada pelo Brics.
O embaixador ucraniano Andrii Melnyk deixou Brasília para assumir cargo na ONU, em 2025, e Kiev não designou substituto. A representação brasileira permanece ativa em Kiev, mas com interação limitada. Fontes do governo ucraniano relatam “pouco espaço de diálogo” com o Executivo e passaram a buscar apoio no Congresso, onde bancadas ligadas ao agronegócio e à direita simpatizam com a causa ucraniana.
Busca por apoio militar e retórica neutra da oposição
A Ucrânia gostaria de contar com o Brasil para pressionar o Kremlin ou, ao menos, para facilitar suprimentos militares. O Planalto descarta qualquer envio de armas e mantém discurso de mediação. Já Flávio Bolsonaro oscilou: elogiou a resistência ucraniana no início da guerra, mas hoje fala em “neutralidade estratégica”, postura que agrada parte do eleitorado conservador e ecoa a de Donald Trump, referência externa do bolsonarismo.
Cenários pós-urnas
O que muda se Lula seguir no Planalto
Integrantes do Itamaraty próximos ao presidente calculam que a normalização com Israel só ocorreria se Tel Aviv recuasse na exigência de retratação pública sobre a fala do Holocausto — algo considerado improvável. O agrément ao novo embaixador israelense continuaria suspenso e a cooperação em áreas como defesa e tecnologia permaneceria em banho-maria.
No dossiê ucraniano, a equipe de Lula avalia que qualquer escalada verbal contra Moscou comprometeria projetos energéticos e comerciais dentro do Brics expandido. A ajuda humanitária deve prosseguir, mas armamentos seguem fora de questão. Diplomatas em Brasília preveem interação protocolar com Kiev, sem investimentos de grande porte.
A agenda internacional de Flávio Bolsonaro
O senador desembarcou em Jerusalém em janeiro de 2026 para encontro com Benjamin Netanyahu. Na ocasião, prometeu transferir a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém “assim que possível” e restabelecer embaixadores nos dois sentidos. Assessores dizem que, eleito, ele daria aval imediato ao nome indicado por Israel e abriria conversas para acordos de segurança cibernética.
Com relação à Ucrânia, interlocutores do parlamentar falam em reconhecer “direito à autodefesa” de Kiev, mas evitam comprometer-se com envio de munições. A prioridade, segundo aliados, seria retomar exportações de produtos agrícolas brasileiros ao país e flexibilizar vistos para refugiados ucranianos no Brasil. Ainda assim, persiste a incógnita sobre o grau de alinhamento a Moscou, pois o ex-presidente Jair Bolsonaro manifestou simpatia por Putin no passado recente.
O relógio diplomático
Enquanto o calendário eleitoral avança, Israel mantém a aposta de que o próximo governo brasileiro, qualquer que seja, buscará solução para o vácuo diplomático. Em privado, fontes israelenses apontam que a ausência de embaixadores atrapalha desde missões comerciais até cooperação em dessalinização de água no Nordeste.
Na Ucrânia, a percepção é de que a Brasília precisa se posicionar de maneira “mais enérgica” contra a invasão russa para ocupar assento relevante nas negociações de paz. Sem embaixador em Brasília, Kiev envia delegações parlamentares para reuniões com congressistas e governadores, na tentativa de manter vivo o relacionamento bilateral.
Economia e defesa na balança
Empresas brasileiras de defesa, agronegócio e tecnologia acompanham a disputa com atenção. Contratos de venda de blindados e sistemas de comunicação a Kiev, por exemplo, ficaram na gaveta à espera de sinal político. Já start-ups israelenses de irrigação reclamam da indefinição que limita parcerias em projetos no semiárido.
Para analistas de relações internacionais, o desgaste mostra como o discurso do Palácio do Planalto pode impactar diretamente setores produtivos. A readmissão do Brasil na IHRA e o envio de embaixadores são vistos como passos essenciais para destravar investimentos.
Próximos capítulos
Com os palanques já montados, declarações sobre Gaza ou Donbass tendem a ganhar espaço nos debates. Lula deve insistir no papel de mediador global, enquanto Flávio Bolsonaro explorará a bandeira da aproximação com Israel. Até outubro, Tel Aviv e Kiev assistem, à distância, ao embate que decidirá se estenderão tapete vermelho ou manterão o freio de mão puxado nas relações com Brasília.