O Itamaraty divulgou nota nesta sexta-feira (28/8) lamentando a morte do rei Harald V, da Noruega, aos 89 anos. O comunicado expressa “as mais sentidas condolências” à família real, hoje chefiada pelo recém-proclamado rei Haakon VIII, e ao povo norueguês. O Ministério das Relações Exteriores também recordou a longa aproximação entre os dois países, reforçada por visitas de Harald ao Brasil e pelo papel norueguês como principal doador do Fundo Amazônia.
Harald faleceu em paz às 6h35 (horário local) no Hospital Universitário de Oslo, onde estava internado desde 17 de agosto para tratar uma infecção bacteriana no sangue. O Palácio Real já havia informado, na véspera, que o estado de saúde do monarca era “muito grave”. No trono desde 1991, ele era o soberano mais velho da Europa e desfrutava de alta popularidade interna, sendo frequentemente chamado de “avô da Noruega”.
Nota oficial do governo brasileiro
Na manifestação pública, o governo do Brasil destacou a “profunda amizade” construída durante o reinado de Harald V. Além de transmitir pesar, o texto enfatizou a atuação conjunta em defesa do meio ambiente e recordou que Noruega e Brasil dividem assento no Comitê Diretor do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), lançado oficialmente durante a COP30, em Belém. O gesto diplomático reflete uma parceria que, há anos, ultrapassa o campo comercial e alcança pautas climáticas sensíveis.
Diplomatas veem na mensagem um aceno tanto à continuidade da cooperação quanto à nova fase que se inicia sob Haakon VIII. A Noruega é o principal financiador do Fundo Amazônia, instrumento considerado estratégico por Brasília para captação de recursos destinados à conservação florestal. O Itamaraty frisou que o interesse pessoal de Harald pela natureza “se refletiu nas relações bilaterais”, lembrando que o monarca acompanhava de perto projetos ambientais tocados em território brasileiro.
Visitas marcantes ao Brasil
Viagem de Estado em 2003
Em 2003, Harald V desembarcou no Brasil em visita de Estado acompanhado de numerosa delegação empresarial. A passagem incluiu encontros com autoridades federais, agendas voltadas ao comércio bilateral e compromissos culturais. À época, o gesto foi visto como passo importante para ampliar investimentos de empresas norueguesas em setores como energia e navegação.
Imersão na Amazônia em 2013
Dez anos depois, o rei retornou para uma experiência incomum a chefes de Estado: passou quatro dias em uma aldeia Yanomami, no coração da Amazônia. Fotos divulgadas então mostraram o monarca em diálogo com lideranças indígenas e observando práticas de subsistência locais. O Itamaraty, na nota de hoje, classificou a viagem como símbolo máximo do interesse de Harald na preservação da floresta tropical.
Perfil de um reinado longevo
Harald V assumiu o trono em 1991, sucedendo ao pai, Olav V. Ao longo de 35 anos como príncipe herdeiro e mais de três décadas como rei, cultivou imagem de proximidade com o cidadão comum. Casado desde 1968 com a rainha Sonia, deixa dois filhos — a princesa Märtha e o agora rei Haakon VIII — além de seis netos. A longevidade e postura discreta renderam-lhe admiração interna e respeito internacional.
Segundo o Palácio Real, o monarca enfrentava problemas de saúde recorrentes, mas permanecia ativo em cerimônias até poucas semanas atrás. Era presença constante em eventos esportivos e programas de incentivo à juventude, além de patrono de diversas iniciativas ambientais. Sua morte encerra um capítulo de estabilidade institucional na monarquia norueguesa.
Transição: Haakon VIII assume o trono
A corte confirmou que Haakon VIII, de 53 anos, ascendeu ao trono “ao amanhecer” desta sexta-feira, tão logo o falecimento do pai foi registrado. Fotografias divulgadas mostram o novo rei com expressão abatida após manter vigília ao lado de Harald durante toda a noite. Ele adotou o lema “Alt for Norge” (“Tudo pela Noruega”), o mesmo usado por antecessores em momentos de reconstrução nacional.
Para diplomatas brasileiros, a continuidade dinástica não deve alterar a pauta ambiental que marcou o último reinado. Haakon já acompanhava de perto projetos financiados pelo governo norueguês no exterior e integrou comitivas que o pai chefiava em encontros multilaterais. A expectativa é de manutenção dos aportes ao Fundo Amazônia e de um diálogo fluido com Brasília.
Luto e homenagens em Oslo
Logo após o anúncio oficial, a televisão estatal norueguesa exibiu montagem de imagens de Harald V ao som do Hino Real, enquanto multidões se concentravam nas proximidades do Palácio para deixar flores e mensagens. A família real, abalada, agradeceu pelas manifestações de carinho e convidou a população a registrar condolências virtualmente.
O corpo do rei permanece no Palácio Real, onde será velado antes do funeral de Estado, cuja data será definida nos próximos dias. Autoridades brasileiras devem ser convidadas para a cerimônia, em reconhecimento ao histórico de amizade reforçado nas últimas décadas.
Importância para a agenda climática
A mensagem do Itamaraty reiterou que a Noruega “é o principal doador” do Fundo Amazônia, mecanismo que já desembolsou recursos para centenas de projetos de conservação e desenvolvimento sustentável em território brasileiro. O apoio financeiro norueguês é considerado essencial para destravar novas rodadas de investimento e reforçar compromissos de redução de emissões.
Além do Fundo, Brasil e Noruega dividem assento no Comitê Diretor do TFFF, iniciativa concebida para apoiar a manutenção das florestas tropicais em longo prazo. Lançado durante a COP30, em Belém, o programa prevê repasses bilionários a países que comprovem redução de desmatamento. A Noruega, ainda sob Harald V, foi uma das articuladoras centrais do projeto.
Próximos passos na relação bilateral
Diplomatas ouvidos reservadamente afirmam que, apesar da troca de monarca, não há indicação de mudanças substantivas na política externa de Oslo em relação ao Brasil. Haakon VIII participou de várias missões econômicas ao país e conhece os principais atores governamentais e empresariais brasileiros. A expectativa é de que a agenda climática, principal pilar da cooperação, permaneça em destaque.
Enquanto isso, o governo brasileiro monitora os preparativos para o funeral de Estado. A presença de uma delegação de alto nível é dada como certa, tanto para prestar homenagem quanto para sinalizar a disposição de aprofundar a parceria estratégica que se consolidou durante o reinado de Harald V.