Nepal volta a aceitar ajuda estrangeira enquanto buscas por 3 mil desaparecidos entram em fase crítica

0

A reversão de postura do governo do Nepal, que voltou a pedir socorro à comunidade internacional, abriu uma nova frente de esperança para quase 3 mil pessoas ainda não localizadas depois do colapso de uma geleira na fronteira com a China. Três dias após a tragédia, helicópteros, escavadeiras e equipes especializadas tentam alcançar povoados soterrados e um túnel de usina hidrelétrica onde cerca de 100 trabalhadores permanecem presos.

Enquanto o céu finalmente se abriu no sábado (29), permitindo a retomada das operações suspensas na véspera por chuva e nevoeiro, o número oficial de mortos subiu para 676 — 669 no Nepal e 7 no Tibete chinês. A cada hora que passa, aumenta a pressão sobre Katmandu para acelerar o resgate e conter o risco de novas inundações causadas por dois lagos formados após o desastre.

Reviravolta diplomática e corrida contra o tempo

Ainda na sexta-feira, o Ministério das Relações Exteriores nepalês dizia ter “recursos suficientes” para gerir a crise e solicitava apenas apoio técnico pontual. Horas depois, diante da escala da catástrofe e da aproximação de frentes meteorológicas instáveis, o gabinete do primeiro-ministro decidiu aceitar ajuda plena. Equipes indianas desembarcaram na madrugada com drones de mapeamento, unidades cinotécnicas e 60 toneladas de suprimentos. Um contingente chinês está a caminho com especialistas em resgate em alta altitude e pontes modulares.

Segundo o ministro da Gestão de Riscos, Shisir Khanal, a prioridade imediata é “chegar a todos os bolsões de isolamento” antes que a monção retorne. Técnicos estrangeiros também reforçarão a análise da estabilidade dos diques naturais que se formaram no vale, considerados frágeis pelos geólogos locais.

Operações retomadas sob ameaça de novo transbordamento

As áreas mais afetadas ficam nos distritos de Nuwakot e Rasuwa, onde a mistura de gelo, lama e rochas arrastou pontes, estradas, escolas e dois hospitais. O Exército montou uma ponte aérea entre a base militar de Bidur e vilarejos de altitude, de onde civis são extraídos em voos de menos de dez minutos. Em sentido oposto seguem mantimentos, tendas e material médico de primeiros socorros.

Túnel de hidrelétrica concentra preocupação

O ponto crítico é um túnel de quase 3 km pertencente à hidrelétrica de Trishuli-3A. Aproximadamente 100 trabalhadores foram surpreendidos pela enxurrada durante o turno da noite e recuaram para câmaras internas. Equipes de mineração indianas tentam avançar pela entrada principal, enquanto soldados nepaleses buscam escavar um eixo de respiro a partir da superfície — tarefa dificultada pela instabilidade do terreno.

Até agora, apenas vozes foram captadas por meio de um tubo estreito que serve de duto de ventilação, sinal de que ainda há pessoas com vida. O fornecimento de oxigênio e pacotes de reidratação oral começou na madrugada.

Contagem de vítimas avança

O balanço divulgado pelo Centro Nacional de Operações de Emergência registra 2 426 desaparecidos em território nepalês e 554 no Tibete. Entre eles, 540 estrangeiros que faziam trekking ou peregrinação budista nos circuitos de Langtang e Manaslu. A Federação Internacional da Cruz Vermelha calcula que 93 mil moradores foram afetados direta ou indiretamente, incluindo perda total de moradia, infraestrutura de saúde e meios de subsistência agropecuária.

Identificação depende de exames de DNA

Muitos corpos resgatados já apresentam decomposição avançada devido ao calor, impedindo reconhecimento visual. Em Katmandu, familiares formam filas diante de painéis de fotografias coladas às pressas nos muros do Campus Médico de Maharajgunj. A administração do distrito de Chitwan determinou que todos os cadáveres sejam fotografados, catalogados e submetidos à coleta de DNA antes do sepultamento em valas coletivas, medida que também busca evitar contaminação de cursos d’água.

Laboratórios forenses indianos e chineses ofereceram equipar unidades móveis de análise genética para acelerar os cruzamentos com bancos de dados de passaportes, visto que dezenas de vítimas vêm de países sem representação diplomática no Nepal.

Custo bilionário para reconstruir infraestrutura

O ministro das Finanças, Swarnim Wagle, estima que a reconstrução custará de US$ 4 bilhões a US$ 5 bilhões, quantia equivalente a quase um quarto do Produto Interno Bruto nepalês. O governo negocia linhas de crédito emergenciais com Banco Asiático de Desenvolvimento e Banco Mundial, além de solicitar doações diretas de cimento, aço e pontes pré-fabricadas.

Entre as prioridades citadas estão:

  • restabelecimento de 180 km de rodovias estratégicas bloqueadas por deslizamentos;
  • reposição de 14 pontes pênseis, vitais para o abastecimento de vilas montanhosas;
  • reconstrução de duas escolas técnicas e um hospital distrital arrasados pelas águas;
  • instalação de sistemas de alerta precoce em bacias glaciares acima de 4 000 m.

Autoridades hidráulicas de Nepal e China mantêm vigilância por satélite sobre os dois lagos recém-formados. Um deles começou a escoar de forma natural, reduzindo a pressão, mas especialistas alertam que o risco de rompimento persistirá até que ambos estejam totalmente drenados ou estabilizados com obras de proteção.

Mobilização internacional ganha fôlego

Além da Índia e da China, Japão, Alemanha e Austrália sinalizaram envio de equipes USAR (Urban Search and Rescue) e barracas infláveis para abrigar até 10 mil pessoas. A Organização Mundial da Saúde prepara um módulo de hospital de campanha com 50 leitos de observação, capaz de ser montado em 24 horas.

Em paralelo, grupos de montanhismo no exterior arrecadam fundos para guias nepaleses que perderam equipamentos e rotas de trabalho. O turismo de aventura responde por 8 % do PIB do país e deve enfrentar forte retração nos próximos meses, segundo a Associação Nacional de Agentes de Viagem.

Embora o pior da monção costume se concentrar entre junho e setembro, meteorologistas lembram que o aquecimento global aumenta a frequência de eventos extremos fora de temporada. No caso específico do Himalaia, o degelo acelerado de geleiras forma lagos instáveis que podem romper a qualquer subida de temperatura, fenômeno conhecido como GLOF (glacial lake outburst flood).

“Não é apenas uma tragédia local; é um alerta para toda a região do Hindu Kush-Himalaia”, resume o climatologista Arun Manandhar, da Universidade de Tribhuvan. Para ele, a solidariedade que agora chega ao Nepal deveria vir acompanhada de investimentos sustentáveis em monitoramento climático, sob pena de novos desastres de proporções semelhantes.

Share.
Avatar

Escobar Oliver é profissional do mercado digital desde 2021, com experiência em produção de conteúdo, SEO e gestão de portais de notícias. Como responsável pelo RSO Notícias, dedica-se a oferecer informações confiáveis, atualizadas e relevantes, sempre com compromisso editorial, transparência e qualidade na comunicação.