Uma decisão tomada em questão de instantes evitou que a maior tragédia das enchentes no Nepal fosse ainda pior. Ao receber sucessivos alertas sobre a subida repentina do rio Trishuli, o diretor Rajendra Dawadi ordenou a evacuação imediata de cerca de 900 estudantes de sua escola em Nuwakot. Menos de dez minutos depois, a enxurrada engoliu o alojamento vizinho ao prédio principal, deixando claro o tamanho do risco que corria quem permanecesse ali.
A ação rápida do educador contrasta com o balanço dramático das cheias que atingiram o país na quarta-feira (26). Autoridades locais contabilizam pelo menos 794 mortos e mais de 2,5 mil desaparecidos em território nepalês, enquanto a região do Tibete, do outro lado da fronteira, soma 16 vítimas fatais e 546 pessoas não localizadas.
Minutos que valeram vidas
A Escola de Ensino Médio Tribhuvan Trishuli atende pouco mais de 1,6 mil alunos. Na manhã da enchente, Dawadi recebeu quatro telefonemas consecutivos, cada um avisando que as águas já haviam tomado o povoado de Betrawati, situado rio acima. A distância curta entre as duas localidades e a velocidade da correnteza não deixaram margem para hesitação.
“Era só mais um dia de aula; não valia o risco”, contou o diretor a repórteres locais. Ele ordenou que professores e funcionários conduzisse os alunos por uma trilha elevada atrás dos edifícios. O grupo percorreu o caminho lamacento enquanto ouvia o barulho crescente da água. Ao alcançar um platô seguro, viram parte das instalações da escola, localizadas a menos de 100 metros do rio, cederem ao fluxo de lama e detritos.
‘Escapamos por segundos’
Entre os jovens retirados estava Yunisha, de 16 anos. Ela descreveu a fuga como “uma corrida contra o relógio”. “Nós viramos a esquina e, dez segundos depois, a água já tomava o pátio”, relatou. A adolescente e os colegas passaram por um corredor estreito que, instantes mais tarde, seria arrastado pela enxurrada.
Do outro lado, a família vivia horas de angústia. A mãe, Sabina Shrestha, tentou contato várias vezes sem sucesso. “Saber que a escola ficava às margens do rio me gelou o coração”, recordou. O reencontro só aconteceu três dias depois, quando as estradas foram liberadas e o sinal telefônico parcialmente restabelecido.
Uma tragédia de alcance internacional
As inundações afetam boa parte da encosta sul do Himalaia, zona sujeita a chuvas de monção, mas raramente com tamanha intensidade. No Nepal, o governo fala em 794 mortes confirmadas. Equipes de resgate civis, militares e voluntários ainda procuram mais de 2,5 mil desaparecidos em vilarejos soterrados ou isolados.
No Tibete, território administrado pela China, as autoridades somam 16 mortos e 546 desaparecidos. A lista de não localizados inclui cidadãos da Índia, China continental, Estados Unidos, Ucrânia, Malásia, Austrália, Reino Unido, Canadá, Coreia do Sul, África do Sul, Portugal, Holanda e Nova Zelândia, o que mobiliza embaixadas e organismos internacionais.
Infraestrutura colapsada e acesso difícil
Pontes caídas, rodovias destruídas e falta de energia retardam o socorro. Helicópteros do exército nepalês e equipes de alpinistas são usados para chegar a vilas onde toda a comunicação foi interrompida. Hospitais de campanha operam em campos abertos, enquanto escolas que permaneceram de pé, como a de Dawadi, abrigam famílias desabrigadas.
Perigo de novas enxurradas assusta especialistas
Apesar de a chuva ter diminuído, o risco está longe de terminar. Jeff Da Costa, pesquisador de sistemas de alerta precoce na Universidade de Reading, alerta para a formação de lagos temporários causados pelo acúmulo de entulho nos vales. “Essas barreiras naturais são instáveis; se romperem, mesmo um volume de água menor pode ser devastador”, explicou.
A preocupação se estende à necessidade de compartilhar dados hidrológicos entre Nepal e China. A bacia do Trishuli cruza a fronteira, e uma ruptura em território tibetano pode atingir vilarejos nepaleses em menos de uma hora. “A informação tem de circular na mesma velocidade da água”, afirmou o especialista.
Clima em transformação
Estudiosos apontam que o aquecimento global altera o regime de degelo das geleiras himalaios, afeta o permafrost e compromete a estabilidade de encostas. Essa combinação aumenta a frequência de deslizamentos e enchentes repentinas. Ainda assim, Da Costa ressalva que é preciso analisar dados de longo prazo antes de atribuir este desastre específico às mudanças climáticas.
Recomeço em meio aos escombros
Na Escola Tribhuvan Trishuli, funcionários iniciam a limpeza dos poucos blocos não atingidos, enquanto o governo avalia se reconstruirá o alojamento no mesmo local. Dawadi, considerado herói pela comunidade, rejeita o rótulo: “Fiz o que qualquer educador faria. A segurança dos estudantes vem primeiro”.
Com aulas suspensas por tempo indeterminado, os corredores agora guardam colchões improvisados para moradores que perderam tudo. Crianças brincam entre pilhas de cadernos encharcados, e grupos de pais se revezam na cozinha comunitária montada no refeitório.
A vida que segue
Para Yunisha, o retorno à escola significará muito mais que provas e lições. “Cada passo ali vai me lembrar de que estou viva por causa daquela decisão”, diz. A mãe concorda, abraçando a filha com força: “Foi um milagre, mas dependemos da coragem de pessoas como o diretor para que milagres aconteçam”.