O anúncio de que empresas norte-americanas passarão a explorar 17 campos considerados estratégicos na Venezuela acendeu, ao mesmo tempo, a promessa de alívio econômico e o temor de perda de soberania. Pelo trato firmado em Caracas, Washington terá controle majoritário sobre 65 bilhões de barris das reservas locais — volume descrito pela Casa Branca como “o maior acordo petrolífero da história”. Em troca, um pacote privado de US$ 100 bilhões deve irrigar a combalida estatal PDVSA e reativar um parque extrativo que já produziu três milhões de barris diários, mas hoje mal supera 1,2 milhão.
O governo interino liderado por Delcy Rodríguez, que assumiu em janeiro após a captura de Nicolás Maduro numa operação coordenada com agentes norte-americanos, garante que a operação transformará “uma cifra inerte” em bem-estar social. Parte da população, porém, vê no sigilo contratual o risco de que a maior riqueza do país continue financiando bolsos alheios. Entre dúvidas e esperanças, a nação ens ensaia uma guinada cujo alcance real ainda permanece nebuloso.
Como funciona o acordo
O documento, mantido sob confidencialidade por Caracas e Washington, estabelece que consórcios sediados nos Estados Unidos assumirão a gestão técnica e financeira de 17 blocos distribuídos entre a Faixa do Orinoco e a bacia do Lago de Maracaibo. Estão previstos:
- investimento mínimo obrigatório de US$ 100 bilhões nos próximos cinco anos;
- modernização de infraestrutura, incluindo oleodutos, terminais e refinarias;
- pagamento de royalties, impostos e bônus de assinatura que, segundo Rodríguez, podem gerar US$ 204 bilhões em receitas tributárias ao longo do contrato.
O controle societário fica majoritariamente com as companhias estrangeiras, que terão poder de decisão sobre ritmo de produção, embarques e destino do óleo. O governo venezuelano indica que manterá prerrogativas fiscais e direito de veto em temas “sensíveis à segurança nacional”, mas não detalha quais.
Pressão de Washington viabilizou abertura
O avanço ocorre após os Estados Unidos afrouxarem, no início do ano, parte das sanções petrolíferas vigentes desde 2019. A flexibilização incluiu licenças para transações financeiras, importação de peças e contratação de seguros — condições sem as quais o capital privado se recusava a ingressar no país. Para analistas, a permissão atua como garantia informal de que futuras mudanças políticas em Caracas não anularão os contratos.
O que está em jogo para a economia venezuelana
Entre janeiro e julho, a Venezuela ampliou em 29,8 % sua produção, alcançando 1,2 milhão de barris diários. O salto foi celebrado, mas o patamar ainda está distante dos picos registrados no fim dos anos 1990. Engenheiros como Oswaldo Felizzola calculam que, mesmo com a injeção bilionária, um avanço sustentável levará “três ou quatro anos para se materializar”. Sem caixa próprio, a PDVSA deixou de realizar manutenções básicas e perdeu mercado para vizinhos como Brasil e Colômbia.
A esperança popular concentra-se no potencial de geração de empregos diretos na cadeia de serviços e, sobretudo, na recuperação da receita em divisas. Atualmente, o salário mínimo oficial vale o equivalente a US$ 0,16, e benefícios estatais elevam a renda média para US$ 240 — bem abaixo dos US$ 730 exigidos por uma cesta básica, segundo institutos independentes.
Renda do petróleo X custo de vida
Para o funcionário público aposentado Carlos Baco, de 74 anos, a condição é clara: “Se querem nosso petróleo, paguem a preço justo. Só assim veremos melhora no bolso”. Até agora, ele diz não ter sentido no mercado o impacto do recente aumento de extração: “O dólar sobe, o arroz sobe, o transporte sobe. Nada segura”.
Reação política: chavismo dividido, oposição cautelosa
O Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) emitiu nota afirmando que apoia “mecanismos de recuperação produtiva que privilegiem interesses nacionais”. Dentro da própria legenda, contudo, militantes demonstram incômodo com a entrega de maioria acionária a estrangeiros. “Não sabemos quem ganha mais, se é a Venezuela ou eles”, resume Jesús Salazar, 68, vigia em Caracas desde a década de 1980.
Na oposição, vozes que tradicionalmente defendem maior abertura ao capital externo agora cobram transparência. Parlamentares exigem acesso aos anexos contratuais para verificar alíquotas de royalties, cláusulas de estabilidade fiscal e previsão de conteúdo local.
Especialistas veem acordo como “mal necessário”
O analista Elías Ferrer define a parceria como “inevitável” diante da paralisia financeira da PDVSA. “Se esses campos ficassem fechados, ninguém pagaria imposto algum. Ao menos agora existe fluxo de caixa em perspectiva”, diz. Já a ex-vice-ministra da Energia, Dolores Dobarro, reconhece que os termos poderiam ser melhores, mas destaca o potencial de ressurgimento do setor caso a implantação respeite padrões ambientais e trabalhistas.
Opacidade gera onda de boatos
A falta de dados concretos alimenta especulações nas redes sociais. Circulam versões que variam entre a suposta cessão integral da PDVSA a multinacionais e ganhos “irrisórios” para o erário venezuelano. Até o momento, nem o Ministério do Petróleo nem o Departamento de Estado norte-americano divulgaram tabelas de porcentuais ou cronogramas de investimentos.
Economistas alertam para dois pontos críticos:
- o risco de que a receita petrolífera volte a se concentrar no aparelho estatal, sem chegar à população em forma de serviços;
- a possibilidade de que um retorno de instabilidade política — ou novas sanções — afugente os investidores antes de os poços atingirem maturidade.
Próximos passos
Empresas selecionadas já iniciaram levantamentos sísmicos e inspeção de poços inativos. O primeiro petróleo do novo ciclo deverá sair em escala comercial apenas no fim de 2027, apontam projeções internas. Até lá, o êxito do acordo dependerá de fatores geopolíticos, da estabilidade cambial e da capacidade do governo de canalizar parte dos recursos para setores como saúde, educação e infraestrutura civil.
Retrato de um país em suspenso
Com a economia encolhida em 80 % entre 2014 e 2021, a Venezuela se apoia agora em uma cartada de alto risco: entregar vastas reservas a grupos estrangeiros na promessa de uma virada que a própria população não consegue enxergar no curto prazo. Enquanto as bombas de extração danificadas aguardam restauração nos campos do Lago de Maracaibo, o debate sobre quem realmente se beneficiará continua aberto — e a resposta só virá quando o primeiro navio petroleiro deixar o porto carregado com o óleo da nova era.