Sequestrada no Japão, mantida 24 anos na Coreia do Norte e obrigada a casar: a história de Hitomi Soga

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Hitomi Soga tinha apenas 19 anos quando desapareceu numa tarde abafada de 1978, na ilha de Sado, província de Niigata. Capturada ao lado da mãe por agentes norte-coreanos, ela só voltaria a pisar em solo japonês 24 anos depois, já casada com um ex-sargento americano que também vivia como prisioneiro do regime de Pyongyang. Entre o rapto e o reencontro com a família, Soga sobreviveu à vigilância constante, ao medo de nunca mais ver a mãe e a um casamento arranjado que, contra todas as probabilidades, tornou-se seu principal porto seguro.

O caso de Soga ganhou repercussão mundial ao expor um programa secreto de sequestros executado pela Coreia do Norte ao longo das décadas de 1970 e 1980. Ao admitir o crime em 2002, o então líder Kim Jong-il revelou parte de uma rede que, segundo Tóquio, envolveu pelo menos 17 cidadãos japoneses — número que ativistas e famílias consideram subestimado. A história da jovem de Sado tornou-se símbolo dessa luta e lançou luz sobre um capítulo que ainda hoje impede a normalização das relações entre os dois países.

Rapto repentino e sumiço da mãe

Na tarde de 31 de agosto de 1978, Hitomi e a mãe, Miyoshi, voltavam de um supermercado quando foram surpreendidas por três homens. Sob a mira de armas, as duas tiveram a boca coberta por um pano embebido em substância desconhecida, sacos enfiados na cabeça e foram levadas até a costa. De lá, embarcaram primeiro numa lancha, depois num navio maior, sem trocar uma única palavra. Dias depois, já em solo estrangeiro, a jovem percebeu que não estava mais no Japão.

Mãe e filha foram separadas logo na chegada. Soga passou dois anos confinada num quartel militar, sem notícias de Miyoshi e sem explicação oficial. Relata que, à noite, olhava para a lua tentando adivinhar se a família também encarava aquele mesmo céu. “Se eles contassem a verdade, talvez eu não conseguisse suportar”, recordou anos mais tarde.

“Livros didáticos vivos” e estratégia de espionagem

Investigações conduzidas por Tóquio indicam que o regime norte-coreano pretendia transformar os raptados em “manuais humanos” capazes de ensinar idioma e costumes japoneses a futuros espiões. Acredita-se que vítimas também serviram de fachada para casamentos internacionais forçados, compondo material de propaganda de um país que via nos Estados Unidos e no Japão seus principais inimigos.

Soga nunca soube se foi alvo aleatório ou selecionado, mas a juventude, o domínio da língua e a origem rural se encaixavam no perfil buscado por Pyongyang. Sem emprego formal, ela recebia porções mensais de comida e instruções rígidas sobre o que podia ou não fazer, sempre vigiada por informantes do governo.”

Um casamento sem escolha que virou parceria

Em 1980, aos 21 anos, Hitomi foi informada de que deixaria o quartel. Em compensação, teria de se casar com Charles Robert Jenkins, então com 40 anos, ex-sargento do Exército dos EUA que atravessara a Zona Desmilitarizada em 1965 para fugir de uma transferência ao Vietnã. O regime calculava que a união entre uma japonesa e um desertor americano seria útil para posar de defensor dos oprimidos contra Washington e Tóquio.

O primeiro encontro aconteceu num dia chuvoso, num salão austero. Nenhum dos dois podia recusar. Com o passar dos meses, a convivência forçada transformou-se em afeto genuíno. Jenkins improvisava brinquedos de madeira para as duas filhas do casal, Mika e Brinda, enquanto Soga cultivava vegetais para complementar a dieta escassa. “O medo estava sempre lá, mas a família nos deu força”, contou ela mais tarde.

Viver sob vigilância permanente

  • Proibidos de trabalhar em empresas locais, os dois recebiam subsídios mínimos em arroz, combustível e roupas.
  • Saídas eram restritas a eventos obrigatórios de lealdade ao regime.
  • Cinemas, shows ou bibliotecas para estrangeiros praticamente não existiam.
  • Correspondência com o exterior era impossível; qualquer tentativa seria punida.

Quando o segredo veio a público

O destino de Soga mudou em setembro de 2002, durante a histórica cúpula Japão–Coreia do Norte. Pressionado por negociações sobre normalização diplomática, Kim Jong-il reconheceu oficialmente 13 raptos, entre eles o de Hitomi. O ditador alegou que apenas cinco vítimas continuavam vivas e autorizou uma visita “temporária” ao Japão.

No aeroporto, o pai e a irmã de Hitomi aguardavam havia 24 anos por notícias. O reencontro foi marcado por choro coletivo e manchetes em toda a imprensa japonesa. Temendo não voltar a sair de Pyongyang, Jenkins e as filhas ficaram para trás, mas a jovem de Sado decidiu permanecer em casa até que o governo japonês garantisse a repatriação definitiva da família.

Negociações, julgamento e retorno em família

Jenkins relutava em viajar a Tóquio: como desertor, podia ser preso por autoridades americanas baseadas no Japão. Após tratativas entre governos, ele recebeu promessa de julgamento abreviado em troca de cooperação. Em 2004, pousou em Haneda, foi submetido a corte marcial, declarou-se culpado e cumpriu 25 dos 30 dias de pena na base de Zama.

Com o caso encerrado, a família instalou-se em Sado, onde Jenkins trabalhou numa loja de souvenirs e as filhas iniciaram aulas de japonês. O ex-sargento morreu em 2017, aos 77 anos, deixando a esposa à frente de uma campanha que pressiona Tóquio e organizações internacionais pela devolução de todos os raptados que ainda estariam vivos na Coreia do Norte.

Busca incessante pela mãe desaparecida

A maior ferida de Hitomi continua aberta: o paradeiro de Miyoshi. Pyongyang jamais confirmou se a mãe entrou no país, morreu na travessia ou foi transferida para outra região. “Cada dia que passa diminui a chance de abraçá-la de novo, mas não vou desistir”, afirma.

Ela visita escolas, participa de comícios e exibe a foto da mãe em conferências internacionais, numa tentativa de manter o tema vivo na opinião pública. Para famílias que dividem a mesma dor, Soga tornou-se liderança natural e exemplo de resiliência. “Se eu conseguir trazer minha mãe de volta, ninguém mais vai poder dizer que é impossível”, costuma repetir.

Impasse diplomático que persiste

O governo japonês mantém como política oficial o retorno de todos os sequestrados identificados; Pyongyang rejeita novas investigações e atribui as mortes a doenças ou acidentes nunca comprovados. Esse impasse trava conversas sobre sanções, ajuda humanitária e, sobretudo, o restabelecimento de relações formais entre os dois países.

Enquanto chanceleres trocam notas diplomáticas, Soga, hoje com 64 anos, planta flores no quintal onde um dia sonhou ver a mãe entrar pelo portão. A luta dela expõe não apenas uma história pessoal de sobrevivência, mas também a face humana de um conflito geopolítico que segue sem desfecho.

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Escobar Oliver é profissional do mercado digital desde 2021, com experiência em produção de conteúdo, SEO e gestão de portais de notícias. Como responsável pelo RSO Notícias, dedica-se a oferecer informações confiáveis, atualizadas e relevantes, sempre com compromisso editorial, transparência e qualidade na comunicação.