O drama no Himalaia ganhou contornos ainda mais trágicos nesta semana. A avalanche que varreu vales de Nepal e Tibete deixou centenas de mortos ou desaparecidos e revelou um cenário em que o salvamento é, na prática, uma corrida de 15 minutos – período-limite que especialistas dão para vítimas soterradas continuarem vivas. Depois de três dias de buscas, apenas 350 trabalhadores que se refugiaram num túnel de uma hidrelétrica foram retirados com vida; para os demais, a chance de sobrevivência praticamente se extinguiu logo após o primeiro impacto da massa de lama, pedras e água.
O contraste com terremotos é brutal. Enquanto tremores oferecem uma “janela dourada” de até 72 horas para encontrar pessoas em bolsões de ar sob escombros, deslizamentos em alta montanha comprimem toda a esperança em poucos minutos. Essa diferença de tempo impõe às equipes de emergência um desafio logístico, técnico e, sobretudo, humano, multiplicado pela altitude, pela destruição de estradas e pelo risco de novos colapsos de encostas.
Por que 15 minutos fazem toda a diferença
Diversos estudos internacionais, entre eles uma pesquisa publicada na revista científica Jama sobre avalanches nos Alpes suíços, convergem para o mesmo ponto: a maioria das vítimas soterradas morre de asfixia entre 10 e 15 minutos após o impacto. A lama compacta veda qualquer passagem de ar, e a pressão impede movimentos que poderiam criar pequenos espaços respiráveis. Quando o fluxo cessa, quem não estava na borda do deslizamento já perdeu a luta contra o tempo.
No Himalaia, o fenômeno foi agravado pela mistura de água dos rios de degelo, troncos de árvores arrancadas e detritos de casas inteiras. O material forma um cimento natural que endurece rapidamente, transformando o terreno num bloco impossível de perfurar com enxadas ou pás convencionais. Mesmo com retroescavadeiras, o acesso a camadas abaixo de seis metros se torna lento demais para qualquer tentativa de resgate com vida.
O abismo em relação a terremotos
- Tempo de resposta: 72 h em tremores versus 15 min em avalanches.
- Acessibilidade: prédios colapsados mantêm algum formato; a lama arrasta estruturas por quilômetros.
- Bolsões de ar: mais comuns em colapso de lajes; raríssimos em massa úmida e densa.
- Profundidade: escombros empilham, mas raramente ultrapassam dois andares; na avalanche, vítimas podem ficar a dezenas de metros.
Corpos arrastados e referências apagadas
Quando a terra treme, bombeiros podem mapear as plantas de edifícios para decidir onde abrir brechas. Em uma avalanche, não há mais mapa. Construções inteiras são dilaceradas e espalhadas; carros, postes e árvores viajam junto, apagando qualquer ponto de orientação. Corpos podem ser levados a vales vizinhos ou soterrados em leitos de rios agora cobertos de entulho.
Esse deslocamento exige das equipes o uso de drones e sensores de calor para tentar localizar sinais biológicos. Mesmo assim, o corpo esfria rápido sob a lama gelada, e a detecção torna-se ineficaz poucas horas após o desastre. Por isso, autoridades admitem que parte dos desaparecidos talvez nunca seja encontrada.
Terreno ainda ameaça quem procura salvar
A instabilidade é tamanha que o protocolo internacional recomenda não entrar na zona vermelha até que haja garantia mínima de segurança. No vale atingido, encostas perderam vegetação que fixava o solo e podem desmoronar novamente a qualquer chuva. Técnicos têm de instalar sismógrafos portáteis e refletores a laser para captar micro-movimentos, processo que atrasa o início das escavações pesadas.
Ao mesmo tempo, o chão virou um pântano profundo. Para cada passo, equipes posicionam tábuas de madeira ou trilhas metálicas a fim de não afundarem. Só então chega o maquinário, que precisa avançar a poucos metros por hora para não afogar em lodo.
Risco de tragédia em cima de tragédia
- Desprendimentos secundários podem soterrar socorristas.
- A liberação repentina de bolsões de água subterrânea cria correntes inesperadas.
- Condições climáticas mudam rápido em alta altitude, com neve e chuva no mesmo dia.
Caminhos destruídos dificultam o socorro
Boa parte das estradas que ligam Katmandu e Lhasa às aldeias foi simplesmente arrancada pela enxurrada. Pontes pênseis de vilarejos montanhosos ruíram; asfalto ficou suspenso no ar, sem encosta de apoio. Para chegar à zona do desastre, equipes recorrem a trilhas de cabras ou abrem clareiras para pouso de helicópteros, cujas hélices ainda correm o risco de provocar novos deslizamentos pelo vento gerado.
Esse gargalo logístico também compromete a cadeia de suprimentos. Geradores de energia, combustível, comida desidratada, macas e sacos impermeáveis para corpos precisam ser içados por guindastes improvisados ou enviados em voos sucessivos. O tempo gasto na mobilização pesa contra a urgência imposta pelos 15 minutos fatais.
Escavar não basta: é preciso quebrar um bloco de concreto natural
Quando, enfim, a lama assenta, ela se compacta como argamassa. Retroescavadeiras conseguem retirar camadas superficiais, mas o núcleo endurecido exige britadeiras hidráulicas, o que retarda o trabalho e expõe corpos à decomposição acelerada. Mesmo se uma vítima for localizada por sonar ou cães farejadores, pode estar encerrada num compartimento sem acesso direto, circundado por rochas e vigas metálicas.
Há ainda dilemas humanitários. Cada hora gasta para remover um único corpo pode significar desistir de procurar vários outros. Em regiões remotas, famílias pressionam por cerimônias fúnebres rápidas, mas a exumação depende de perícia oficial para evitar desaparecimentos administrativos. O resultado, em muitos casos, é a criação de memoriais coletivos em pleno local da tragédia, sem que todos tenham sido identificados.
Um respiro improvável: o caso do túnel da hidrelétrica
O principal resgate bem-sucedido ocorreu porque centenas de operários estavam dentro de um túnel em construção no momento em que a avalanche chegou. A estrutura, feita de concreto armado e situada a dezenas de metros abaixo da superfície, resistiu à pressão da enxurrada. Ainda assim, os trabalhadores ficaram ilhados, sem ventilação adequada e com risco de inundação. Foi preciso perfurar uma chaminé de emergência para introduzir oxigênio e, em seguida, escavar um corredor lateral até alcançá-los.
Para além do alívio, o episódio reforça a excepcionalidade de encontrar sobreviventes fora da borda do desastre. O túnel oferecia a vedação hermética e o volume de ar que normalmente inexistem em residências de madeira e tijolo dos vilarejos himalaios.
O que muda a partir de agora
Governos de Nepal e China discutem instalar sistemas de alerta antecipado em encostas e rios glaciais, além de mapear rotas de fuga para comunidades vulneráveis. No entanto, especialistas lembram que, diante de avalanches do porte registrado, a prevenção é praticamente a única estratégia eficaz: uma vez iniciado o colapso, a janela para salvar vidas se fecha em questão de minutos.
Enquanto isso, equipes de resgate insistem na busca por desaparecidos, cientes de que operam mais pela dignidade das vítimas do que pela esperança de achar sobreviventes. Entre a lama endurecida e as montanhas que ainda rangem, o Himalaia expõe o limite humano frente à força bruta da natureza.