O choro contido de socorristas deu lugar a aplausos quando uma menina foi retirada com vida dos escombros de uma casa próxima ao posto fronteiriço de Timure, entre o Nepal e o Tibete chinês, na sexta-feira (28). O salvamento, filmado pela Força Armada Policial do Nepal e divulgado neste sábado, ocorreu 48 horas depois da avalanche que varreu vilarejos inteiros na encosta do Himalaia.
Enquanto o resgate alimenta a esperança de encontrar outros sobreviventes, a tragédia já contabiliza 676 mortos e quase 3 000 desaparecidos. Pressionado pela dimensão do desastre, o governo nepaleso voltou atrás e passou a aceitar reforços internacionais para as operações de busca e socorro.
Duas noites sob os escombros
A menina, cuja idade não foi informada, ficou soterrada quando um deslizamento de lama, rochas e gelo esmagou a casa da família. Equipes de salvamento abriram um túnel improvisado entre vigas retorcidas e paredes de barro até localizar sinais de vida. Horas depois, a criança foi içada em uma maca rígida e transportada de helicóptero para um hospital de Katmandu. Seu estado de saúde não foi divulgado, nem se ela perdeu parentes no desastre.
Especialistas alertam que, em deslizamentos, o tempo de sobrevivência sob detritos costuma ser menor que em terremotos por causa da umidade, da falta de bolsões de ar e do peso heterogêneo do material. Por isso, cada hora transcorrida reduz a probabilidade de retirar vítimas vivas, principalmente fora da chamada “zona de sobrevivência”, o perímetro que delimita a borda do deslizamento.
Virada de postura: ajuda externa liberada
Na véspera, o Ministério das Relações Exteriores garantira que o Nepal dispunha de meios próprios para conduzir as buscas. A declaração durou pouco. Ainda na sexta-feira, gabinetes militares e civis concluíram que a extensão da catástrofe exigia reforço internacional. A mudança foi oficializada na madrugada de sábado, abrindo espaço para equipes de Índia, China e outros países com expertise em resgates de alta monta.
Missão indiana já em campo
- Dois pelotões do Exército indiano, com unidades caninas e equipamentos de detecção acústica, desembarcaram em Katmandu.
- A China mobilizou um contingente de bombeiros especializados em resgates em túnel, aguardado para as próximas horas.
- Organizações humanitárias internacionais enviaram kits de purificação de água, tendas e geradores aéreos.
Antes da liberação global, voos de reconhecimento chegaram a ser suspensos por nevoeiro e chuvas fortes. Com a melhora do tempo, helicópteros militares retomaram as decolagens para regiões isoladas.
Balanço de mortos e desaparecidos
O último relatório do Centro Nacional de Operações de Emergência registra 669 mortes em território nepaleso e sete no Tibete chinês, totalizando 676 vítimas confirmadas. Entre os quase 3 000 desaparecidos há moradores, turistas, peregrinos e operários de usinas hidrelétricas; ao menos 540 não são nepaleses.
A contabilidade tende a crescer conforme rompe-se o bloqueio natural que cobre estradas e trilhas de acesso. Em alguns distritos, corpos começam a se decompor rapidamente sob calor e umidade, obrigando autoridades a coletar amostras de DNA antes do enterro para permitir futura identificação e evitar riscos sanitários.
Operação crítica em túnel hidrelétrico
Um dos pontos de maior tensão é o túnel de uma usina hidrelétrica onde cerca de 100 trabalhadores permanecem presos. Equipes indianas levaram câmeras de fibra óptica para sondar fendas, mas o avanço é lento devido à instabilidade do solo e ao fluxo constante de água barrenta.
Riscos persistentes e logística frágil
A avalanche foi desencadeada na quarta-feira (26) pelo colapso de uma geleira que despejou milhões de metros cúbicos de detritos sobre rios na fronteira Nepal-China. A massa destruiu pontes, escolas, hospitais e trechos de rodovias, além de formar dois grandes lagos temporários. Um deles começou a escoar lentamente no sábado, reduzindo o risco imediato de transbordamento, mas engenheiros afirmam que o perigo só cessará quando ambos estiverem totalmente drenados.
Na cidade de Bidur, a 70 km de Katmandu, uma base militar improvisada recebe moradores resgatados por via aérea. Helicópteros priorizam pacientes feridos e crianças, enquanto comboios terrestres tentam reabrir rotas bloqueadas por lama. O cenário é agravado por deslizamentos secundários, comuns após chuvas de monção.
Impacto humanitário e conta da reconstrução
Segundo a Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, cerca de 93 000 pessoas foram afetadas diretamente pelo desastre. A Índia já enviou 60 toneladas de alimentos, medicamentos, cobertores e pontes pré-fabricadas para restaurar travessias estratégicas.
O ministro das Finanças, Swarnim Wagle, estima que a reconstrução custará de US$ 4 bi a US$ 5 bi — algo entre R$ 20,8 bi e R$ 26 bi na cotação atual. Além de recursos, o governo pede assistência técnica para resgates em túnel, testes de DNA, armazenamento de corpos e reparo de infraestrutura crítica.
Enquanto tratores removem montanhas de lama e drones mapeiam áreas intransitáveis, o olhar do país se volta para pequenas vitórias como o salvamento da menina em Timure. Cada vida poupada sustenta a moral das equipes que, em meio a chuva, nevoeiro e terrenos instáveis, tentam transformar escombros em terreno firme para a reconstrução do Nepal.