De Washington a Manágua, discursos que lançam dúvidas sobre a lisura do voto tornaram-se parte das campanhas ou da própria rotina de governo em 2026. Políticos derrotados – ou temerosos da derrota – passaram a culpar as urnas por supostas fraudes sem apresentar provas, enquanto líderes no poder reformam leis para limitar a concorrência. O resultado é um cenário de tensão contínua que testa a solidez de instituições eleitorais construídas, em muitos casos, sobre memórias ainda quentes de regimes autoritários.
O fenômeno não tem cor ideológica única. Nos Estados Unidos, o ex-presidente Donald Trump trabalha para restringir o voto pelo correio; no Brasil, Flávio Bolsonaro repete insinuações já desmentidas pela Justiça Eleitoral; no Peru e na Colômbia, candidatos de esquerda se recusaram a reconhecer a derrota; enquanto Nicarágua e Venezuela atravessam fases em que a própria competição foi amputada. Especialistas veem nos episódios tanto o legado de ditaduras latino-americanas quanto sinais de erosão institucional em democracias consideradas consolidadas.
Panorama continental dos questionamentos
Estados Unidos: mira no voto postal
Derrotado em 2020, Donald Trump mantém a narrativa de que o pleito foi manipulado e, desde então, pressiona para reduzir o uso do voto pelo correio – modalidade mais popular entre eleitores democratas. A ofensiva incluiu ações judiciais, pressões sobre governos estaduais e declarações sem evidências de fraude em massa. A postura alimentou o clima que culminou na invasão do Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, e sustenta índices inéditos de desconfiança no processo, segundo pesquisas do Pew Research Center. Dados do instituto Variedades da Democracia (V-Dem) indicam que, em apenas um ano, os EUA caíram 24% no indicador de democracia liberal, despencando do 20º para o 51º lugar.
Brasil: urnas eletrônicas viram alvo de suspeitas
Na corrida ao Planalto, o senador Flávio Bolsonaro organizou embaixadores para ouvir acusações contra o sistema eletrônico brasileiro, associando as máquinas nacionais a uma fornecedora venezuelana. O Tribunal Superior Eleitoral esclareceu que todo o projeto é desenvolvido internamente e que a empresa citada não participa do processo. Confrontado em rede nacional, o candidato recuou: prometeu respeitar o resultado, mas assegurou que “não perderá” e vencerá no primeiro turno.
Peru e Colômbia: derrotas contestadas
No Peru, Roberto Sánchez pôs em dúvida votos do exterior após perder a disputa apertada para Keiko Fujimori. Missões da OEA e da União Europeia auditaram as atas e não encontraram inconsistências além de falhas logísticas. Na Colômbia, o ex-presidente Gustavo Petro levantou suspeitas sobre a vitória do conservador Abelardo de la Espriella, mas auditorias da Justiça Eleitoral confirmaram a contagem preliminar. Em ambos os casos, a certificação foi concluída e os presidentes eleitos tomaram posse.
Quando o pleito deixa de ser livre
Nicarágua: oposição banida por lei
Daniel Ortega transformou desgaste em oportunismo político. Reformas aprovadas pelo Congresso sob seu controle proibiram partidos opositores de disputar eleições futuras, consolidando a dinastia que governa o país desde 2007. A última votação, em 2021, já havia ocorrido após a prisão de adversários e foi amplamente rechaçada por observadores internacionais. Agora, sem rival legal, Ortega e a copresidenta Rosario Murillo eliminam o último obstáculo à reeleição indefinida.
Venezuela: vazio eleitoral pós-Maduro
A captura de Nicolás Maduro, em janeiro de 2026, reabriu a discussão sobre eleições livres. Contudo, a presidente interina Delcy Rodríguez, apoiada por Washington, afirmou que “o país não está pronto” para votar. Sem data marcada, a paralisia prolonga o status de governo provisório e mantém a população afastada das urnas, perpetuando a ausência de legitimidade democrática.
Raízes de uma ofensiva recorrente
Para a cientista política Lorena Barberia, da USP, a América Latina carrega um “déficit de desapego” ao poder: presidentes relutam em aceitar derrotas e, quando vencem, mudam regras para permanecer no cargo. Seu levantamento mostra que um quarto dos países da região sofreu retrocessos autoritários nas últimas duas décadas – quase sempre conduzidos por eleitos que, de dentro do sistema, corroeram-no ao ponto de inviabilizar a alternância.
Nos Estados Unidos, o movimento é distinto, observa o fundador do V-Dem, Staffan Lindberg. Lá, a ameaça vem da politização de agências de controle, da intimidação de tribunais e do ataque frontal à imprensa – fenômenos que corroem lentamente a confiança acumulada em dois séculos de votação ininterrupta.
Memória autoritária ainda pesa
Exposições sobre ditaduras, como a recente mostra fotográfica de Evandro Teixeira no Rio, lembram que Chile, Argentina, Brasil e outros países sul-americanos passaram pouco mais de três décadas em regimes militares. Essa experiência colectiva alimenta a suspeita de que a vontade popular possa novamente ser sequestrada, tornando fácil a difusão de boatos sobre fraude.
Instituições em disputa
Barberia explica que fragilidades técnicas – registros de eleitores, logística precária, financiamento insuficiente – oferecem brechas para narrativas conspiratórias. “Quando o resultado é apertado, qualquer fila longa, urna que trava ou atraso na totalização vira prova de golpe para quem perdeu”, resume a pesquisadora.
O que está em jogo para as democracias
Questionar o sistema eleitoral não é, por si, antidemocrático; faz parte do direito de fiscalizar. O problema surge quando alegações infundadas minam a confiança coletiva e justificam medidas que restringem o acesso ao voto ou eliminam adversários. A história recente da região mostra dois caminhos distintos: Bolívia, Equador e Honduras conseguiram retomar eleições competitivas após retrocessos; Nicarágua seguiu rumo oposto, institucionalizando o autoritarismo.
Em 2026, o pêndulo político latino-americano balança para a direita, impulsionado por crises econômicas e violência, mas sem garantia de estabilização. Nos bastidores, governos estrangeiros observam e, por vezes, apoiam atores locais alinhados a seus interesses. Ainda assim, estudiosos como Regiane Bressan, da Unifesp, lembram que a chave continua doméstica: “São fatores internos – desgaste de governo, insatisfação do eleitorado, mudança de regras – que alimentam o ciclo de contestação”.
Com calendários eleitorais apertados, o continente terá novo teste de resistência em 2027. Se a confiança nas urnas continuar a ser corroída, a disputa deixará de ser apenas entre partidos ou programas de governo: passará a ser sobre a própria existência de eleições livres.