A Alternativa para a Alemanha (AfD) saiu das urnas neste domingo (6) com a maior votação de sua história: cerca de 44% dos votos na eleição estadual da Saxônia-Anhalt, segundo resultados ainda parciais. O desempenho aproxima a legenda de extrema-direita do comando de um governo regional pela primeira vez no pós-Segunda Guerra, embora a formação de maioria no Parlamento local ainda dependa de negociações com outras siglas.
A vitória amplia a tensão sobre o chanceler Friedrich Merz, cujo partido, a União Democrata-Cristã (CDU), amargou desempenho muito inferior no estado. Pesquisas de boca de urna apontam que 87% dos eleitores saxões-anhaltinos estão insatisfeitos com o governo federal, cenário que potencializou a guinada à direita nas urnas.
Resultado histórico, mas governo indefinido
Mesmo com a dianteira expressiva, a AfD não tem caminho automático para chefiar o Executivo regional. O Landtag — o parlamento da Saxônia-Anhalt — precisa distribuir as 97 cadeiras conforme a votação de cada partido, e outros grupos políticos indicam resistência a compor com os ultradireitistas. Caso União Democrata-Cristã, Social-Democratas (SPD), Verdes e Liberais (FDP) consigam somar maioria, podem barrar a chegada dos nacionalistas ao poder efetivo, repetindo a “muralha democrática” usada em outros estados.
Ainda assim, o volume de votos recebido pela AfD fortalece sua posição de barganha em pautas locais e lhe garante visibilidade nacional às vésperas dos próximos pleitos regionais de 2027. A legenda já indicou que pretende reivindicar a presidência do parlamento estadual e as principais comissões.
Impacto na política federal
Revés para Friedrich Merz
O chanceler e líder da CDU viu o partido registrar seu pior desempenho na Saxônia-Anhalt desde a reunificação alemã. Analistas, como Marcel Fratzscher, presidente do Instituto Alemão de Pesquisa Econômica, atribuem o resultado a uma “manifestação de desapontamento” com a política econômica e energética do governo central.
Escalada que ultrapassa o leste do país
Fundada em 2013 com forte discurso anti-euro, a AfD consolidou-se no leste alemão — região que inclui estados com histórico de menor renda e maior evasão populacional. Nos últimos dois anos, porém, a sigla passou a crescer também em áreas do oeste, aparecendo à frente de legendas tradicionais em sondagens nacionais. Caso mantenha o fôlego até 2029, quando ocorrerá a próxima eleição federal, o partido pode influenciar de forma inédita a composição do Bundestag.
Por que a Saxônia-Anhalt virou vitrine da AfD?
Herança da antiga Alemanha Oriental
Com pouco mais de 2 milhões de habitantes, a Saxônia-Anhalt integrou a República Democrática Alemã até 1990. Questões como fechamento de indústrias, migração de jovens para o oeste e queda demográfica mantiveram a região entre as mais críticas às decisões de Berlim. Esse terreno fértil para o voto de protesto foi capitalizado pela AfD, que promete “proteção à indústria local” e revisão das metas de descarbonização defendidas pela União Europeia.
Insatisfação com a política migratória
A grande adesão à AfD também reflete a rejeição a políticas de portas abertas aos refugiados, adotadas de forma mais incisiva durante a crise migratória de 2015. O partido defende controles de fronteira mais rígidos, deportações aceleradas e a tipificação de imigração irregular como crime grave.
Principais propostas que impulsionaram a campanha
- Imigração: fechamento de fronteiras para solicitantes de refúgio e substituição do direito de asilo atual por um sistema de cotas limitado.
- Política externa: aproximação diplomática e comercial com a Rússia de Vladimir Putin, além de redução do apoio militar e financeiro à Ucrânia.
- Energia: recuo no cronograma de transição para fontes renováveis e possível reativação de usinas a carvão.
- Mídia pública: corte no orçamento das emissoras estatais e revisão do modelo de financiamento por taxa compulsória.
- Educação: revisão curricular para “fortalecer valores nacionais” e diminuir o que classifica como “doutrinação progressista”.
O próximo passo: negociação no parlamento estadual
O candidato-líder da AfD, Ulrich Siegmund, afirmou que procurará “todos os partidos dispostos a dialogar com respeito ao eleitor”. Até agora, porém, CDU, SPD, Verdes e Liberais reiteraram o chamado “cordão sanitário”, declarando que não participarão de coalizões que incluam a extrema-direita.
Caso a AfD não forme maioria, a Saxônia-Anhalt pode repetir o modelo de governo de coalizão ampliada que já funciona em Berlim: um arranjo entre conservadores, social-democratas e verdes, mesmo que tenham divergências programáticas profundas. Esse cenário garantiria continuidade aos projetos de transição energética e ao alinhamento com a União Europeia, mas aprofundaria o sentimento de exclusão entre os eleitores que optaram pela oposição radical.
Sinal de alerta para o centro político europeu
O avanço da AfD soma-se a resultados semelhantes obtidos por partidos nacionalistas na França, Itália, Suécia e Países Baixos, indicando um redirecionamento do humor do eleitorado em diversos países da União Europeia. Para cientistas políticos, a soma de crises — inflação, guerra na Ucrânia, insegurança energética e aumento do fluxo migratório — alimenta demandas por respostas rápidas, às vezes traduzidas em plataformas antiestablishment.
Embora cada país tenha características próprias, a experiência alemã mostra que estratégias tradicionais de contenção perdem eficácia quando a insatisfação econômica e social atinge patamares elevados. A Saxônia-Anhalt, nesse contexto, tornou-se laboratório de um conflito político que dificilmente ficará restrito às fronteiras regionais.
O que observar nos próximos meses
- Formação de governo local: se a AfD conseguir parceiros suficientes, assumirá importante vitrine administrativa; se ficar isolada, a legenda pode explorar a narrativa de que o “sistema” ignora a vontade popular.
- Reação da chanceleria: Friedrich Merz deverá anunciar ajustes no pacote econômico para regiões do leste, buscando recuperar apoio antes das eleições estaduais na Turíngia e em Brandemburgo, marcadas para 2027.
- Debate migratório: a pressão por medidas mais duras já ecoa no Bundestag, com parlamentares da CDU e do SPD propondo endurecer regras de asilo.
- Desdobramentos externos: a crítica da AfD ao envio de armas à Ucrânia pode repercutir na coalizão governista, que precisa de maioria parlamentar para renovar pacotes de ajuda militar.
- Estratégia das mídias públicas: emissoras como ARD e ZDF avaliam mudanças na cobertura política regional para enfrentar acusações de viés contra partidos anti-sistema.
Independentemente do desfecho das negociações em Magdeburgo, capital da Saxônia-Anhalt, o pleito deste 6 de setembro cristaliza uma mudança de eixo na política alemã. A consolidação da AfD como força majoritária em um estado — ainda que sem garantia de governo — rompe um tabu de oito décadas e obriga partidos tradicionais a repensar alianças, discursos e políticas que até agora pareciam inquestionáveis.