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Nike em crise: ações despencam 80% e gigante perde vaga no S&P 100

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Resumo da Notícia

  • As ações da Nike fecharam a US$ 38,40 em setembro de 2026 — mínima em 12 anos e queda de quase 80% desde o pico de US$ 179,10 em novembro de 2021.
  • A S&P Dow Jones Indices removeu a companhia do S&P 100 a partir de 21 de setembro, encerrando uma trajetória de 18 anos no índice.
  • A receita recuou de US$ 51,2 bilhões (2023) para US$ 46,4 bilhões (2026), a margem operacional encolheu e a China soma seis trimestres seguidos de queda; o CEO Elliott Hill anunciou uma reestruturação com corte de US$ 2,5 bilhões em custos.

A Nike, por décadas sinônimo de domínio absoluto no mercado de artigos esportivos, vive o pior momento de sua história na bolsa. As ações da companhia fecharam a US$ 38,40 no dia 4 de setembro de 2026 — o menor nível em cerca de 12 anos, aproximadamente 50% abaixo da máxima de 52 semanas, de US$ 76,97. Do recorde de fechamento de US$ 179,10 alcançado em 5 de novembro de 2021, os papéis perderam quase 80%, eliminando cerca de US$ 230 bilhões em valor de mercado, segundo levantamento do portal Invezz.

O declínio tirou a Nike do grupo das maiores e mais valiosas empresas dos Estados Unidos. A capitalização de mercado da companhia está agora em torno de US$ 57 bilhões — uma fração do que já foi. No acumulado de 2026, a ação cai cerca de 39%, e nos últimos 12 meses a desvalorização chega a 48%.

O símbolo mais duro dessa queda veio em setembro: a Nike perdeu seu lugar no S&P 100, índice que reúne as 100 maiores empresas americanas, após quase 18 anos. A S&P Dow Jones Indices anunciou a remoção com efeito em 21 de setembro de 2026, como parte de seu rebalanceamento trimestral. Honeywell Aerospace, Simon Property Group e Colgate-Palmolive também foram retiradas, enquanto Dell Technologies, Palo Alto Networks, Arista Networks e SanDisk subiram do S&P 500 para preencher as vagas — aumentando a representatividade do setor de tecnologia no índice, conforme detalhou o Daily Journal.

A Nike permanecerá no mais amplo S&P 500, mas a saída do S&P 100 escancara o quanto sua posição de mercado mudou dramaticamente nos últimos anos. A fabricante de artigos esportivos entrou no índice de elite em dezembro de 2008, no auge de sua expansão global; sair dele agora, no quinto ano consecutivo de queda anual das ações, marca o fim de uma era.

A deterioração também se refletiu no desempenho financeiro da empresa. A receita da Nike caiu de US$ 51,2 bilhões no exercício fiscal de 2023 para US$ 46,4 bilhões no fiscal de 2026, enquanto a margem operacional recuou de 15,6% no fiscal de 2021 para 8,2% no fiscal de 2026. Ou seja: a empresa vende menos e lucra proporcionalmente ainda menos sobre o que vende.

O que deu errado? A resposta envolve uma combinação de concorrência acirrada, erros estratégicos e ventos contrários na economia global. Nos últimos anos, a Nike perdeu espaço em categorias importantes diante da expansão de concorrentes que ganharam relevância especialmente em corrida e lifestyle. Marcas como On e Hoka avançaram rapidamente enquanto a Nike enfrentava dificuldades para renovar seu portfólio na velocidade esperada pelo mercado, como apontou o portal MKT Esportivo.

A estratégia de venda direta ao consumidor, que por um tempo pareceu genial, também cobrou seu preço. Ao priorizar seus próprios canais e reduzir a presença em varejistas parceiros, a Nike abriu espaço para que concorrentes ocupassem as prateleiras — e a mente do consumidor. Agora, a companhia tenta reverter o movimento: o CEO Elliott Hill já informou aos investidores que mais de 150 lojas passaram por reformulações direcionadas a experiências ligadas ao esporte, e pontos sem aderência ao posicionamento pretendido poderão ser retirados da rede. A própria Nike confirmou que avalia regularmente sua rede e continuará realizando ajustes para adequá-la à estratégia de crescimento, com prioridade para elevar a qualidade das lojas e tornar a presença física mais eficiente.

A decisão de fechar lojas se soma ao encerramento, em março, dos Nike Studios, projeto de aulas e atividades físicas desenvolvido em parceria com a FitLab. Somados, os movimentos mostram uma seleção mais rigorosa das iniciativas próprias que permanecem dentro do ecossistema da companhia.

O problema, porém, vai além das lojas. A Grande China, historicamente um dos motores de crescimento da Nike, continua sendo um grande entrave: a receita na região recuou 17% no segundo trimestre do ano fiscal de 2026, selando o sexto trimestre consecutivo de queda. Os resultados do trimestre, divulgados em dezembro de 2025, mostraram receita de US$ 12,4 bilhões — alta de apenas 1% na comparação anual, timidamente acima das expectativas —, mas o lucro líquido despencou 32%. As ações caíram 10% após a teleconferência de resultados, em tom considerado duro pelos analistas, de acordo com a Hypebeast.

O grande vilão do momento, segundo o diretor financeiro Matthew Friend, é um novo regime de tarifas sobre a produção no Sudeste Asiático, que custa à companhia cerca de US$ 1,5 bilhão por ano e corrói a lucratividade. Esse vento contrário provocou uma contração de 300 pontos-base na margem bruta, e novas quedas são esperadas nos próximos meses. A guerra comercial e as sobretaxas impostas entre países seguem sendo um risco central para multinacionais com cadeias de produção globalizadas como a da Nike.

A pressão continua em 2026. Em agosto, as ações da Nike voltaram a cair em meio à reação do mercado aos resultados da Dick’s Sporting Goods: a varejista reduziu suas projeções e apontou dificuldades na demanda por tênis tradicionais, além de um ambiente mais promocional nos Estados Unidos. A situação atingiu também a Foot Locker e trouxe novamente para o centro das atenções as dificuldades do mercado americano de calçados esportivos.

Diante do cenário, a Nike decidiu encolher para tentar voltar a crescer. Depois de dois trimestres consecutivos de queda na receita, a companhia lançou um programa de reestruturação que prevê reduzir custos em cerca de US$ 2,5 bilhões até o ano fiscal de 2031. Para implementar o plano, porém, a empresa estima gastar cerca de US$ 1 bilhão, principalmente com indenizações e outros custos trabalhistas — aproximadamente US$ 300 milhões já foram contabilizados no exercício fiscal encerrado em maio, conforme apurou o portal Inforex.

“Essas medidas resultarão em menos vagas em toda a Nike”, escreveu o CEO Elliott Hill em comunicado aos funcionários, segundo informou o Wall Street Journal. Ele afirmou que as decisões sobre quais cargos serão eliminados começarão em 2027. “Ainda não sabemos o número de vagas nem a localização específica dos cargos.”

A dimensão do problema ficou mais evidente em 1º de outubro, com a divulgação dos resultados financeiros mais recentes. A Nike agora espera que a receita do ano fiscal de 2027, encerrado em maio do próximo ano, caia em um dígito alto — entre 7% e 9%. Até então, a empresa havia indicado uma queda concentrada apenas no primeiro semestre. A mudança de projeção derrubou as ações em cerca de 9% nas negociações pré-mercado do dia 2 de outubro, e os papéis caminham para registrar o pior ano da história da companhia, com queda de cerca de 45% em 2026.

Em meio à reestruturação, a Nike tenta reforçar sua governança: o executivo Alexandre Arnault, da LVMH — com passagens pela Moët Hennessy, Tiffany & Co. e Rimowa — foi nomeado para o conselho de administração. Elliott Hill destacou a experiência de Arnault em construção de marcas, transformação digital e inovação de produtos como ativos fundamentais para a próxima fase de crescimento da empresa.

Para o consumidor brasileiro, a crise da gigante americana tem um efeito colateral direto: com o dólar a R$ 5,35, os produtos importados — incluindo tênis e vestuário esportivo — ficam ainda mais caros no país, em um momento em que a própria Nike enfrenta pressão para conceder descontos e promoções nos Estados Unidos. Resta saber se a marca do “swoosh” conseguirá recuperar o brilho perdido — ou se o mercado de artigos esportivos já encontrou novos donos.

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Escobar Oliver é o responsável pelo conteúdo do RSO Notícias, portal de notícias do Brasil e do mundo.