
Resumo da Notícia
- O Ibovespa superou 200 mil pontos pela 1ª vez na história, com máxima de 209.615 (+9,1%) no primeiro pregão após o 1º turno
- O dólar caiu para abaixo de R$ 5, menor nível desde maio; a DI longa recuou mais de 100 pontos-base
- Bancos e varejo lideraram os ganhos; analistas alertam que o desafio será transformar expectativa em entrega
O mercado financeiro brasileiro viveu nesta segunda-feira (5) uma das sessões mais eufóricas dos últimos anos. No primeiro pregão após o 1º turno das eleições presidenciais, o Ibovespa superou pela primeira vez na história a marca de 200 mil pontos, enquanto o dólar despencou para abaixo de R$ 5 — nível que não era registrado desde maio. Foi a maior valorização intradiária do índice desde 2020, confirmando o rali projetado pelo mercado ainda na noite de domingo.
O resultado do 1º turno, realizado no domingo (4), classificou Flávio Bolsonaro (PL), com 47,03% dos votos válidos, e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 45,16%, para o segundo turno, marcado para 25 de outubro. A reação dos investidores foi imediata e intensa: ainda durante a madrugada, parte do movimento já se desenhava no exterior, com fundos de índices (ETFs) ligados a ações brasileiras registrando ganhos superiores a 12%, segundo a Reuters.
Por volta das 11h21, o Ibovespa subia 7,55%, aos 206.610 pontos, com alta de quase todas as ações. Ao longo do dia, o índice chegou a 209.615 pontos na máxima intradiária, uma valorização de 9,1% em relação ao fechamento anterior. Perto das 16h, operava aos 209.239,52 pontos, próximo da máxima histórica registrada na sessão.
Dólar abaixo de R$ 5 e juros em queda
No câmbio, a moeda americana também operou em forte queda. Em determinado momento do pregão, o dólar chegou a R$ 4,952; por volta das 14h, era cotado a R$ 4,9859, com recuo de 4,3%. Na sexta-feira (2), o dólar havia encerrado o pregão em R$ 5,2173.
Os juros futuros acompanharam o movimento. A taxa do DI para janeiro de 2035 caía 126 pontos-base, para 12,875%, enquanto o DI para janeiro de 2028 — mais ligado à política monetária — recuava 83 pontos-base, para 12,68%. Nos prazos mais longos, a baixa chegou a quase 100 pontos-base, segundo dados de mercado. A Reuters destacou que as taxas dos DIs cederam mais de 100 pontos-base em alguns contratos de longo prazo, em um “impacto forte na renda fixa”.
Bancos e varejo lideram a festa
As ações do setor financeiro estiveram entre os principais destaques do pregão. B3 e XP chegaram a subir mais de 20%, enquanto o BTG Pactual avançava cerca de 23%. Itaú, Banco do Brasil e Bradesco também registraram ganhos superiores a 10% durante a sessão — o Bradesco chegou a avançar 12,95%.
A Petrobras, uma das ações mais negociadas da bolsa, avançava 5,45% no pregão local e chegou a subir cerca de 10% no pré-mercado americano. No varejo, a Magazine Luiza — beneficiada pela expectativa de juros menores — saltava mais de 26%. Empresas como C&A, Lojas Renner e Assaí também operaram em forte alta, e construtoras como Cyrela e MRV acompanharam o movimento positivo.
Ações de empresas brasileiras negociadas nos Estados Unidos registraram alta no pré-mercado: Itaú Unibanco avançava mais de 12%, Bradesco tinha alta de 11%, Embraer subia 6%, e os papéis de Mercado Livre e Nubank valorizavam aproximadamente 6% e 10%, respectivamente.
Por que o mercado reagiu assim
A explicação está nas expectativas dos investidores para a economia brasileira. Antes da votação, havia incerteza sobre o cenário econômico a partir de 2027. Com a definição dos dois candidatos ao segundo turno, os investidores passaram a recalcular suas apostas para juros, gastos públicos, impostos e reformas.
Na avaliação geral dos profissionais do mercado, uma vitória de Flávio Bolsonaro aumentaria a chance de ajuste nas contas públicas, enquanto a política fiscal de Lula é vista com desconfiança. Cortes de gastos tendem a conter a inflação e abrir espaço para a redução da Selic, hoje em 13,75% ao ano. Os juros futuros já indicam mais chance de corte no início de novembro, após o segundo turno.
As ações mais sensíveis aos juros — seja de forma direta, pela exposição da dívida das companhias e alto grau de endividamento, ou de forma indireta, pela antecipação de um possível aumento do consumo — foram as que mais subiram na bolsa.
O alerta dos analistas
Apesar da euforia, analistas pedem cautela. Marco Saravalle, estrategista-chefe da Krivo Capital, alertou à Reuters: “Mas há uma diferença importante entre expectativa e entrega. É justamente essa distância que deverá determinar quanto do movimento de hoje será sustentável.”
Saravalle lembrou ainda que o PL conquistou a maior bancada tanto no Senado quanto na Câmara dos Deputados, o que, em tese, poderia facilitar a aprovação de reformas e medidas de contenção fiscal. “Mas este é também o primeiro grande ponto de atenção”, disse. “Congresso de direita não significa automaticamente Congresso fiscalista.”
É importante destacar que uma alta ou queda do mercado em determinado dia não significa necessariamente uma previsão sobre o resultado da eleição. O comportamento dos ativos também é influenciado por expectativas relacionadas à política econômica, juros, cenário fiscal, empresas e fatores internacionais.
O que vem pela frente
O contraste com pregões recentes de volatilidade mostra como o humor do mercado pode mudar rapidamente. Agora, os investidores olham para o segundo turno, em 25 de outubro, e para os sinais que os candidatos derem sobre a condução da economia.
Para o brasileiro comum, a queda do dólar abaixo de R$ 5 é uma boa notícia: tende a aliviar a pressão sobre preços de produtos importados, combustíveis e viagens ao exterior. Já a queda dos juros futuros pode, ao longo do tempo, se traduzir em crédito mais barato para empresas e consumidores — desde que o movimento se sustente.
O desafio, como lembram os analistas, será transformar a expectativa em entrega. O rali desta segunda-feira colocou o Ibovespa em um patamar inédito; mantê-lo por lá dependerá dos próximos capítulos da economia e da política brasileira.
