Resumo da Notícia

  • O Brasil caiu da 28ª posição, no 2º trimestre de 2024, para a 62ª no ranking mundial de crescimento da indústria, segundo o Iedi com dados da Unido.
  • O ranking ordena os países pelo ritmo de crescimento da produção manufatureira — ele mede velocidade, não o tamanho do parque industrial.
  • O recuo reflete a perda de ritmo da indústria brasileira, que crescia 3,9% ao ano no 2º trimestre de 2024 e passou a avançar em ritmo bem mais lento.

O Brasil caiu da 28ª para a 62ª posição no ranking mundial de crescimento da indústria, segundo levantamento do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) com base em dados da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido), repercutido em 25 de outubro. A queda de 34 posições em pouco mais de dois anos mostra que a indústria brasileira perdeu ritmo em relação às fábricas do resto do mundo — e não que o país tenha deixado de ter um parque industrial relevante.

A base da comparação é o segundo trimestre de 2024, quando o Brasil ocupava a 28ª colocação. No levantamento mais recente do estudo, o país aparece em 62º lugar. O intervalo entre as duas medições resume o problema: enquanto outros países aceleraram a produção de suas fábricas, a indústria nacional avançou devagar, o que a fez descer na lista mesmo sem um colapso da produção.

O que o ranking mede — e o que ele não mede

Para entender a queda, é preciso entender o que entra na conta. O ranking da Unido ordena os países pela variação da produção manufatureira, ou seja, pelo quanto a produção das fábricas cresceu (ou caiu) em relação ao mesmo período do ano anterior. A base do cálculo é o índice de produção industrial, o mesmo tipo de indicador que o IBGE divulga todos os meses para o Brasil.

Isso significa que a lista mede velocidade, não tamanho. Um país com um parque industrial gigante pode aparecer mal colocado se a sua produção estiver crescendo pouco, enquanto um país com poucas fábricas pode subir várias posições com um avanço forte em um trimestre. É por isso que a 62ª posição não quer dizer que o Brasil tenha a 62ª maior indústria do mundo — quer dizer que o ritmo de crescimento da indústria brasileira ficou atrás do de dezenas de outros países no período comparado.

A distinção é importante porque o Brasil continua entre as maiores economias do planeta. Segundo o Fundo Monetário Internacional, o país deve voltar a ser a 8ª maior economia do mundo em 2027. O contraste entre o tamanho da economia e a posição no ranking de crescimento da indústria é justamente o ponto que chama a atenção no levantamento: o país é grande, mas a sua indústria cresce devagar.

O ponto de partida: o segundo trimestre de 2024

O segundo trimestre de 2024 foi um momento relativamente bom para a indústria brasileira, e é por isso que ele serve de referência para a queda. Segundo o Iedi, a produção da indústria de transformação cresceu 3,9% naquele trimestre em comparação com o mesmo período do ano anterior, contra 1,4% no primeiro trimestre de 2024. Os segmentos de maior intensidade tecnológica puxaram o resultado: a alta tecnologia avançou 9,3% e a média-alta tecnologia, 5,9%.

No conjunto do primeiro semestre de 2024, o valor adicionado da indústria de transformação subiu 2,6% e o volume da produção física cresceu 2,7%, de acordo com o Iedi. Era um ritmo suficiente para colocar o Brasil na 28ª posição do ranking mundial de crescimento. A partir daí, porém, o fôlego diminuiu — e a posição do país na lista foi caindo junto.

Os dados mais recentes do IBGE ajudam a entender a perda de ritmo. Em julho de 2025, a produção industrial geral do país variou apenas 0,2% em relação ao mesmo mês do ano anterior, com alta acumulada de 1,1% nos primeiros sete meses do ano e de 1,9% em 12 meses. Os bens de consumo recuaram 4,0% na comparação anual daquele mês, e os bens de capital ficaram praticamente parados, com variação de 0,1% negativa. É um retrato bem diferente do segundo trimestre de 2024, quando a indústria crescia perto de 4% ao ano.

Por que a queda importa

A indústria importa mais do que o seu peso direto no Produto Interno Bruto (PIB) sugere. É nas fábricas que estão boa parte dos empregos formais de maior qualificação, das exportações de maior valor agregado e dos investimentos em tecnologia. Quando a indústria cresce devagar por muito tempo, o país tende a exportar mais produtos básicos e a importar mais produtos prontos — um padrão que o Iedi vem documentando há anos nas análises do comércio exterior brasileiro.

O instituto também lembra que o problema não é novo. Segundo o Iedi, o último período de crescimento sustentado da indústria brasileira terminou em 2008. Desde então, as altas foram circunstanciais, em geral apenas para compensar quedas anteriores, sem recuperar totalmente as perdas — como ocorreu em 2010, em 2013, em 2017 e 2018, depois da crise de 2014 a 2016, e em 2021, após o choque da pandemia de covid-19.

O ano de 2023 ilustra bem esse padrão. De acordo com o Iedi, a indústria brasileira evitou um novo recuo naquele ano por pouco: a produção subiu apenas 0,2% em relação ao ano anterior, e só foi possível graças ao setor extrativo, que avançou 7%. Na indústria de transformação, a parte mais diversificada do setor e a que mais se conecta com outras atividades, o resultado foi negativo, com queda de 1,0%, puxada pela forte contração de bens de capital, que recuaram 11%.

Em prazos mais longos, o quadro é ainda mais preocupante. O Iedi mostra que a manufatura perdeu participação no PIB brasileiro em ritmo muito superior ao de outros países: em apenas 12 anos, entre 1986 e 1998, a indústria perdeu 13,5 pontos percentuais de participação na economia, de 27,1% para 13,8%. Entre 1980 e 2017, o valor adicionado real da manufatura brasileira cresceu apenas 24%, enquanto no mundo a expansão foi de 204%. Para o instituto, reverter esse quadro favoreceria a sociedade como um todo, porque a indústria é um veículo importante de desenvolvimento socioeconômico.

O contexto global também pesou

A queda no ranking não se explica só pelo desempenho brasileiro. Como a lista é relativa, o Brasil também perde posições quando outros países aceleram — e a manufatura mundial, apesar de todos os choques recentes, seguiu crescendo. De acordo com a Unido, a produção manufatureira global cresceu 0,7% no terceiro trimestre de 2025 em relação ao trimestre anterior, com as indústrias de média-alta e alta tecnologia liderando a expansão, especialmente nos segmentos de eletrônicos e equipamentos de transporte.

O mesmo relatório da Unido apontou, porém, que a América Latina e o Caribe foram a única região do mundo a registrar queda na produção manufatureira naquele trimestre, enquanto África, Ásia e Oceania cresciam e a América do Norte avançava de forma modesta. Ou seja: o Brasil perdeu ritmo em um momento em que a sua própria região também ficou para trás na comparação global.

Há ainda contrastes dentro da própria economia brasileira. Enquanto a indústria de transformação patina, outros segmentos avançam com força. A indústria ligada à soja, por exemplo, cresce 13% em 2026 e prevê R$ 7,65 bilhões em investimentos, mostrando que o agronegócio e as cadeias ligadas a ele seguem em expansão. E a balança comercial brasileira fechou setembro com superávit de US$ 7,7 bilhões, alta de 146%, um resultado puxado em boa medida por produtos primários. A diferença entre esses desempenhos e o da indústria de transformação ajuda a entender por que o país cresce, mas a sua indústria não acompanha o mesmo ritmo.

O que observar daqui para frente

O ranking da Unido é atualizado a cada trimestre, e as próximas divulgações vão mostrar se a queda até a 62ª posição foi um ponto fora da curva ou o início de um patamar mais baixo. Dois termômetros merecem atenção: os dados mensais do IBGE sobre a produção industrial, que indicam se as fábricas voltaram a ganhar tração, e os próximos relatórios trimestrais da Unido, que dirão se o Brasil recuperou posições ou continuou perdendo terreno para outros países.

Para o leitor, a lição do número é simples: o Brasil não ficou sem indústria, mas a sua indústria está crescendo menos do que a da maioria dos países comparados. Enquanto esse ritmo não melhorar, o país tende a seguir descendo em rankings de crescimento — mesmo mantendo o seu lugar entre as maiores economias do mundo.

Siga o Rsonoticias

Canal do WhatsApp

Share.
Avatar

Escobar Oliver é o responsável pelo conteúdo do RSO Notícias, portal de notícias do Brasil e do mundo.