Resumo da Notícia

  • Operação israelense em Hebron, iniciada após um ataque que matou dois soldados, já deslocou mais de 2.200 palestinos, segundo a prefeitura da cidade.
  • O número subiu de cerca de 1.200 no sábado para pelo menos 2.670 no domingo, segundo o gabinete do primeiro-ministro palestino.
  • O Exército de Israel diz buscar militantes e armas nos bairros de Al-Jaladah e Ein Deir Baha; a Autoridade Palestina classifica a ação como “punição coletiva”.

Uma operação militar israelense na cidade de Hebron, na Cisjordânia ocupada, forçou mais de 2.200 palestinos a deixar suas casas desde sexta-feira (23), segundo a prefeitura da cidade. O número, divulgado no sábado, continuou subindo ao longo do fim de semana e chegou a pelo menos 2.670 no domingo, de acordo com o gabinete do primeiro-ministro palestino. A operação começou um dia depois de um ataque em que dois soldados israelenses foram mortos perto da cidade.

Hebron é a maior cidade palestina da Cisjordânia e fica no sul do território, a cerca de 30 quilômetros de Jerusalém. A cidade convive há décadas com uma presença militar israelense e com assentamentos no seu centro histórico, e é um dos pontos mais sensíveis do conflito entre israelenses e palestinos. A operação atual foi anunciada pelo governo israelense como de grande escala.

O ataque que antecedeu a operação

Na sexta-feira, dois homens palestinos armados abriram fogo em um posto militar israelense perto de Hebron, segundo o Exército de Israel. Dois soldados foram mortos e outros três ficaram feridos, de acordo com os números israelenses. Os dois atiradores também foram mortos pelas forças israelenses durante o confronto.

Ainda na sexta-feira, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, anunciou que o Exército lançaria uma operação de grande escala na região e determinou o fechamento de Hebron, preparando o que chamou de um bloqueio total da Cisjordânia. O ministro da Defesa, Israel Katz, afirmou que os moradores retirados de suas casas só poderão retornar depois que a chamada “infraestrutura do Hamas” na cidade for desmantelada, segundo a emissora pública israelense.

O Exército anunciou na noite de sexta-feira o início da operação, com previsão de durar vários dias e com a participação de forças de segurança interna e da polícia de fronteira. Desde então, as entradas de Hebron foram seladas e a circulação de moradores passou a ser fortemente restringida.

A operação nos bairros

Segundo o Exército israelense, a operação se concentra nos bairros de Al-Jaladah e Ein Deir Baha, próximos ao posto de controle na entrada de Hebron. O objetivo declarado é buscar militantes e armas, e o Exército também anunciou que realizará demolições na área. Ein Deir Baha é o bairro onde viviam os autores do ataque de sexta-feira, segundo as autoridades israelenses.

Moradores relataram à Reuters que soldados marcaram casas com um X preto depois que os ocupantes foram obrigados a sair, e que não estava claro de imediato o que a marca significava. O prefeito de Hebron, Yousef Zouhair Al-Jabari, afirmou que foram demolidos comércios, fábricas, casas e estradas na cidade, e classificou a resposta como desproporcional e injustificada. Segundo ele, cerca de 1.300 pessoas corriam o risco de perder suas casas além das 1.200 já deslocadas no sábado.

A organização não governamental Clube dos Prisioneiros Palestinos informou que cerca de 70 palestinos foram detidos na sexta-feira e no sábado. As autoridades israelenses não comentaram as detenções, segundo a Reuters. Moradores ouvidos pela agência disseram que muitas das pessoas expulsas não tinham qualquer ligação com os autores do ataque.

Os números do deslocamento

O balanço de deslocados mudou rapidamente entre o sábado e o domingo, à medida que a operação avançava. No sábado, a Reuters informou, com base em uma autoridade palestina, que cerca de 1.200 pessoas haviam sido forçadas a deixar suas casas em Hebron. No mesmo dia, o prefeito Al-Jabari disse à rede Al Jazeera que o total já chegava a 2.200 pessoas retiradas de suas residências.

No domingo, os números subiram novamente. O vice-prefeito Khaled Fahd al-Qawasmi afirmou que 373 famílias haviam sido retiradas de suas casas até aquele momento, enquanto cerca de 30 outras famílias estavam ameaçadas de remoção. O governador de Hebron falou em cerca de 400 famílias expulsas. Já o gabinete do primeiro-ministro palestino, Mohammad Mustafa, informou no domingo que o número de deslocados havia chegado a pelo menos 2.670, a maioria mulheres, crianças e idosos.

A diferença entre os balanços reflete o ritmo da operação e a dificuldade de contabilizar as famílias afetadas em uma cidade fechada, com acessos bloqueados e serviços interrompidos. As autoridades locais afirmam que os moradores retirados buscaram abrigo com parentes e amigos, enquanto bairros inteiros ficaram praticamente vazios.

Uma cidade fechada

O prefeito Al-Jabari afirmou no sábado que os moradores de Hebron não podiam entrar nem sair da cidade. Segundo a Reuters, Israel bloqueou as entradas da maioria das cidades e vilarejos palestinos da Cisjordânia, restringindo severamente a circulação da população. Em Hebron, o fechamento também atingiu a cidade vizinha de Halhul.

Os efeitos do bloqueio alcançaram o cotidiano. A direção de educação de Hebron suspendeu as aulas no domingo e na segunda-feira, e universidades da cidade transferiram as aulas de domingo para o formato online, segundo relatos da imprensa local. A prefeitura informou que o lixo se acumulava nas ruas porque o fechamento das entradas impedia o acesso aos locais de descarte fora da cidade.

Israel também anunciou que fecharia as passagens terrestres com a Cisjordânia na terça-feira, dia da eleição geral israelense. Trabalhadores palestinos foram impedidos de entrar na maior parte das áreas desde o domingo, com fechamento total previsto para o dia da votação, segundo relatos da imprensa que acompanha a operação.

As reações

A Autoridade Palestina, que governa partes da Cisjordânia, classificou a operação como “punição coletiva”, citando a demolição de casas, o deslocamento forçado de bairros inteiros e o fechamento das cidades palestinas, e pediu a intervenção da comunidade internacional, segundo a agência de notícias palestina Wafa.

O prefeito Al-Jabari também atribuiu a operação ao calendário eleitoral israelense, afirmando que o governo buscava votos dos colonos às vésperas da eleição parlamentar de terça-feira. A avaliação é do prefeito e foi apresentada por ele como sua leitura do momento político, não como uma posição oficial do Exército israelense, que mantém o objetivo declarado de buscar militantes e armas.

Do lado israelense, além da declaração do ministro da Defesa sobre o retorno dos moradores, a emissora pública do país informou que o Exército se preparava para concluir a operação em poucos dias, após revistar cerca de 500 edifícios e encontrar duas armas, segundo relatos da imprensa. Até a última atualização disponível, no domingo, não havia confirmação oficial sobre quando os moradores deslocados poderão voltar para suas casas.

O contexto regional

A operação em Hebron ocorre em um momento de tensão ampliada em todo o Oriente Médio, com vários focos simultâneos na região. Nos últimos dias, os Estados Unidos esvaziaram bases e embaixadas no Oriente Médio após um alerta de ataque do Irã em “estágios avançados”, em um sinal de como a instabilidade regional se espalha para além de um único país.

No campo humanitário, a situação em Gaza também segue no centro das atenções, depois que o Programa Mundial de Alimentos cortou o apoio a 500 mil pessoas no território. E, no campo diplomático, a crise em torno do consulado britânico em Jerusalém mostra como a guerra e seus desdobramentos continuam a tensionar as relações de Israel com outros países.

Em Hebron, enquanto isso, o balanço de deslocados segue sendo atualizado pelas autoridades locais. A operação, iniciada na sexta-feira, ainda não tem data confirmada para terminar, e o retorno dos moradores às suas casas depende, segundo o governo israelense, da conclusão das buscas e demolições anunciadas pelo Exército.

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Escobar Oliver é o responsável pelo conteúdo do RSO Notícias, portal de notícias do Brasil e do mundo.