Resumo da Notícia

  • Uma análise posterior do estudo de fase 3 REDEFINE 1, divulgada pela Novo Nordisk, associou o CagriSema a uma perda média de 25% do peso corporal em 2.309 mulheres após 68 semanas de tratamento, contra 3% no grupo placebo.
  • A redução apareceu em todas as fases da vida reprodutiva avaliadas: 26,7% antes da menopausa, 24,8% na perimenopausa e 23,1% após a menopausa.
  • O medicamento é experimental, ainda não foi aprovado por agências reguladoras, e os efeitos adversos mais frequentes no estudo foram gastrointestinais, como náusea, constipação e vômito.

Mulheres com obesidade ou sobrepeso que receberam o CagriSema, medicamento experimental da farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk, perderam em média 25% do peso corporal ao longo de 68 semanas de tratamento. O dado vem de uma análise posterior dos resultados do REDEFINE 1, estudo de fase 3 — a etapa mais avançada de testes em humanos antes de um pedido de aprovação —, divulgada pela empresa na terça-feira (20) e apresentada no congresso anual da The Menopause Society, em San Diego, nos Estados Unidos, segundo informou a agência Reuters.

O número chama atenção porque supera o resultado médio do estudo completo, que reuniu homens e mulheres e havia registrado perda de 22,7% com o medicamento. Também recoloca no centro do debate científico a corrida por tratamentos mais potentes contra a obesidade, doença crônica que avança em praticamente todos os países. É importante registrar, desde já, o que o dado é — e o que ele não é: trata-se de uma média obtida dentro de um ensaio clínico controlado, com acompanhamento médico e seleção rigorosa de participantes, e não de uma promessa de resultado para qualquer pessoa. O CagriSema segue em investigação e não está aprovado para uso.

O que a análise encontrou nas mulheres

A nova leitura dos dados se concentrou nas 2.309 mulheres que participaram do REDEFINE 1. Entre as que receberam a combinação de cagrilintida 2,4 mg e semaglutida 2,4 mg, em injeção semanal, a redução média estimada do peso corporal foi de 25% após 68 semanas. No grupo que recebeu placebo — substância sem efeito, mantido o acompanhamento de rotina —, a perda média foi de 3% no mesmo período, de acordo com os dados divulgados pela Novo Nordisk e repercutidos pela Reuters.

Há uma ressalva técnica relevante para interpretar esse percentual. O cálculo segue o que os pesquisadores chamam de estimativa de eficácia: um cenário idealizado em que todas as participantes permanecem no tratamento durante todo o estudo, sem interrupções e sem recorrer a outras terapias para perder peso. Na prática clínica, parte dos pacientes interrompe ou ajusta o uso de medicamentos desse tipo, o que tende a reduzir o efeito médio observado fora do ambiente controlado da pesquisa. Ainda assim, mesmo leituras mais conservadoras do estudo principal apontaram perdas expressivas, como será detalhado adiante.

Além do peso total, a análise registrou redução da gordura abdominal entre as mulheres, medida pela circunferência da cintura, tanto no grupo geral quanto em cada faixa reprodutiva avaliada. A gordura concentrada no abdômen é acompanhada de perto pelos médicos por sua associação com maior risco de doenças cardiovasculares e metabólicas, razão pela qual o indicador costuma complementar a leitura da balança.

Diferenças por fase da vida — e os limites da leitura

Um segundo recorte examinou 1.902 mulheres classificadas conforme a etapa da vida reprodutiva. Segundo a Novo Nordisk, a perda média de peso foi de 26,7% entre as participantes em pré-menopausa, de 24,8% entre as que estavam na perimenopausa — o período de transição — e de 23,1% entre as pós-menopáusicas. Nos grupos placebo de cada etapa, a redução ficou em torno de 2%.

A própria forma como essa análise foi construída pede cautela. As categorias de menopausa foram atribuídas retrospectivamente, a partir de critérios como idade e histórico clínico, e não por um estadiamento reprodutivo coletado de forma prospectiva durante o estudo. Além disso, análises feitas depois da conclusão de um ensaio — chamadas de post hoc — servem, na avaliação da própria empresa e dos pesquisadores, para gerar hipóteses, e não conclusões definitivas: os valores de significância estatística não foram ajustados para comparações múltiplas, e não houve teste formal de interação entre os subgrupos. Em outras palavras, os dados não permitem afirmar que a fase da menopausa determine, por si só, a resposta ao medicamento.

Autora principal das análises, a médica Maria D. Hurtado Andrade, professora assistente da Mayo Clinic, afirmou que a perda de peso observada em cada grupo é encorajadora e que as diferenças numéricas entre as etapas destacam a necessidade de mais pesquisas para entender como o envelhecimento reprodutivo pode influenciar os resultados. Na mesma linha, a vice-presidente de assuntos médicos da Novo Nordisk, Michelle Skinner Moore, observou que muitas mulheres com obesidade ou sobrepeso ganham peso ao atravessar a menopausa, o que torna importante investigar produtos em estudo ao longo de toda a vida reprodutiva.

O anúncio se soma a uma sequência de pesquisas internacionais de grande escala acompanhadas pelo RSO Notícias, como o levantamento que relacionou mudança climática, escassez de alimentos e risco de conflitos armados — trabalhos que, cada um em sua área, dependem de leitura cuidadosa dos métodos antes de virarem conclusão.

Como foi desenhado o REDEFINE 1

O estudo que sustenta as novas análises é robusto em tamanho e desenho. O REDEFINE 1 foi um ensaio de fase 3 com duração de 68 semanas, duplo-cego — formato em que nem participantes nem pesquisadores sabem quem recebe o medicamento ou o placebo —, com grupos de comparação que incluíam o CagriSema, cada componente isolado e o placebo, todos combinados a orientações de estilo de vida. Participaram 3.417 adultos com obesidade (índice de massa corporal igual ou superior a 30) ou com sobrepeso (IMC igual ou superior a 27) associado a pelo menos uma comorbidade, e sem diabetes tipo 2. A idade média era de 47 anos, e cerca de dois terços dos participantes eram mulheres.

Os resultados principais do estudo foram publicados em 2025 no New England Journal of Medicine, uma das revistas médicas mais respeitadas do mundo. Na leitura que considera todos os participantes, tenham ou não permanecido no tratamento, a perda média com o CagriSema foi de 20,4% em 68 semanas. A semaglutida isolada alcançou 14,9%, a cagrilintida isolada, 11,5%, e o placebo, 3%. Na estimativa de eficácia — o cenário de adesão completa —, a combinação chegou aos 22,7% que serviram de referência para a nova análise feminina. Foi justamente por ter ficado abaixo da meta de 25% que a empresa havia projetado para o estudo geral que o desempenho entre as mulheres atraiu atenção adicional de médicos e do mercado.

Dois hormônios em uma única injeção semanal

O CagriSema combina, em dose fixa e aplicação subcutânea uma vez por semana, duas moléculas de mecanismos diferentes. A semaglutida é um agonista do receptor de GLP-1, princípio ativo já conhecido do público por medicamentos como Wegovy e Ozempic, e atua em vias de regulação do apetite e da glicose. A cagrilintida é um análogo de ação prolongada da amilina, hormônio liberado pelo pâncreas junto com a insulina e envolvido na sensação de saciedade. A aposta da Novo Nordisk — e de concorrentes que desenvolvem moléculas semelhantes — é que atacar dois alvos biológicos ao mesmo tempo produza perda de peso maior do que a obtida com um único mecanismo.

Essa estratégia ajuda a explicar o interesse em torno do produto: a empresa dinamarquesa busca um sucessor para o Wegovy em um mercado de tratamentos para obesidade que cresce rapidamente e no qual enfrenta concorrência direta de outras farmacêuticas. Nada disso, porém, altera o ponto central para o paciente: por ora, o CagriSema existe apenas dentro de estudos clínicos e do processo de avaliação regulatória.

Efeitos adversos foram frequentes, mas em geral leves

A análise por sexo não alterou o perfil de segurança já conhecido do estudo principal. No REDEFINE 1, os eventos adversos foram predominantemente gastrointestinais: eles apareceram em 79,6% dos participantes que receberam o CagriSema, contra 39,9% no grupo placebo. Os sintomas mais relatados foram náusea (55%, contra 12,6% com placebo), constipação (30,7%, contra 11,6%) e vômito (26,1%, contra 4,1%). Segundo a empresa, a maioria dos episódios foi transitória e de intensidade leve a moderada.

A interrupção do tratamento por causa de efeitos adversos ocorreu em 5,9% dos participantes do grupo do CagriSema, percentual superior ao registrado com placebo, de 3,5%. O dado reforça a leitura de que tolerabilidade é parte indissociável da avaliação de medicamentos dessa classe: de um lado, médias de perda de peso elevadas pressupõem uso contínuo e prolongado; de outro, sintomas digestivos frequentes podem pesar na decisão de manter ou abandonar a terapia — tema que a cobertura de saúde do portal acompanha de perto, a exemplo dos alertas sobre a fumaça de queimadas que deixou o ar de Manaus “péssimo” e os riscos respiratórios associados ao material particulado.

Medicamento ainda é experimental e aguarda decisão regulatória

O ponto que não pode se perder em meio aos percentuais é o regulatório. O CagriSema não é aprovado nos Estados Unidos nem na Europa, e sua segurança e eficácia ainda não foram estabelecidas por nenhuma agência reguladora. A Novo Nordisk protocolou, em dezembro de 2025, o pedido de aprovação (NDA) junto à FDA, a agência americana de alimentos e medicamentos, para o uso no controle de peso, e a decisão é esperada para o quarto trimestre de 2026.

Até lá, o produto permanece restrito ao ambiente de pesquisa, e novas frentes de estudo seguem em andamento, incluindo um ensaio dedicado a desfechos cardiovasculares dentro do programa REDEFINE. Para quem acompanha o tema, o caminho prudente é o de sempre: resultados de estudos — por mais expressivos que sejam — não substituem avaliação médica individual, e tratamentos para obesidade envolvem riscos, custos e respostas que variam de pessoa para pessoa. É a mesma cautela que o público tem demonstrado diante de notícias de saúde de grande repercussão, como o anúncio da cirurgia do papa Leão XIV para retirar um nódulo no pulmão, acompanhado pelo RSO Notícias neste mês. Quando a FDA concluir sua análise, aí sim será possível saber se — e em quais condições — a combinação de cagrilintida e semaglutida chegará às farmácias.

Share.
Avatar

Escobar Oliver é o responsável pelo conteúdo do RSO Notícias, portal de notícias do Brasil e do mundo.