
Resumo da Notícia
- A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) divulgou um alerta sobre brinquedos com inteligência artificial que conversam com a criança, memorizam informações, coletam dados como voz e imagens e simulam amizade, cuidado e apoio emocional.
- Segundo a entidade, a presença de IA não torna um brinquedo automaticamente prejudicial, mas também não garante benefício ao desenvolvimento; quando não há benefício claro ou falta transparência sobre o funcionamento e a proteção, a orientação é priorizar produtos sem esses recursos.
- O documento traz 9 perguntas-chave para as famílias refletirem antes da compra e orienta que, se informações essenciais sobre dados e segurança não estiverem acessíveis, a recomendação é não comprar o produto.
Eles conversam com a criança, lembram do que ela gosta, respondem com palavras de carinho e parecem entender sentimentos. Brinquedos com inteligência artificial já fazem parte da realidade de muitas famílias no Brasil e no mundo — e, diante do avanço dessa tecnologia em produtos lúdicos, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) divulgou um alerta para orientar pais e responsáveis sobre como escolher esses produtos e acompanhar seus efeitos sobre crianças e adolescentes. Segundo a entidade, o objetivo é reduzir os riscos de exposição indevida em uma categoria de brinquedo que, apesar da aparência inofensiva, funciona como um sistema conectado de coleta e processamento de informações.
Como funcionam esses brinquedos
De acordo com a SBP, os sistemas de inteligência artificial generativa presentes nesses produtos são capazes de reconhecer voz e imagem, memorizar informações, adaptar as respostas ao perfil de quem brinca e manter conversas que não são inteiramente pré-programadas. Uma vez conectado, o brinquedo pode ter microfone, câmera e acesso integral à internet, além de mecanismos de personalização e de engajamento desenhados para manter a criança interagindo por mais tempo.
Por isso, a entidade defende que a avaliação das famílias não pode se limitar ao que o brinquedo faz. É preciso perguntar também como ele funciona, quais informações coleta, para que esses dados são utilizados e se o produto incorpora mecanismos adequados de proteção à criança e ao adolescente. Sem essas respostas, argumentam os pediatras, não há como medir o tamanho da exposição envolvida na brincadeira.
O risco de a máquina virar “amiga”
O alerta chama atenção para um ponto delicado: embora use linguagem afetiva e empática, a inteligência artificial não é uma pessoa. Segundo a SBP, uma revisão publicada na revista científica Pediatrics destaca o risco de crianças desenvolverem percepções equivocadas da IA, passando a enxergá-la como amiga ou cuidadora a partir do contato com esse tipo de brinquedo.
A preocupação é compartilhada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), que alertou para os chamados AI companions — “companheiros de IA”, em tradução literal —, produtos que estimulam conversas e relacionamentos com crianças e adolescentes. “Apesar da aparência inofensiva, são sistemas de IA que podem obter informações e causar prejuízos à saúde e dependência ao produto”, destacou a entidade, conforme repercutido pela Agência Brasil.
Como ilustração de para onde essa tecnologia caminha, o documento da SBP cita que, em setembro de 2026, ganhou repercussão o anúncio do Muse Charm, dispositivo portátil da Meta comparado pela imprensa a um Tamagotchi com IA. Embora não seja um brinquedo para crianças, ele mostra como agentes de inteligência artificial passam a ocupar formas físicas, portáteis e personalizadas — cada vez mais próximas do universo infantil.
Efeitos de longo prazo ainda são desconhecidos
Outra preocupação dos pediatras é compreender os efeitos dessas novas formas de interação sobre a saúde mental e o comportamento no longo prazo, um campo ainda não suficientemente mapeado pela ciência. Para a SBP, essa lacuna não é motivo para tranquilidade. “A incerteza científica não significa ausência de riscos e reforça a necessidade de proteção adequada à infância e à adolescência”, avalia a entidade.
É o mesmo raciocínio de precaução que costuma orientar outros alertas de saúde pública voltados às famílias, como a recente apreensão de lotes falsificados do medicamento Keytruda pela Anvisa: quando o produto envolve risco potencial e falta transparência, a recomendação é verificar antes de usar.
As 9 perguntas para fazer antes da compra
Para ajudar as famílias na decisão, o alerta da SBP propõe nove perguntas-chave de reflexão antes de adquirir um brinquedo com inteligência artificial:
- O que essa tecnologia acrescenta à brincadeira?
- A criança participa ativamente ou o brinquedo faz quase tudo por ela?
- Como o produto funciona (se usa IA generativa e se possui câmera, microfone ou conexão com a internet)?
- A indicação etária e a supervisão parental estão claras?
- O que acontece com os dados da criança e do adolescente?
- O uso do brinquedo com IA expõe a criança a ações de perfilamento, publicidade, compras ou assinaturas associadas?
- Como a interação é apresentada: o produto simula amizade, afeto, cuidado ou apoio emocional?
- A criança entenderá, conforme a idade, que está interagindo com uma IA e não com uma pessoa?
- Qual lugar essa experiência ocupa na rotina, em relação ao sono, ao movimento, à brincadeira livre, à leitura, ao contato com a natureza e à convivência familiar?
Sem transparência, a recomendação é não comprar
A SBP destaca que informações essenciais devem estar acessíveis às famílias antes da compra: se o produto possui câmera ou microfone, se precisa de internet, quais dados registra e para quê, onde eles são armazenados, se são compartilhados com terceiros, se é possível apagá-los e quais recursos vêm ativados por padrão. “Se não estiverem acessíveis, a recomendação é não comprar e optar por outro produto ou brinquedo”, orienta a entidade.
O documento lembra ainda que fornecedores e empresas têm a obrigação de informar pais, responsáveis, crianças e adolescentes sobre riscos e medidas de segurança, incluindo privacidade e proteção de dados, independentemente de a compra ter sido realizada. É um dever de transparência semelhante ao que sustenta políticas públicas de proteção ao cidadão em outras frentes da saúde, como a incorporação de novos medicamentos oncológicos ao SUS, em que o acesso à informação acompanha o acesso ao produto.
O que fazer se algo der errado
Diante de coleta de dados não informada, conteúdo inadequado, falhas de segurança ou dificuldade de exercer direitos, a SBP orienta que as famílias podem pedir ao fornecedor informações, correção ou eliminação dos dados da criança; desistir, em até sete dias, do recebimento de compras feitas fora de estabelecimento comercial; utilizar os canais de notificação do fornecedor; e reclamar no Procon, no portal consumidor.gov.br e na Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD).
Cautela, e não proibição automática
A recomendação central da entidade é de cautela na oferta de brinquedos com IA, sobretudo os que utilizam IA generativa, mantêm conversas abertas, coletam dados pessoais e simulam amizade, cuidado ou apoio emocional. “Quando essas funcionalidades não trazem benefício claro, ou quando o funcionamento e os mecanismos de proteção carecem de transparência, a orientação é priorizar produtos e brinquedos sem esses recursos”, alerta a SBP.
Em outras palavras: a presença de inteligência artificial não torna um brinquedo automaticamente prejudicial, mas também não é sinônimo de estímulo ao desenvolvimento. Para os pediatras, o que deve pesar na escolha é se a tecnologia acrescenta algo real à brincadeira — sem ocupar o lugar do sono, do movimento, da brincadeira livre, da leitura, do contato com a natureza e da convivência familiar.
