O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro avançou 0,5% entre abril e junho de 2026, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A alta, impulsionada sobretudo pela agropecuária, colocou o país na quinta posição entre as 20 economias acompanhadas pela consultoria Austin Rating, apesar de sinalizar perda de fôlego em relação ao desempenho dos três primeiros meses do ano.
Mesmo com a desaceleração, o resultado superou o de grandes potências — inclusive a China, que ficou em 19º — e garantiu ao Brasil o posto de destaque entre os emergentes em um cenário marcado por impactos do conflito no Oriente Médio e por um enfraquecimento generalizado do crescimento global.
Ritmo menor, mas acima da média internacional
Na leitura do economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, a presença do Brasil no topo do ranking trimestral ganha relevância justamente porque o segundo trimestre foi de desaceleração para quase todos. “Há uma perda de tração em comparação com o primeiro trimestre, quando as taxas eram mais robustas. Mesmo assim, o Brasil entregou um resultado superior ao de muitos pares”, afirma.
Segundo ele, a conjunção entre estímulo fiscal e uma safra agrícola ainda volumosa ajudou a amortecer a influência negativa do ambiente externo. Esse impulso, porém, tem custo: juros continuam elevados e a inflação segue pressionada. Sinais de arrefecimento no consumo das famílias e em setores mais dependentes do mercado interno também já aparecem nas estatísticas, alertam analistas ouvidos pelo G1.
Agropecuária mantém o freio de pé
O setor agropecuário foi novamente o motor do PIB nacional. Colheitas recordes de grãos e maior produtividade compensaram o desempenho mais fraco da indústria e dos serviços. Esse peso do campo, somado ao efeito dos investimentos públicos, tornou o Brasil menos sensível à desaceleração mundial no curto prazo, ainda que não elimine riscos para os próximos trimestres.
Ranking global do 2º trimestre
A lista compilada pela Austin Rating compara a variação real do PIB de 20 países entre abril e junho. Confira as posições:
- 1º Irlanda: 1,0%
- 2º Indonésia: 0,9%
- 3º Angola: 0,7%
- 4º Malásia: 0,6%
- 5º Brasil: 0,5%
- 6º Eslovênia: 0,4%
- 7º Lituânia: 0,4%
- 8º Suécia: 0,4%
- 9º Estados Unidos: 0,4%
- 10º Sérvia: 0,4%
- 11º Suíça: 0,4%
- 12º Cingapura: 0,3%
- 13º México: 0,3%
- 14º Tunísia: 0,3%
- 15º Taiwan: 0,3%
- 16º Colômbia: 0,3%
- 17º Turquia: 0,3%
- 18º Polônia: 0,2%
- 19º China: 0,2%
- 20º Canadá: 0,2%
Fatores que colocaram o Brasil na frente de gigantes
Agostini frisa que, embora a maioria dos países emergentes da Ásia tenha perdido força, o Brasil se beneficiou de variáveis domésticas específicas:
- Expansão fiscal – Gastos públicos em infraestrutura e programas sociais sustentaram a demanda interna.
- Agro em alta – Safras recordes continuaram a puxar o PIB, diferentemente de parceiros que dependem mais de manufatura.
- Câmbio relativamente estável – A volatilidade menor do real frente ao dólar reduziu pressões adicionais sobre preços.
Contudo, o mesmo conjunto de fatores pode limitar o avanço futuro. A expansão fiscal prolonga juros altos; a inflação só cede lentamente; e o espaço para novas safras recordes diminui. “O desempenho foi bom, mas não resolve problemas estruturais. Sem produtividade maior e investimento privado consistente, a tendência é de crescimento mais modesto nos próximos trimestres”, resume o economista.
Projeção: Brasil pode virar a 9ª maior economia em 2027
Além do recorte trimestral, a Austin Rating atualizou projeções para o PIB nominal – medida em dólares correntes que sinaliza o tamanho da economia. Em 2026, o Brasil aparece na 10ª posição, com US$ 2,64 trilhões, atrás dos EUA, China, Alemanha, Japão, Reino Unido, Índia, França, Itália e Rússia. A consultoria estima, porém, que o país encurte a diferença para os russos ainda este ano e assuma o nono lugar em 2027.
Números projetados em dólares correntes
- Itália: US$ 2,81 trilhões
- Brasil: US$ 2,77 trilhões
- Canadá: US$ 2,64 trilhões
- Rússia: US$ 2,53 trilhões
Se confirmado, o avanço refletirá câmbio mais favorável, inflação doméstica melhor administrada e ganhos de produtividade, além da própria recomposição de preços de commodities exportadas pelo país. Ainda assim, especialistas lembram que a mera posição no ranking nominal não traduz bem-estar social nem crescimento sustentado; serve apenas como régua de comparação do tamanho absoluto das economias.
Próximos desafios
O governo terá de conciliar a necessidade de conter gastos para aliviar pressões sobre juros com demandas por investimento em infraestrutura e programas sociais. Ao mesmo tempo, o setor privado cobra reformas que elevem a produtividade e ampliem a competitividade externa. Sem um avanço consistente nessas frentes, o espaço para repetir resultados acima da média internacional tende a diminuir.
Por ora, a combinação de safra agrícola robusta, estímulo fiscal e certa resiliência do consumo manteve o Brasil entre os destaques do segundo trimestre de 2026. O desafio passa a ser prolongar esse desempenho num ambiente global ainda sujeito a choques geopolíticos e a um ciclo monetário apertado em várias partes do mundo.