A Noruega tem um novo soberano. Haakon VIII, de 53 anos, prestou nesta terça-feira (1º) o juramento constitucional diante do Parlamento em Oslo, uma semana depois da morte do pai, Harald V, aos 89. A ascensão ocorre num momento em que a Casa Real enfrenta desgaste de imagem causado por escândalos familiares e pela saúde frágil de membros do clã.
Com a coroa na cabeça e a Constituição nas mãos, Haakon prometeu “governar conforme as leis do reino” e zelar pelo povo. O compromisso marca o início de uma etapa em que o novo rei terá de conciliar a tradição milenar da monarquia com a necessidade de reconquistar a confiança dos noruegueses, abalada por controvérsias recentes envolvendo sua esposa, Mette-Marit, e o enteado Marius Borg Høiby.
Cerimônia simples, simbolismo potente
O juramento ocorreu no Storting, sede do Legislativo, diante dos 169 deputados que, numa monarquia constitucional como a norueguesa, detêm o poder político efetivo. Após a leitura do texto solene, o presidente do Parlamento, Masud Gharahkhani, declarou oficialmente empossado o novo rei. No exterior do prédio, salvas de 21 tiros canhonaram o anúncio à população.
Ao lado de Haakon estavam a rainha consorte Mette-Marit, recuperando-se de um transplante de pulmão realizado em junho, e os dois filhos do casal: Ingrid Alexandra, agora a primeira na linha sucessória, e Sverre Magnus. A cadeira vazia de Harald V foi drapeada com a bandeira nacional em sinal de luto.
Regente antes de rei
Haakon vinha exercendo interinamente várias funções reais nos últimos anos, à medida que as limitações físicas do pai se agravavam. Com frequência, representou o Palácio em eventos oficiais e chegou a despachar como regente em períodos prolongados. A familiaridade com o protocolo, portanto, não é novidade, mas o peso da coroa, agora permanente, exige outras habilidades.
Desafios imediatos para o novo monarca
Pesquisa do jornal Dagbladet de dezembro de 2022 indicou que 68 % dos entrevistados defendem a continuidade da monarquia; em 2017, eram 81 %. A queda acentuada coincide com polêmicas que fragilizaram a reputação da família real.
- Relação de Mette-Marit com Jeffrey Epstein: a rainha consorte admitiu ter mantido contato social com o financista condenado por crimes sexuais, falecido em 2019. Ela pediu desculpas públicas e afirmou ter sido “enganada”.
- Condenação de Marius Borg Høiby: o enteado do rei foi sentenciado, em junho, a quatro anos de prisão por estupro, agressão e abuso em relacionamento íntimo. A defesa recorre.
- Controvérsias da princesa Märtha Louise: irmã de Haakon, ela deixou de representar oficialmente a Coroa em 2022 após críticas a seu envolvimento em cursos e livros de cunho espiritual, além do recente casamento com o xamã americano Durek Verrett.
Somados, esses episódios pressionam Haakon a adotar postura firme para preservar o prestígio da instituição, vista como símbolo de coesão nacional desde a independência da Suécia, em 1905.
A estratégia anunciada
Em pronunciamento breve após o juramento, o rei declarou que pretende “servir como ponte entre tradição e modernidade” e priorizar “transparência e diálogo aberto” com a sociedade. A Casa Real estuda ampliar relatórios anuais sobre finanças e agenda oficial, numa tentativa de reforçar a accountability perante os contribuintes.
Trajetória do novo rei
Nascido em 20 de julho de 1973, Haakon Magnus é o segundo filho de Harald V e da rainha Sonja. Apesar de mais novo que a irmã Märtha Louise, tornou-se herdeiro em 1991, quando a Constituição ainda privilegiava homens. A primogenitura igualitária só foi adotada no ano anterior e não teve efeito retroativo.
Formação acadêmica e militar
Formado pela Academia Naval Real da Noruega em 1995, Haakon também se graduou em Ciência Política na Universidade da Califórnia, em Berkeley, e concluiu mestrado em Estudos de Desenvolvimento na London School of Economics, com foco em comércio internacional e África. O currículo inclui estágio diplomático no Ministério das Relações Exteriores, o que deve auxiliá-lo nas funções de chefe de Estado em visitas oficiais.
Paixões fora do palácio
Surf, esqui alpino e música são hobbies conhecidos do novo rei. Antes de aceitar o destino real, ele chegou a dizer que teria uma loja de brinquedos se pudesse escolher a carreira. O gosto por festivais de rock e rap na juventude contribuiu para a imagem de príncipe “pé no chão”, fator decisivo para a boa aceitação popular na virada dos anos 2000.
Um casamento que quebrou barreiras
Haakon conheceu Mette-Marit Tjessem Høiby em 1999, num festival de música. Mãe solteira e com histórico de participação em festas marcadas pelo consumo de drogas, ela enfrentou resistência do público e da imprensa. O casamento, celebrado na Catedral de Oslo em 2001, só foi autorizado após o rei Harald recordar que também se unira a uma plebeia, a então senhora Sonja Haraldsen, em 1968.
Ampliação da família
O casal tem dois filhos: a princesa Ingrid Alexandra, de 22 anos, e o príncipe Sverre Magnus, de 18. Haakon também se tornou padrasto de Marius Borg Høiby, hoje com 27 anos, que não possui título nobre. A popularidade do casal cresceu quando souberam equilibrar protocolos e postura acessível, mas o recente processo de Høiby reacendeu questionamentos.
A força simbólica da Coroa norueguesa
A monarquia da Noruega remonta ao lendário Harald Cabelo Belo, no século IX, mas sofreu hiatos até a independência de 1905, quando um plebiscito — aprovado por cerca de 75 % dos eleitores — manteve o sistema monárquico. Desde então, o trono exerce funções majoritariamente cerimoniais, como a sanção formal de leis e a nomeação de primeiros-ministros escolhidos pelo Parlamento.
Mesmo sem poder executivo, a Casa Real é peça-chave na diplomacia cultural e comercial do país. Viagens de Estado e patronatos em entidades sociais projetam a imagem da Noruega como nação pacífica, ambientalmente responsável e comprometida com direitos humanos.
Popularidade em queda, mas ainda majoritária
Especialistas creditam o recuo no apoio à combinação de escândalos familiares e mudanças geracionais: jovens noruegueses tendem a valorar menos a ideia de chefia de Estado hereditária. Para revertê-lo, analistas apontam três frentes prioritárias ao novo rei:
- Gestão de crise de reputação — afastar familiares de atividades oficiais quando houver conflito de interesse e agir com transparência.
- Modernização da instituição — ampliar presença digital, reduzir custos operacionais e ajustar protocolos a uma sociedade mais igualitária.
- Engajamento social — reforçar ações em temas caros à opinião pública, como meio ambiente, inclusão e cooperação internacional.
Perspectivas para o reinado de Haakon VIII
A sucessão estabelece um marco geracional: aos 53 anos, Haakon é visto como monarca suficientemente experiente, porém jovem para padrões europeus. Especialistas em Casa Real creem que ele terá fôlego para conduzir reformas internas sem romper com o legado do pai, cuja longevidade — 33 anos no trono — consolidou a estabilidade política do pós-Guerra Fria.
O próximo grande teste público está previsto para o ano que vem, quando o rei deverá abrir oficialmente a sessão parlamentar, cerimônia acompanhada por toda a imprensa escandinava. Até lá, Haakon VIII precisará mostrar que consegue separar o peso das polêmicas familiares do papel institucional que herdou, mantendo viva uma das monarquias mais antigas ainda em exercício na Europa.