
Em uma cidade alemã com mais de 2 mil anos de história, um museu tem um personagem inusitado como protagonista: o cachorro-salsicha, conhecido oficialmente como dachshund. O Museu do Dachshund fica em Regensburg, às margens do rio Danúbio, e reúne mais de 30 mil objetos relacionados à raça — um acervo que atrai milhares de visitantes todos os anos e entrou para o Guinness World Records.
No acervo, há de tudo: papel higiênico, talheres, abridores de vinho, saleiros e até bancos com a imagem da raça. Também não faltam representações dos cães em madeira, cerâmica, vidro e pelúcia. E há salsichinhas de verdade circulando pelo espaço, já que o museu permite a entrada de cães.
Um acervo de 30 mil peças
A coleção impressiona pela variedade e pelo volume. São mais de 30 mil itens que vão desde objetos cotidianos até esculturas e peças decorativas, todos dedicados exclusivamente ao dachshund. O espaço recebe cerca de 35 mil visitantes humanos por ano — número que cresce significativamente quando os acompanhantes de quatro patas entram na conta, segundo os fundadores.
A popularidade da atração atrai entusiastas do mundo todo, garantindo também doações valiosas para o acervo. “Recebemos muitas doações de todas as partes do mundo. No ano passado, uma senhora faleceu nos Estados Unidos e deixou em seu testamento que toda a sua coleção, com cerca de 800 peças, fosse doada ao Museu do Dachshund”, revelou um dos fundadores, Oliver Storz, em entrevista à emissora Deutsche Welle.
Além da exposição permanente, o museu oferece um passeio pela cidade de Regensburg com paradas em locais que fazem referência aos cachorros, conectando a atração à história local.
Dois amigos e mais de 20 anos de coleção
Inaugurado em 2018, o espaço é fruto da dedicação de Oliver Storz e de seu sócio, Josef Küblbeck, que passaram mais de duas décadas reunindo peças relacionadas à raça. A coleção começou muito antes da abertura do museu, movida pela paixão dos dois pelo cão de formato peculiar.
O fascínio pelo dachshund, no entanto, não é novidade na história. Durante a visita, os turistas descobrem como a raça conquistou realezas e personalidades globais ao longo dos séculos. A turista colombiana Maria Camila Matta, que visitou o espaço ao lado de sua cadelinha Cocolina e da família, destacou o impacto dessa experiência cultural.
“Tem Cocolinas por todo lado. É lindo. Achei muito legal conhecer toda essa relação com a realeza e descobrir quantos monarcas tiveram teckels. Também fiquei surpresa ao saber que o Picasso tinha um. Eu não fazia ideia de que essa raça era tão famosa no mundo todo”, contou a visitante.
Recorde no Guinness e quase 900 cães em desfile
Em 2024, o museu entrou para o Guinness World Records depois de reunir quase 900 dachshunds em um desfile pelas ruas de Regensburg. O evento celebrou a raça e reforçou a projeção internacional da instituição, que já era conhecida entre criadores e apaixonados por cães.
O feito, porém, também provocou críticas de entidades de proteção animal, que são contrárias à reprodução de cães com características físicas consideradas extremas. Para essas organizações, a promoção da raça pode incentivar a criação de animais com problemas de saúde decorrentes do corpo alongado e das pernas curtas, traços que definem o dachshund.
O dachshund na cultura alemã
Desenvolvido no século 15 para a caça, o dachshund carrega forte simbolismo na identidade alemã. A raça foi escolhida como mascote oficial dos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, consolidando seu status de ícone nacional.
Ao longo dos séculos, o “salsichinha” conquistou monarcas europeus, artistas e celebridades. O pintor Pablo Picasso teve um dachshund, detalhe que surpreende muitos visitantes do museu, e a relação da raça com a realeza é um dos pontos altos da exposição.
O Dackelmuseum, como é conhecido localmente, consolidou-se assim como um centro de preservação cultural dedicado a uma das raças mais populares do mundo — um destino obrigatório para quem visita a Baviera e quer entender por que um cão de pernas curtas e corpo comprido virou patrimônio afetivo de um país inteiro.
O “cão texugo” que caçava em tocas
O nome da raça entrega sua origem: em alemão, Dachs significa texugo e Hund significa cão — ou seja, “cão texugo”. Desenvolvida no século 15, a raça foi criada para caçar texugos e outros animais de toca: o corpo alongado e as pernas curtas permitiam que o cão entrasse nas tocas subterrâneas e enfrentasse a presa em seu próprio território.
O status de símbolo nacional foi selado em 1972, quando um dachshund virou mascote oficial dos Jogos Olímpicos de Munique — considerado o primeiro mascote oficial da história dos Jogos. Décadas depois, o desfile de quase 900 exemplares pelas ruas de Regensburg, que rendeu ao museu um lugar no Guinness World Records, mostrou que a paixão alemã pelo “salsichinha” segue intacta — mesmo sob os questionamentos de entidades de proteção animal sobre a criação de cães com características físicas extremas.
