O Nepal atravessa a pior catástrofe natural desde o terremoto de 2015. Uma avalanche de água, pedras, lama e gelo devastou comunidades próximas à fronteira com a China, danificando cidades inteiras, destruindo usinas hidrelétricas em construção e deixando mais de 900 mortos e quase 4,8 mil desaparecidos.
O desastre chegou poucos dias antes de se completar um ano dos protestos anticorrupção que impulsionaram Balendra Shah, 36 anos, ao cargo de primeiro-ministro. A tragédia impôs ao ex-rapper — símbolo da chamada Geração Z na política nepalesa — o primeiro grande teste de liderança nacional e expôs lacunas de coordenação entre governo central, províncias e municípios.
Impacto humano e destruição de infraestrutura
Bairros inteiros desapareceram sob a enxurrada que desceu dos vales himalaios. Hospitais de campo e abrigos improvisados recebem diariamente parentes em busca de informações sobre familiares perdidos. Nas zonas rurais, moradores relatam a perda de casas, plantações e rebanhos, além da interrupção de rotas de abastecimento.
Quase todas as usinas hidrelétricas em construção no corredor do rio Trishuli foram soterradas ou acessos foram bloqueados. Autoridades estimam que centenas de trabalhadores permaneçam presos em túneis parcialmente inundados. A destruição de centrais elétricas também comprometeu o fornecimento de energia em parte do país, levando o governo a racionar eletricidade em grandes centros urbanos.
Busca nos túneis: corrida contra o tempo
Equipes de resgate nepalesas, reforçadas por especialistas chineses e indianos, concentram esforços nos túneis onde operaç ões de hidreletricidade estavam adiantadas. Máquinas escavadeiras, bombas de sucção e sensores de vida foram levados de helicóptero para pontos isolados. O acesso, porém, continua difícil: estradas cederam, pontes foram arrancadas pela correnteza e o mau tempo limita voos.
Familiares se aglomeram na entrada dos canteiros, aguardando listas de sobreviventes divulgadas ao fim de cada dia. A ansiedade aumenta com relatos de falta de oxigênio e de risco de novos deslizamentos sobre as galerias. Segundo técnicos de engenharia do Exército, a janela ideal para encontrar sobreviventes ainda vivos começa a se fechar.
Governo sob pressão
No primeiro dia de crise, o gabinete admitiu publicamente que não possuía plano de resposta dimensionado para um evento dessa proporção. A confissão aumentou a cobrança sobre Shah e seus ministros, poucos deles com experiência administrativa prévia. Desde então, o Executivo afirma ter colocado “todos os recursos disponíveis” em campo, mas críticas sobre a demora inicial persistem.
Analistas apontam um fator político adicional: o Partido Rastriya Swatantra, de Shah, não controla governos locais nem assembleias provinciais. A falta de representação territorial dificultou a montagem de redes de distribuição de mantimentos e a coleta de dados sobre danos em áreas remotas. Prefeitos e vice-prefeitos de oposição queixam-se de uma estratégia “balcão único”, centralizada na capital, que lhes deu pouca autonomia.
Debate sobre coordenação e experiência
Para ex-autoridades envolvidas na reconstrução pós-terremoto, a resposta atual mostra que parte da estrutura criada em 2015 foi desmantelada ou perdeu capacidade técnica. Há quem critique o Executivo por ter rejeitado, nas primeiras 48 horas, a ajuda estrangeira especializada no resgate em túneis, atitude revertida somente três dias depois. Técnicos argumentam que esse intervalo pode ter custado vidas.
Membros do governo rebatem, alegando que era preciso avaliar necessidades reais e garantir logística antes de abrir o espaço aéreo e os corredores terrestres a equipes externas. Trabalhos de avaliação de danos foram realizados por drones civis e pelo Exército, e um centro de comando unificado foi ativado em Katmandu.
Mobilização internacional e captação de recursos
Aos poucos, contingentes da China e da Índia somaram-se às missões de busca, trazendo equipamentos de última geração para perfuração e análise forense. O Nepal também requisitou kits de teste de DNA, utilizados na identificação de corpos encontrados em regiões onde a lama tornava impossível o reconhecimento visual.
Ao mesmo tempo, o premiê lançou o Fundo de Assistência a Desastres, que acumulou o equivalente a R$ 179 milhões até o sexto dia de doações. Empresários, comunidade nepalesa no exterior e organizações humanitárias contribuíram. Especialistas em finanças públicas veem no volume arrecadado sinal de confiança popular no jovem governo, mas alertam que a aplicação desses recursos precisará de mecanismos de transparência para evitar desgaste semelhante ao que derrubou a gestão anterior.
Próximos desafios: reerguer comunidades e credibilidade
Além de salvar vidas, a coalizão comandada por Balendra Shah terá de reconstruir moradias, pontes, estradas e, sobretudo, o setor hidrelétrico — vital para a economia e para os planos de exportação de energia para países vizinhos. Engenheiros estimam que algumas obras voltarão ao estágio zero, exigindo novos estudos de impacto ambiental e redimensionamento de orçamento.
A capacidade de Shah de negociar com províncias, atrair investimentos e incluir a sociedade civil em decisões de planejamento será observada de perto por apoiadores e opositores. Movimentos estudantis que lideraram os protestos de 2025 já sinalizam que acompanharão a execução das verbas de emergência e prometem ir às ruas se identificarem indícios de corrupção ou demora excessiva.
Para comentaristas políticos, o episódio definirá se a chamada “geração anticorrupção” consolidará seu espaço no poder ou se enfrentará rápida erosão de capital político. O balanço final dependerá não apenas de quantas vidas serão salvas, mas de quão rápido vilarejos isolados voltarão a ter estradas, energia e meios de subsistência.