
Resumo da Notícia
- Drones atingiram dois navios comerciais na zona econômica exclusiva da Bulgária, país da Otan, no Mar Negro — o primeiro ataque desse tipo na região
- O cargueiro Alfa Watan, de bandeira do Togo, afundou; o destino da tripulação é desconhecido. O segundo navio, Able, pegou fogo e teve 18 resgatados, com 2 feridos graves
- O premiê Rumen Radev condenou a “violação flagrante do direito internacional”, mas não atribuiu a autoria; a Ucrânia culpa a Rússia, que não comentou
Drones aéreos e marítimos atingiram dois navios comerciais na zona econômica exclusiva da Bulgária no Mar Negro, na madrugada desta terça-feira (6), em um ataque inédito nas águas de um país membro da Otan. Um dos cargueiros, o Alfa Watan, de bandeira do Togo, afundou após danos estruturais críticos, e o destino de sua tripulação é desconhecido. O segundo navio, o Able, de bandeira de Palau, foi atingido e pegou fogo — 18 tripulantes foram resgatados, dois deles com ferimentos graves.
O ataque ocorreu por volta das 3h às 4h da manhã no horário local búlgaro, a cerca de 70 a 80 milhas náuticas (entre 112 e 128 quilômetros) da cidade costeira de Byala, no leste do país, segundo as agências internacionais. Fontes do setor de navegação ouvidas pela Reuters classificaram o episódio como o primeiro ataque com drones desse tipo na zona econômica exclusiva búlgara — um marco que amplia geograficamente um conflito que já dura anos no Mar Negro.
Os dois navios atingidos
As duas embarcações pertenciam a empresas turcas, informou a Reuters. O Alfa Watan, cargueiro geral de bandeira togolesa, navegava para o norte quando foi atingido. Os danos à estrutura foram tão graves que o navio afundou no local. Nenhuma fonte divulgou até o momento quantos tripulantes estavam a bordo — o paradeiro deles permanece desconhecido, e uma operação de busca e resgate foi lançada pelas autoridades búlgaras.
O segundo navio, o Able, também um cargueiro geral, navegava para o sul carregado de trigo, em rota que partira de Galati, na Romênia, com destino a Istambul, na Turquia. Atingido pelos drones, o navio foi tomado por um incêndio e a tripulação precisou abandoná-lo. Segundo a Reuters, 18 tripulantes foram resgatados pela balsa búlgara Dioscuria, que passava pela região — entre eles, 11 turcos e 7 indianos. Dois tripulantes ficaram gravemente feridos, com queimaduras e lesões sérias, e foram levados de helicóptero a um hospital em Varna, no litoral búlgaro.
As autoridades da Bulgária também iniciaram o monitoramento de um possível derramamento de óleo e da ameaça ambiental decorrente do afundamento, de acordo com a AP e a Reuters.
Radev condena, mas não atribui a autoria
O primeiro-ministro da Bulgária, Rumen Radev, convocou uma reunião de emergência e fez uma declaração televisionada em que condenou o ataque nos termos mais duros. “É um ataque inaceitável na zona econômica exclusiva da Bulgária. É uma violação flagrante do direito internacional e do direito marítimo”, afirmou, segundo a Associated Press.
Radev também alertou para o risco de escalada: “Se esta guerra não for encerrada a tempo, ela continuará expandindo seu alcance geográfico e aumentando o risco de um conflito ainda global”, disse, de acordo com a Reuters. O premiê destacou ainda que o comércio marítimo no Mar Negro está sendo seriamente prejudicado e que os custos de seguro das embarcações devem subir ainda mais.
Apesar da dureza do discurso, Radev não atribuiu o ataque a nenhum dos lados. Em declarações à agência estatal búlgara BTA, reproduzidas pela Reuters, o premiê disse que não estava claro se os drones partiram da Rússia ou da Ucrânia.
A Ucrânia, por sua vez, não hesitou em apontar culpados. O chanceler ucraniano Andrii Sybiha publicou no X que a Rússia é responsável pelo ataque, acusando Moscou de criar “uma perigosa cadeia de consequências” ao mirar navios civis, segundo a Reuters.
A Rússia não comentou o incidente. A Otan, aliança militar da qual a Bulgária é membro, recusou-se a comentar e remeteu todas as perguntas às autoridades búlgaras, informou a AP. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, condenou o ataque: “Navios comerciais — e tripulações inocentes — estão sendo alvos, com vidas já perdidas no mar”, afirmou, chamando os ataques ao transporte civil de “inaceitáveis”, segundo a Reuters.
Uma fonte do setor de segurança marítima disse à Reuters que a avaliação inicial é de que o ataque foi “provavelmente” russo — mas trata-se de informação de fonte única, não confirmada por nenhuma autoridade oficial.
Um dia antes, ataque semelhante na Romênia
O ataque na zona búlgara ocorreu apenas um dia depois de um episódio quase idêntico nas águas da Romênia, outro país membro da Otan. Na segunda-feira (5), o cargueiro Royad Mammadov, de propriedade turca e bandeira de São Cristóvão e Névis, carregado de milho, foi atingido por drones na zona econômica exclusiva romena e acabou afundando — com 2 mortos e 11 resgatados, segundo as autoridades romenas e a Reuters.
O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky classificou o ataque de segunda como “um ataque horrífico de dois drones russos contra um navio civil” em águas neutras. A Rússia também não comentou aquele episódio.
A consultoria de risco marítimo MARISKS classificou os ataques como uma “escalada significativa”, destacando a expansão geográfica dos incidentes para além das águas adjacentes à Ucrânia, atingindo agora as zonas econômicas exclusivas de membros da Otan, de acordo com a Reuters. O grupo britânico de gestão de risco marítimo Vanguard foi quem identificou as duas embarcações atacadas nesta terça, segundo a mesma agência.
O que está em jogo no Mar Negro
A Bulgária não faz fronteira nem com a Rússia nem com a Ucrânia, mas ocupa uma posição estratégica no Mar Negro, ressalta a Reuters. O mar é uma das rotas comerciais mais importantes do mundo para grãos, petróleo e outros produtos — e desde o início da guerra na Ucrânia, em 2022, tornou-se um tabuleiro de operações militares, com drones navais e aéreos de ambos os lados.
O corredor de grãos ucraniano, vital para o abastecimento mundial de alimentos, passa justamente por essas águas. Ataques a navios civis em zonas de países da Otan elevam o risco de um incidente com consequências imprevisíveis para a aliança militar — e pressionam ainda mais os custos de frete e seguro, que já vinham em alta.
No tabuleiro da guerra, a Ucrânia tem intensificado o uso de drones contra alvos russos e infraestrutura ligada a Moscou — como no ataque em larga escala contra a região de Moscou nesta mesma terça-feira. A Rússia, por sua vez, mantém bombardeios contra cidades e portos ucranianos. A expansão dos ataques para águas de países da Otan, porém, adiciona uma camada nova e perigosa ao conflito.
Enquanto a busca pelos tripulantes do Alfa Watan prossegue e as investigações tentam determinar a origem dos drones, a comunidade internacional acompanha com apreensão. A pergunta que fica, sem resposta oficial até agora, é simples e grave: quem apertou o gatilho — e o que vem a seguir.
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