
Resumo da Notícia
- O HC-UFPR realizou a primeira cirurgia de estimulação cerebral profunda (DBS) para Parkinson pelo SUS em Curitiba
- O procedimento usa eletrodos implantados no cérebro e um neuroestimulador para controlar tremores e rigidez
- A cirurgia representa um marco no acesso a tratamentos de alta complexidade pelo sistema público
O Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC-UFPR) realizou a primeira cirurgia de estimulação cerebral profunda para pacientes com doença de Parkinson pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em Curitiba, segundo o portal Notícias de Curitiba. O procedimento, conhecido pela sigla DBS (do inglês deep brain stimulation), é uma das técnicas mais modernas da neurocirurgia e representa um marco no acesso da população a tratamentos de alta complexidade pelo sistema público de saúde.
A notícia foi destaque na página oficial do Complexo do Hospital de Clínicas da UFPR, que mantém o item “Cirurgia de estimulação cerebral profunda auxilia no tratamento da Doença de Parkinson” entre suas principais publicações institucionais. O HC-UFPR é um hospital universitário federal, vinculado à Ebserh, que atua desde 1961 nas áreas de ensino, saúde e pesquisa, sendo referência para casos de alta complexidade no Paraná.
O que é a estimulação cerebral profunda
A estimulação cerebral profunda é uma intervenção neurocirúrgica indicada para pacientes com doença de Parkinson que não alcançam controle adequado dos sintomas motores apenas com medicamentos, ou que passam a sofrer complicações provocadas pelo próprio tratamento, como movimentos involuntários.
O procedimento consiste no implante cirúrgico de eletrodos em núcleos específicos do cérebro — geralmente o núcleo subtalâmico (STN) ou o globo pálido interno (GPi). Esses eletrodos são conectados por um cabo subcutâneo a um neuroestimulador, dispositivo semelhante a um marca-passo, implantado na região subclavicular. O aparelho fornece estimulação elétrica de alta frequência às regiões cerebrais afetadas pela doença, modulando os circuitos alterados pelo Parkinson.
“A cirurgia de DBS costuma ser indicada quando o paciente começa a sofrer com complicações motoras, como movimentos involuntários que o próprio tratamento provoca, ou quando o remédio perde o efeito no controle dos sintomas ao longo do dia. O objetivo é modular circuitos cerebrais alterados pela doença, melhorando o tremor, a rigidez e a lentidão”, explica o neurocirurgião funcional Murilo Marinho, membro titular da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN).
O que a cirurgia pode — e não pode — fazer
Os resultados esperados da estimulação cerebral profunda incluem a redução dos períodos “off” — fases em que o efeito da medicação passa e os sintomas motores voltam com força —, o aumento dos períodos “on”, a diminuição das discinesias (movimentos involuntários), a supressão do tremor resistente a medicamentos e a melhora no desempenho das atividades da vida diária, com consequente aumento da qualidade de vida.
Estudos apontam que cerca de 70% dos pacientes implantados sentem-se melhor controlados e percebem melhora da qualidade de vida, segundo a neurologista Rachel Brant, doutora pela USP com tese em DBS. A técnica também pode reduzir a necessidade de medicação, o que diminui os efeitos colaterais associados ao uso prolongado da levodopa, principal fármaco contra o Parkinson.
É importante, porém, ter expectativas realistas: a DBS não cura a doença de Parkinson e não interrompe sua progressão. Trata-se de um tratamento sintomático avançado, que devolve autonomia e qualidade de vida a pacientes selecionados, mas não elimina a causa da doença.
Quem pode se submeter ao procedimento
Nem todos os pacientes com Parkinson estão aptos à cirurgia. A indicação passa por uma avaliação rigorosa de uma equipe multidisciplinar, que analisa o estágio da doença, a resposta aos medicamentos, o perfil cognitivo e as condições clínicas gerais do paciente.
Um exemplo ilustra o perfil típico: na Bahia, onde a primeira neurocirurgia para Parkinson pelo SUS foi realizada em julho no Hospital Geral Roberto Santos, a primeira paciente operada tinha 68 anos e convivia com a doença há 20 anos. O procedimento, em fase piloto, foi acompanhado por neurocirurgiões do Instituto do Cérebro do Rio de Janeiro.
A doença de Parkinson é crônica e degenerativa, causada por uma diminuição intensa da produção de dopamina — neurotransmissor que ajuda na realização dos movimentos voluntários do corpo de forma automática. Afeta principalmente pessoas acima dos 60 anos e provoca tremores, rigidez muscular e lentidão nos movimentos, além de instabilidade postural. Sintomas não motores, como depressão, distúrbios do sono e alterações do olfato, podem surgir anos antes do diagnóstico.
O avanço tecnológico: estimulação adaptativa
A área vive um momento de rápida evolução. Em 2026, chegou ao Brasil a tecnologia de estimulação cerebral profunda adaptativa (aDBS), que permite ao sistema não apenas estimular o cérebro, mas também registrar e analisar sua atividade ao longo do dia, autoajustando-se dentro de limites de segurança definidos pelo neurologista para otimizar o estímulo em tempo real.
O sistema Percept RC, primeiro do tipo no país, combina terapia personalizada, bateria recarregável com duração superior a 15 anos e a tecnologia BrainSense, que capta sinais cerebrais para ajuste preciso da terapia. É ainda o menor dispositivo da categoria, compatível com ressonância magnética de corpo inteiro e com implante minimamente invasivo.
O significado para o SUS
A realização do procedimento pelo SUS em um hospital universitário público tem um peso simbólico e prático enorme. A estimulação cerebral profunda é uma cirurgia de alto custo — envolve equipamentos importados de última geração, equipe altamente especializada e acompanhamento pós-operatório prolongado. Fora do sistema público, o valor pode ser proibitivo para a imensa maioria das famílias brasileiras.
Ao incorporar a técnica à sua rotina, o HC-UFPR amplia o acesso de pacientes paranaenses a um tratamento que, até recentemente, estava restrito a poucos centros privados ou a programas-piloto em outros estados. Como hospital de ensino, a unidade também cumpre um papel de formação: residentes e estudantes acompanham procedimentos de ponta, multiplicando o conhecimento para futuras gerações de neurocirurgiões.
Para os pacientes com Parkinson em estágio avançado, cada mês de espera por um tratamento eficaz significa perda de autonomia — dificuldade para se vestir, comer, caminhar e realizar tarefas simples do dia a dia. A chegada da DBS ao SUS em Curitiba representa, para essas pessoas e suas famílias, a perspectiva concreta de recuperar parte da vida que a doença havia tomado.
Nota: as informações sobre a realização do procedimento no HC-UFPR têm como base o portal Notícias de Curitiba; o hospital destaca o tema em sua página institucional oficial.
