Islandeses vetam retomada de negociações com a União Europeia e mantêm controle sobre pesca

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Os eleitores da Islândia decidiram, mais uma vez, fechar a porta à União Europeia. No referendo de sábado (31), 52,8% votaram contra a reabertura do processo de adesão ao bloco, sepultado em 2015, enquanto 47,2% apoiaram a retomada das conversas. A diferença de pouco mais de cinco pontos foi suficiente para manter o país fora das regras de Bruxelas e, sobretudo, preservar o controle sobre suas vastas zonas de pesca, responsáveis por boa parte da economia nacional.

A derrota representou revés para o governo de centro-esquerda, que via na proximidade política com o bloco uma forma de reduzir o alto custo de vida e ampliar a estabilidade econômica. Já para Bruxelas, a negativa islandesa frustrou o plano de levar a bandeira azul com estrelas amarelas até o Ártico, área cada vez mais disputada por Estados Unidos, Rússia e China.

Pesca, identidade e soberania explicam o “Não”

Para grande parte dos islandeses, aderir à União Europeia significaria aceitar a política comum de pesca e dividir as cotas com embarcações estrangeiras. O temor de perder o controle de um setor que responde por cerca de 7% do PIB e 40% das exportações mobilizou associações de pescadores, cooperativas e comunidades costeiras. A campanha do “Não” apostou nesse sentimento de soberania, reforçando a ideia de que só a autonomia garante a sobrevivência de cidades cujo sustento depende exclusivamente do mar.

A estratégia rendeu resultados expressivos no interior. Nos distritos rurais, onde agricultura e pesca moldam a economia local, a rejeição ultrapassou 60%. Já na capital, Reykjavik, mais integrada ao mercado de serviços e ao turismo internacional, o “Sim” venceu em dois dos seis distritos eleitorais, mas não foi suficiente para virar o jogo nacional.

Fator econômico pesa menos que o simbólico

Embora a promessa de menor custo de vida e maior acesso ao mercado comum europeu tenha sido enfatizada pelos defensores da adesão, pesquisas de boca de urna mostram que valores intangíveis tiveram mais peso. Soberania sobre recursos naturais e preservação da identidade foram citados por quase dois terços dos eleitores do “Não”.

O professor de Ciência Política da Universidade da Islândia, Jón Ólafsson, avalia que o país “construiu sua modernização mantendo distância de grandes potências” e que “essa memória foi reativada na campanha”. A narrativa eurocética ganhou coro de partidos de direita e de movimentos ambientalistas que temem a chegada de grandes frotas ao ecossistema frágil do Atlântico Norte.

Impacto em Bruxelas e celebração eurocética

A comissão europeia acompanha de perto a ilha de 400 mil habitantes desde 2009, quando a crise financeira levou o então governo islandês a pleitear adesão formal ao bloco. À época, o processo avançou até a fase de triagem de normas. O impasse sobre a pesca, porém, travou as conversas, culminando na suspensão unilateral por Reykjavik em 2015.

Com a decisão de sábado, Bruxelas vê bloquear-se, por ora, a possibilidade de conquistar sua primeira democracia nórdica totalmente situada no Ártico. Líderes eurocéticos celebraram. A francesa Marine Le Pen afirmou nas redes sociais que “outra Europa é possível, formada por nações livres que cooperam voluntariamente”. No Parlamento Europeu, deputados de extrema direita citaram o resultado islandês como sinal de desgaste da integração.

Expansão para o Ártico esbarra em interesses geopolíticos

A entrada da Islândia daria à UE posição estratégica em rotas marítimas liberadas pelo degelo. O “não” mantém em aberto a influência dos EUA, que já contam com uma base da Otan em Keflavik e um acordo bilateral de defesa. Em 2023, o então presidente Donald Trump chegou a insinuar, em discurso no Fórum Econômico Mundial, que Groenlândia e Islândia poderiam virar o 51º e 52º estados norte-americanos. A declaração foi recebida como piada, mas ativou receios sobre soberania que ainda ecoam no imaginário local.

EEA continua sendo a opção confortável

Fora da UE, mas dentro do Espaço Econômico Europeu (EEE) ao lado de Noruega e Liechtenstein, a Islândia desfruta de livre circulação de pessoas, capitais e mercadorias, sem necessidade de cumprir 100% das exigências de Bruxelas. A primeira-ministra Kristrún Frostadóttir lembrou, após reconhecer a derrota, que o modelo “traz benefícios tangíveis” e que o país “se sente seguro sob o guarda-chuva da Otan e do acordo de defesa com Washington”.

Analistas indicam que a maioria do eleitorado percebe o EEE como “o melhor dos dois mundos”: acesso ao mercado europeu e autonomia para gerir recursos sensíveis. Qualquer mudança exigiria contrapartidas políticas e a renúncia ao poder de veto sobre pescas, algo que as comunidades costeiras não parecem dispostas a aceitar.

Próximos passos do governo

Derrotados nas urnas, os partidos governistas precisam agora conciliar base urbana pró-UE com eleitores rurais avessos a Bruxelas. A expectativa é de que a pauta da adesão seja engavetada por pelo menos uma legislatura. Mesmo assim, a primeira-ministra declarou que manterá diálogo aberto com a comissão europeia “sobre temas de interesse mútuo”, como energia renovável e pesquisa científica no Ártico.

Para especialistas, o resultado reforça o caráter plebiscitário da questão europeia na Islândia: qualquer governo que aposte no ingresso pleno terá de submeter a decisão à população. Pela segunda vez em pouco mais de uma década, o veredito foi de cautela.

Divisão interna reflete tradição histórica

A tensão entre litoral e capital não é nova. Desde a independência em 1944, Reykjavik se urbanizou e se globalizou mais rápido que o interior. A cada consulta popular envolvendo temas externos — seja energia, finanças ou defesa —, o país reafirma essa clivagem. O referendo do fim de semana apenas atualizou um debate que remonta às chamadas “Guerras do Bacalhau” contra o Reino Unido, nos anos 1970, quando a Islândia estendeu unilateralmente suas águas territoriais para proteger a pesca.

Na avaliação do historiador Árni Sigurðsson, “a memória dessas disputas permanece viva na cultura nacional e é reativada toda vez que a autonomia sobre o mar entra em jogo”. Assim, o campo favorável à UE terá de encontrar novos argumentos se quiser conquistar as pequenas vilas costeiras, núcleo duro do euroceticismo islandês.

O que fica em aberto

  • Negociações formais com a UE permanecem suspensas indefinidamente.
  • O país continua no Espaço Econômico Europeu e na Otan.
  • Bruxelas perde, por ora, mais uma oportunidade de projetar influência no Ártico.
  • Pescadores mantêm exclusividade sobre cotas e gestão dos estoques.
  • A clivagem urbana-rural agrava o desafio político interno do governo.

No curto prazo, a vida do islandês médio muda pouco: a coroa continua sendo a moeda, a fronteira com a Europa segue aberta para mercadorias e turistas, e a frota nacional navega sozinha nas águas geladas que fazem a riqueza do país. Mas o resultado do pleito envia recado claro: soberania e identidade, ao norte do Atlântico, ainda valem mais que qualquer passaporte europeu.

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Escobar Oliver é profissional do mercado digital desde 2021, com experiência em produção de conteúdo, SEO e gestão de portais de notícias. Como responsável pelo RSO Notícias, dedica-se a oferecer informações confiáveis, atualizadas e relevantes, sempre com compromisso editorial, transparência e qualidade na comunicação.