A troca de comando na monarquia da Noruega, provocada pela morte do rei Harald V aos 89 anos, reacendeu o debate sobre a situação de sua filha mais velha, a princesa Märtha Louise, de 54 anos. Embora seja primogênita, ela não herdou o trono — agora ocupado por Haakon VIII — e, desde 2022, abandonou os compromissos oficiais para dedicar-se a negócios ligados à medicina alternativa ao lado do marido, o polêmico xamã Durek Verrett.
O contraste entre o novo soberano, que reafirmou o lema “Tudo pela Noruega”, e a irmã, marcada por controvérsias em torno de clarividência, “escola de anjos” e declarações sem base científica, expõe as tensões internas de uma casa real que luta para preservar prestígio diante de opiniões públicas cada vez mais críticas.
Ascensão de Haakon e legado de Harald V
Aos 51 anos, Haakon VIII tornou-se rei logo após o anúncio oficial de que o país estava “unido em luto e gratidão” pela trajetória do pai. De imediato, o monarca manteve a divisa usada por três gerações — “Tudo pela Noruega” — numa tentativa de garantir continuidade institucional.
O momento solene atraiu multidões ao palácio real, onde cidadãos depositaram flores e velas. Na prática, porém, o protocolo reforçou uma desigualdade histórica dentro da própria família: mesmo mais velha, Märtha Louise foi preterida pela sucessão por causa de uma regra que vigorava até 1990 e dava preferência ao primeiro filho homem.
Por que a primogênita ficou fora da linha direta
Quando a princesa nasceu, em 1971, a Constituição ainda priorizava descendentes masculinos. A emenda que garantiu igualdade de gênero na sucessão só foi aprovada 19 anos depois e não teve efeito retroativo. Assim, Haakon permaneceu como herdeiro, enquanto Märtha Louise passou a ocupar lugar secundário.
A mudança, no entanto, permitiu que a filha de Haakon, a princesa Ingrid Alexandra, seja hoje a segunda na linha e possa vir a ser a primeira mulher a governar o país desde o século XV — algo que a própria tia jamais pôde almejar.
Uma vida de controvérsias públicas
Escola de anjos e suposta clarividência
Desde jovem, Märtha Louise demonstrou interesse por espiritualidade e tratamentos não convencionais. Ela criou uma escola voltada a “conexões com anjos” e já declarou, em entrevista de 2013, ser capaz de sentir a energia das pessoas. Apesar de negar a capacidade de prever o futuro, descreveu-se como clarividente e disse conversar diariamente com um “anjo da guarda”.
Renúncia às funções reais
As atividades particulares desencadearam críticas por suposto uso comercial do título de princesa. Em novembro de 2022, sob pressão, ela solicitou afastamento permanente dos deveres ligados à Coroa, alegando desejo de “separar claramente” a vida pública da privada. Apesar de manter o tratamento de “Sua Alteza”, deixou de representar o Estado em eventos oficiais.
Primeiro casamento e tragédia familiar
Em 2002, a então princesa se casou com o escritor Ari Behn. O casal teve três filhas e se divorciou em 2017. Dois anos depois, Behn, que enfrentava depressão, cometeu suicídio no Natal de 2019, episódio que abalou a opinião pública norueguesa.
União com o xamã Durek Verrett
Quem é o novo marido
Durek Verrett, norte-americano que se apresenta como “xamã de sexta geração”, diz ter ressuscitado dos mortos e previsto os atentados de 11 de setembro dois anos antes de ocorrerem. Em seu site, autoproclama-se “visionário da Era do Agora” e afirma já ter influenciado celebridades como Gwyneth Paltrow e Nina Dobrev.
Críticas dentro e fora da Noruega
Verrett é acusado por médicos e políticos de divulgar práticas sem fundamentação científica — entre elas, a ideia de que o câncer “é uma escolha”. Líderes de diferentes partidos, incluindo a ex-primeira-ministra Erna Solberg, classificaram suas teorias como conspiratórias. Na Noruega, figuras públicas o chamam de charlatão e vigarista. O próprio Verrett atribui a hostilidade ao racismo e à dificuldade de a sociedade aceitar ideias “fora do comum”.
Cerimônia e repercussão
O relacionamento foi oficializado em agosto de 2024, em cerimônia na Noruega. Ao anunciar o noivado dois anos antes, Märtha Louise previu reações negativas e pediu nas redes sociais que críticos “se abstivessem” de julgamentos. O pedido não surtiu muito efeito: pesquisa divulgada em setembro de 2022 mostrou que apenas 13% dos noruegueses consideravam a princesa apta a representar a família real.
Impacto na imagem da monarquia
A combinação de luto nacional, coroação de Haakon VIII e persistência de manchetes sobre a irmã lança luz sobre os desafios da Casa de Glücksburg. Enquanto o novo rei tenta assegurar estabilidade, especialistas apontam que a sucessora direta, Ingrid Alexandra, pode herdar uma instituição cujos membros mais visíveis enfrentam julgamentos públicos severos.
Para Märtha Louise, a trajetória fora dos holofotes reais parece irreversível. Ao mesmo tempo, sua permanência formal no quadro dinástico mantém o caso vivo no debate sobre igualdade de gênero, limites da fé pessoal e responsabilidade pública de quem ostenta títulos nobiliárquicos em plena era da informação.