
Resumo da Notícia
- Outubro de 2026 foi o mês de outubro mais quente já registrado no planeta, com temperatura média do ar na superfície de 15,35°C — 1,75°C acima do nível pré-industrial e 0,90°C acima da média de 1991 a 2020, segundo o Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus (C3S/ECMWF).
- Foi o terceiro mês consecutivo acima de 1,5°C, e o Copernicus estima probabilidade superior a 99% de 2026 fechar o ano acima dessa marca, como o segundo ano a fazê-lo depois de 2024; a temperatura média da superfície do mar fora das regiões polares também bateu recorde para o mês, com 20,95°C.
- Parte do calor é atribuída à intensificação do El Niño no Pacífico tropical; o observatório europeu ressalva, porém, que a meta de 1,5°C do Acordo de Paris se refere a uma média de longo prazo — um ano acima do limite não significa que a meta tenha sido ultrapassada.
O planeta acaba de registrar o mês de outubro mais quente desde o início das medições. Segundo o Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus (C3S), implementado pelo Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF), a temperatura média do ar na superfície em outubro de 2026 foi de 15,35°C. O valor ficou 1,75°C acima do nível pré-industrial estimado para o período de 1850 a 1900 e 0,90°C acima da média de 1991 a 2020, a referência usada para comparar os meses mais recentes.
O recorde não é um ponto isolado na curva. De acordo com o Copernicus, outubro foi o terceiro mês consecutivo com a temperatura média global acima de 1,5°C em relação ao nível pré-industrial, repetindo o que já havia acontecido em agosto e setembro. A sequência reforça a leitura dos cientistas de que o aquecimento do planeta segue em ritmo acelerado, impulsionado pelas emissões de gases de efeito estufa das atividades humanas e, neste momento, também por um fenômeno natural conhecido: o El Niño.
2026 deve ser o segundo ano acima de 1,5°C
Com dez meses de dados acumulados, o observatório europeu projeta que 2026 se tornará o segundo ano, depois de 2024, a fechar com temperatura média superior a 1,5°C acima do nível pré-industrial. Segundo o Copernicus, a probabilidade de isso acontecer é superior a 99%, ou seja, trata-se de algo praticamente certo. A estimativa é que o ano termine com aquecimento entre 1,56°C e 1,61°C, e a média de janeiro a outubro já ficou 0,64°C acima da média de 1991 a 2020.
O cenário mais provável, ainda de acordo com o Copernicus, é que 2026 seja o segundo ano mais quente já registrado, atrás apenas de 2024. Existe, porém, cerca de 20% de chance de o ano igualar ou até superar 2024, que detém o recorde atual. Outro dado que chama a atenção é o da média de quatro anos: o período de 2023 a 2026 também deve superar a marca de 1,5°C, o que mostra que o calor excepcional deixou de ser episódio de um único ano e passou a caracterizar um ciclo inteiro.
Oceanos também bateram recorde em outubro
O calor não ficou restrito ao ar sobre os continentes. Segundo o Copernicus, a temperatura média da superfície do mar fora das regiões polares atingiu 20,95°C em outubro, o maior valor já registrado para o mês. O recorde anterior para outubro era de 2023. Oceanos mais quentes têm efeito em cadeia: eles alimentam a evaporação que intensifica chuvas em algumas regiões, ao mesmo tempo em que agravam secas e ondas de calor em outras, além de pressionarem ecossistemas marinhos já fragilizados.
Parte dessa energia extra nos oceanos está ligada ao El Niño. O Copernicus atribui parte do aquecimento recente à intensificação das condições do fenômeno no Pacífico tropical, que redistribui calor pelo planeta e costuma elevar a temperatura média global nos anos em que atua. No Brasil, os efeitos desse ciclo já são acompanhados de perto: projeções indicam um El Niño muito forte até 2027, com avanço da seca no Norte e no Nordeste, cenário que combina calor, irregularidade das chuvas e maior risco de queimadas.
O que o recorde significa — e o que ele não significa
Diante de números tão altos, é importante fazer a ressalva que o próprio Copernicus destaca. A meta de 1,5°C do Acordo de Paris, firmado em 2015, refere-se a uma média de longo prazo, calculada ao longo de décadas. Um mês ou mesmo um ano acima desse limite, portanto, não significa que a meta tenha sido oficialmente ultrapassada. O que os dados de 2026 indicam é que o planeta está perigosamente próximo desse patamar de forma cada vez mais frequente — e que, mantido o ritmo atual de aquecimento, a média de longo prazo tende a alcançá-lo.
Na prática, cada fração de grau a mais se traduz em eventos extremos mais intensos e mais frequentes. No Brasil, outubro também foi um mês de extremos: a Amazônia registrou 18.907 focos de incêndio em outubro, o pior resultado em mais de dois anos, em um ano que já supera todo o ano passado em queimadas no bioma. Calor recorde, seca prolongada e fogo formam uma combinação que especialistas associam diretamente ao aquecimento global potencializado pelo El Niño.
Respostas em curso e o caminho até o fim do ano
A divulgação dos dados acontece no momento em que governos e fundos internacionais discutem como financiar a adaptação e a preservação das florestas, consideradas peças centrais para frear o aquecimento. Entre as iniciativas recentes está o fundo que paga para manter a floresta tropical em pé, que recebeu um aporte de US$ 500 milhões anunciado pela Holanda. Florestas preservadas funcionam como grandes estoques de carbono e ajudam a regular o clima regional e global.
Faltando novembro e dezembro para o fechamento de 2026, a tendência apontada pelo Copernicus dificilmente será revertida: seria necessário um resfriamento abrupto e fora dos padrões para tirar o ano da segunda posição entre os mais quentes já registrados. O boletim mensal do observatório europeu, baseado nos dados de reanálise ERA5, seguirá atualizando as projeções. Para os cientistas do clima, a mensagem de outubro é direta: o limite simbólico de 1,5°C, que deveria ser exceção distante, virou presença repetida no calendário — três meses seguidos em 2026, e um ano inteiro prestes a se somar a 2024 nessa lista.
