
Resumo da Notícia
- Santiago Peña apresentou a renúncia à Presidência do Paraguai nesta quinta-feira (5), após perder o apoio do próprio partido em meio ao colapso do banco digital Ueno.
- O Banco Central interveio no Ueno na terça-feira (3): a solvência do banco caiu para menos da metade do mínimo legal e cerca de 3 milhões de clientes ficaram sem acesso às contas.
- O Senado decide se aceita a renúncia ou mantém o processo de impeachment; o vice-presidente Pedro Alliana deve assumir e completar o mandato até agosto de 2028.
O presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou nesta quinta-feira (5) que apresentou a renúncia ao cargo, em meio à crise aberta pelo colapso do banco digital Ueno, que deixou cerca de 3 milhões de clientes sem acesso às próprias contas. O anúncio foi feito em um vídeo gravado, divulgado nas redes sociais, no mesmo dia em que o próprio partido do presidente, o Partido Colorado, anunciou apoio ao impeachment que avançava no Congresso.
“Tomei a decisão de apresentar a renúncia à Presidência da República. Faço isso pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar nossas instituições democráticas”, afirmou Peña na mensagem, segundo a Reuters. Na gravação, o presidente não respondeu diretamente às acusações que pesam contra ele e disse apenas, de acordo com a CNN Español, que “nunca foi minha intenção defraudar a confiança que depositaram em mim”.
O colapso do Ueno Bank
A crise começou na madrugada de terça-feira (3), quando o Banco Central do Paraguai (BCP) iniciou o procedimento de resolução do Ueno Bank após constatar que o índice de solvência da instituição havia caído para menos da metade do mínimo exigido por lei. Na prática, o banco foi fechado de um dia para o outro, e seus cerca de 2,9 milhões de clientes — num país de 6,5 milhões de habitantes, mais da metade da população adulta — acordaram sem conseguir movimentar o próprio dinheiro.
Nos dois dias seguintes, formaram-se longas filas em agências e caixas eletrônicos, e manifestantes foram às ruas de Assunção cobrar a devolução dos depósitos e a saída do presidente, segundo a CNN Español. O Ueno havia crescido rapidamente: nasceu como uma fintech de nicho e se transformou em um banco de médio porte que administrava cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo fundos do Instituto de Previsión Social (IPS), responsável pelas aposentadorias da maioria dos trabalhadores paraguaios, de acordo com a Reuters. Até a publicação desta matéria, o banco não havia se pronunciado publicamente sobre a intervenção, informou a agência.
Ainda segundo a CNN Español, entre os principais problemas apontados pelos reguladores estão empréstimos concedidos a empresas ligadas aos próprios donos do banco, em valores muito acima dos limites permitidos pelas normas. O principal acionista do Ueno é o conglomerado Grupo Vázquez, que controlava a instituição.
As acusações contra Peña
O escândalo atingiu Peña pessoalmente porque o presidente foi acionista do Grupo Vázquez, o controlador do Ueno, até março de 2025 — já durante o seu mandato. Parlamentares da oposição e dissidentes do partido governista acusaram o presidente de conflito de interesses, uso indevido de fundos de previdência e encobrimento institucional ligado ao colapso do banco, segundo a Reuters. A acusação formal, apresentada por 35 deputados, fala em “descumprimento grave e sistemático dos deveres” do cargo, de acordo com a CNN.
A pressão aumentou ainda na terça-feira, quando renunciou o presidente do Banco Central, Carlos Carvallo — que, antes de comandar a autoridade monetária, havia dirigido a Financiera Ueno, a empresa que deu origem ao banco, segundo a CNN Español. No mesmo dia, o Ministério Público paraguaio determinou a detenção de oito executivos do Ueno, informou a Reuters.
Na manhã desta quinta, o golpe decisivo veio do próprio campo governista: o ex-presidente Horacio Cartes, presidente do Partido Colorado e principal mentor político de Peña, anunciou que a legenda acompanharia o processo de impeachment “para voltar a reencauzar a institucionalidade da República”, segundo a CNN Español. Sem o apoio da própria bancada, a permanência de Peña no cargo ficou insustentável.
O que acontece agora
Mesmo depois da apresentação da renúncia, a Câmara dos Deputados votou por unanimidade, em sessão extraordinária, pela abertura do processo de impeachment contra Peña. Caberá ao Senado decidir se o julgamento político prossegue ou se a renúncia é aceita. Se ela for aceita, Peña conservará as prerrogativas de senador vitalício, condição prevista no Paraguai para ex-presidentes, de acordo com a CNN Español.
O vice-presidente Pedro Alliana deve assumir o comando do país e completar o mandato até 15 de agosto de 2028, segundo o jornal espanhol El País. Para os clientes do Ueno, porém, a troca no Palácio de Governo não resolve o problema imediato: o Banco Central afirmou que comunicará oficialmente os mecanismos e as orientações aplicáveis aos depositantes, segundo a agência EFE, e a recuperação integral dos valores segue incerta.
A crise respinga no futebol
O colapso do Ueno também atingiu o futebol sul-americano. A Conmebol, sediada em Luque, no Paraguai, mantinha cerca de US$ 14 milhões aplicados no banco — 85,47 bilhões de guaraníes em certificados de depósito —, segundo o jornal paraguaio Última Hora. A entidade garantiu que a disputa das finais da Copa Libertadores e da Copa Sul-Americana e o pagamento das premiações não estão em risco, informou o jornal argentino El Tribuno.
O banco era patrocinador da Copa Sul-Americana desde julho de 2024 e também da seleção paraguaia. Segundo a imprensa argentina, ao menos dez jogadores da seleção que atuam no exterior avaliam entrar na Justiça para recuperar suas economias, e a Associação Paraguaia de Futebol retirou o Ueno da lista de patrocinadores.
Quem é Santiago Peña
Economista, Santiago Peña assumiu a Presidência do Paraguai em agosto de 2023, com mandato de cinco anos, até 2028. Aliado do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump — cujo partido acompanha a apuração das eleições de meio de mandato no Congresso americano —, Peña vinha tentando posicionar o Paraguai como um polo financeiro regional, aproveitando o grau de investimento concedido ao país por duas das principais agências de classificação de risco, segundo a CNN Español. Antes do anúncio desta quinta, ele havia cancelado a participação na Cúpula Ibero-Americana de Madri, informou o Gizmodo Brasil.
A renúncia encerra de forma abrupta um governo que tinha na estabilidade econômica o seu principal cartão de visitas — e ocorre numa semana agitada na América Latina, que registrou também um terremoto de magnitude 5,6 na Colômbia. A expectativa agora se volta ao Senado paraguaio, que definirá os próximos passos da transição.
