Virada republicana no Texas impõe freio a novos data centers e aprofunda divisão partidária

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O governador Greg Abbott, que há menos de um ano exaltava o Texas como “epicentro da inteligência artificial”, passou a defender limites severos a novos data centers às vésperas de sua campanha de reeleição. A guinada reflete o clima eleitoral de 2026: pesquisas indicam desgaste popular com o custo de luz, água e incentivos fiscais que acompanham esses megaprojetos.

A mudança de tom não ocorre em isolamento. Candidatos republicanos de outros quatro estados também endureceram o discurso, abrindo fissuras internas num partido tradicionalmente pró-empresas e contradizendo o presidente Donald Trump, que segue apostando na expansão da IA como motor de competitividade global.

Efeito eleitoral e crise interna

O Texas é um dos maiores polos de data centers dedicados a aplicações de inteligência artificial nos EUA. Ao mesmo tempo, tornou-se palco de uma disputa que coloca, de um lado, a defesa do crescimento econômico, e, de outro, a pressão de eleitores preocupados com contas de energia e escassez hídrica em cidades de médio porte.

O estrategista republicano Brad Dayspring resume o impasse: promover a IA ajuda a enfrentar a concorrência chinesa, mas o custo político de ignorar o descontentamento local cresceu. Para conter danos, Abbott determinou, em 3 de agosto, uma auditoria estadual que congelou na prática novas conexões à rede elétrica para data centers. O governador ainda quer abolir benefícios fiscais e restringir projetos em áreas rurais.

Racha com Donald Trump

Trump reagiu na rede Truth Social: “Quem se opõe aos data centers ficará atrasado e pobre”. Dirigentes nacionais republicanos tentaram esfriar o conflito, argumentando que cada estado “fará o que for melhor para sua comunidade”. Nos bastidores, porém, a divergência alimenta temores de perda de coesão partidária numa eleição considerada decisiva para o controle do Congresso.

Do entusiasmo ao recuo

Empresas como SpaceX, Oracle e a própria OpenAI foram atraídas pela combinação de terrenos baratos, matriz elétrica diversificada e pacote de incentivos aprovado em 2013 — lei que contou com voto favorável do então senador estadual Ken Paxton, hoje procurador-geral e candidato republicano a uma vaga no Senado federal.

Paxton também recalibrou a retórica. Em agosto, apresentou um plano que promete “conciliar competitividade e impactos locais”, sugerindo limites ao consumo de recursos naturais pelos data centers. A inversão rendeu críticas do democrata James Talarico, que o acusa de “oportunismo” após anos de apoio irrestrito ao setor.

Democratas aproveitam a maré

Adversários como Gina Hinojosa, candidata ao governo pelo Partido Democrata, classificam o tema como “a principal batalha” da corrida texana. Ela lembra que a suspensão de aprovações expira em 4 de novembro, um dia depois da eleição, e vê manobra eleitoral. Democratas em outros estados, incluindo Michigan, Wisconsin e Pensilvânia, também passaram a explorar o desgaste republicano com anúncios que associam data centers a contas de luz mais altas.

Impacto econômico e ambiental

Críticos apontam três fatores para a queda de apoio popular:

  • Energia: centros de processamento exigem ligações de alto consumo, pressionando a capacidade da rede e encarecendo tarifas.
  • Água: sistemas de resfriamento retiram milhões de litros de reservatórios locais, item sensível em regiões suscetíveis a seca.
  • Baixa geração de empregos diretos: após a fase de obras, a operação é altamente automatizada, o que reduz retorno trabalhista e fiscal.

Uma pesquisa do Texas Politics Project divulgada em agosto revela que apenas 30% dos entrevistados aceitariam um data center em sua comunidade. A irritação cresce em cidades do interior, onde a iluminação intensa dessas instalações também afeta observatórios astronômicos e a paisagem noturna.

Freio em investimentos

O bloqueio temporário de novas ligações elétricas paralisou projetos avaliados em bilhões de dólares, inclusive a expansão do campus Stargate, da OpenAI, em Abilene. Construtoras relatam incerteza sobre cronogramas, enquanto fornecedores de painéis, cabos de fibra e transformadores negociam cláusulas de atraso com clientes.

Pressão popular e pesquisas

Especialistas em comportamento eleitoral notam correlação entre aumento da conta de luz e queda na aprovação de candidatos em disputas estaduais. Em condados onde tarifas subiram acima da média, os republicanos perderam até oito pontos percentuais de intenção de voto, segundo análises internas obtidas por consultorias do partido.

Para Abbott, manter o controle do discurso é vital. Seu comitê de campanha passou a veicular peças que o apresentam como “defensor do bolso do texano comum contra corporações bilionárias”, invertendo a lógica pró-negócio que marcou gestões anteriores. A estratégia, porém, gera desconfiança em parte da base empresarial que financiou vitórias passadas.

Contra-ataque das gigantes de tecnologia

Sentindo o risco de perder terreno legislativo, big techs intensificam investimentos políticos. Registros federais mostram que companhias de IA já desembolsaram mais de US$ 300 milhões nas eleições de meio de mandato. Somente grupos ligados ao cofundador da OpenAI, Greg Brockman, injetaram US$ 4,8 milhões em comitês texanos.

A Meta destinou cerca de US$ 1,4 milhão a organizações focadas em cargos estaduais, enquanto supercomitês relacionados à Anthropic aplicaram mais de US$ 2,6 milhões. A chuva de recursos financia anúncios que destacam potencial de empregos indiretos, modernização de redes elétricas e receitas fiscais de longo prazo.

Desafio de imagem

Consultores como Kevin Madden, ex-assessor do republicano Mitt Romney, admitem que o esforço chegou tarde: “Foram dois anos de oposição local sem resposta adequada”. Agora, a narrativa encontra resistência bipartidária rara no cenário norte-americano. O cientista político David Karol observa que republicanos, tradicionalmente alinhados ao interesse corporativo, sentem que “romper com as gigantes de tecnologia virou ativo eleitoral”.

Com o eleitorado dividido e a crise energética no centro do debate, o destino dos data centers no Texas permanecerá incerto até depois da votação de novembro. Enquanto isso, construtoras, investidores e comunidades aguardam sinais claros sobre qual das faces do Partido Republicano prevalecerá: a que abraça a inovação ou a que promete proteger recursos locais.

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Escobar Oliver é profissional do mercado digital desde 2021, com experiência em produção de conteúdo, SEO e gestão de portais de notícias. Como responsável pelo RSO Notícias, dedica-se a oferecer informações confiáveis, atualizadas e relevantes, sempre com compromisso editorial, transparência e qualidade na comunicação.