
Resumo da Notícia
- A Unesco inscreveu o Cais do Valongo (RJ), a Serra da Barriga (AL) e a Sociedade Protetora dos Desvalidos (BA) na sua rede mundial de lugares de memória da escravidão.
- Com as três inclusões, o Brasil passa a ter seis lugares na rede, criada em 2024 e que reúne quase 30 sítios em mais de dez países.
- A candidatura foi apresentada pelo Ministério das Relações Exteriores, e o reconhecimento chega às vésperas do mês da Consciência Negra.
Três dos lugares mais importantes da história da população negra no Brasil acabam de ganhar reconhecimento internacional. A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) inscreveu o Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, a Serra da Barriga, em Alagoas, e a Sociedade Protetora dos Desvalidos, em Salvador, na Rede de Lugares de História e Memória Relacionados à Escravidão e ao Tráfico de Pessoas Escravizadas. A inscrição foi feita no dia 23 de outubro e comunicada oficialmente pelo governo brasileiro dias depois, na Nota à Imprensa nº 328 do Ministério das Relações Exteriores, de 27 de outubro de 2026.
Em nota, o Itamaraty celebrou a decisão. “O governo brasileiro saúda a inclusão dos três lugares, que contribui para a preservação e a transmissão da memória da escravidão, o reconhecimento da resistência histórica da população negra e a educação das novas gerações”, apontou o Ministério das Relações Exteriores. A candidatura dos três sítios foi apresentada pelo próprio MRE, que no Brasil coordena as indicações nacionais à rede da Unesco.
O que é a rede criada pela Unesco
A rede foi criada em 2024, no âmbito do Programa Rotas dos Escravizados: Resistência, Liberdade e Patrimônio, da Unesco, e nasceu reunindo 22 lugares de dez países. Hoje, segundo a própria Unesco, já são quase 30 lugares em mais de dez Estados-membros, entre eles os fortes e castelos da costa de Gana, país de herança africana celebrada até hoje em expressões culturais singulares, como os caixões que viram esculturas que contam a vida de quem parte. A proposta é conectar lugares marcados pela escravidão e pelo tráfico de pessoas escravizadas, promovendo a preservação desses espaços, o intercâmbio de experiências, a cooperação internacional e o desenvolvimento de iniciativas de educação, pesquisa e valorização da memória, com a participação das comunidades locais.
Com os três novos integrantes, o Brasil dobra a sua presença na rede: passam a ser seis lugares brasileiros. Já faziam parte da iniciativa, desde a primeira lista, o Museu da Inconfidência, em Minas Gerais, e os museus Casa da Hera e da República, os dois no Rio de Janeiro.
Para a diretora e representante da Unesco no Brasil, Marlova Jovchelovitch Noleto, a inclusão dos três sítios “representa um importante reconhecimento internacional de seu valor histórico e de sua contribuição para a preservação da memória da escravidão e da resistência da população negra”. Segundo ela, mais do que reconhecer o passado, a iniciativa procura fazer com que essa memória seja transmitida às novas gerações e ajude a compreender os efeitos duradouros da escravidão, inclusive o racismo estrutural e as desigualdades que persistem nas sociedades contemporâneas. “É uma maneira de transformar lugares de memória em espaços vivos de conhecimento, diálogo intercultural e promoção dos direitos humanos”, completou.
Cais do Valongo: a porta de entrada forçada de milhões de africanos
Na Zona Portuária do Rio de Janeiro, o Cais do Valongo preserva os vestígios de um dos principais pontos de desembarque de africanas e africanos escravizados em todas as Américas. Pelas pedras daquele cais passaram, à força, gerações de pessoas arrancadas da África pelo tráfico transatlântico, num dos capítulos mais violentos da formação do Brasil. Redescoberto e transformado em sítio arqueológico aberto à visitação, o local já havia recebido o reconhecimento máximo da Unesco em 2017, quando entrou para a Lista do Patrimônio Mundial. Agora, a entrada na rede temática reforça o papel do Valongo como espaço de memória das vítimas do tráfico e de celebração da herança africana que moldou a cultura carioca e brasileira.
Protetora dos Desvalidos: organização negra desde 1832
Em Salvador, a Sociedade Protetora dos Desvalidos representa outra dimensão dessa história: a da organização coletiva. Fundada em 1832 por Manoel Victor Serra e outros homens negros livres, é considerada a primeira instituição civil negra do Brasil em funcionamento contínuo, referência histórica de organização e solidariedade da população negra desde o século XIX. Em pleno período escravista, a entidade oferecia apoio mútuo, proteção e assistência aos seus associados. Segundo a própria instituição, o seu perfil de resistência ecoou nas Revoltas dos Búzios, de 1798, e dos Malês, de 1835, unindo organização, solidariedade e luta pela liberdade.
Serra da Barriga: a memória de Palmares
A Serra da Barriga, em União dos Palmares, Alagoas, abriga o Parque Memorial Quilombo dos Palmares e guarda a memória do mais famoso quilombo do Brasil, símbolo maior da resistência à escravidão. Foi naquele alto de serra que comunidades de africanos e descendentes construíram, ao longo de décadas, uma sociedade livre em pleno território escravista, associada à memória de Zumbi dos Palmares. Desde 1988, a área faz parte das terras da União, e o parque recebe, todos os anos, celebrações do 20 de novembro, o Dia Nacional da Consciência Negra, data da morte de Zumbi.
Reconhecimento que dialoga com o presente
Para o doutor em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Ivanir dos Santos, ouvido pela Agência Brasil, os três lugares expressam dimensões diferentes da experiência negra no Brasil: a violência do tráfico transatlântico, simbolizada pelo Cais do Valongo; as estratégias de organização coletiva e solidariedade, representadas pela Protetora dos Desvalidos; e a resistência, encarnada na Serra da Barriga. Na avaliação do historiador, o reconhecimento é uma oportunidade de questionar as narrativas tradicionais sobre a formação da sociedade brasileira e de reconhecer o protagonismo da população negra na construção da história nacional. Ele pondera, porém, que a valorização não pode ficar no plano simbólico: precisa vir acompanhada de políticas efetivas de preservação, de educação antirracista e da participação das comunidades negras na gestão desses lugares.
O debate sobre memória ajuda a iluminar também o presente. Quase um século e meio depois da abolição, o Brasil ainda combate formas contemporâneas de exploração herdadas daquele passado, como mostra a lista suja do trabalho escravo, que reúne empregadores flagrados submetendo trabalhadores a condições análogas à escravidão. O reconhecimento da Unesco chega, ainda, em momento simbólico: às vésperas de novembro, o mês da Consciência Negra, quando a Serra da Barriga, o Cais do Valongo e espaços como a Protetora dos Desvalidos ganham ainda mais visibilidade como lugares de memória, educação e resistência.
