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Hemobrás anuncia imunoglobulina nacional e terapia gênica inédita

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Resumo da Notícia

  • Ministério da Saúde e Hemobrás anunciaram pacote de inovação com acordo com a chinesa Tiantan Bio para produzir imunoglobulina no Brasil, com transferência de tecnologia
  • R$ 50 milhões do Novo PAC vão para um laboratório de pesquisa em Goiana (PE); hemocentros de todo o país passam a receber incentivo mensal de R$ 38 milhões
  • Parceria com UFMG e Embrapii vai desenvolver a primeira terapia gênica 100% nacional para hemofilias A e B; Brasil tem 35,8 mil pessoas com coagulopatias hereditárias

O Brasil deu um passo decisivo rumo à soberania na produção de medicamentos para doenças do sangue. O Ministério da Saúde e a Hemobrás anunciaram na sexta-feira (2), em São Paulo, um pacote de inovação que inclui acordo com a chinesa Tiantan Bio para a produção nacional de imunoglobulina — com transferência de tecnologia —, R$ 50 milhões do Novo PAC para um laboratório de pesquisa em Pernambuco e o desenvolvimento da primeira terapia gênica 100% brasileira para hemofilias A e B.

O anúncio foi feito durante o evento “Hemobrás: mais Tecnologia e Saúde para o Brasil”, no campus São Paulo da Unifesp, com a presença do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e da presidente da Hemobrás, Ana Paula do Rego Menezes.

Imunoglobulina feita no Brasil

O carro-chefe do pacote é o memorando de entendimento com a Tiantan Bio, uma das maiores empresas chinesas de hemoderivados, para a imunoglobulina humana intravenosa a 10% — medicamento fabricado a partir do plasma humano, usado no tratamento de imunodeficiências, infecções bacterianas e alguns cânceres do sangue.

O acordo prevê cooperação para o registro do produto no Brasil, fornecimento à Hemobrás, licenciamento e transferência de tecnologia para viabilizar a produção nacional — além de apoio da chinesa na modernização dos sistemas da estatal, com transformação digital e automação. Os detalhes de fornecimento e transferência serão definidos em acordos específicos, sempre seguindo as exigências da Anvisa, segundo o Ministério da Saúde.

De acordo com o LabNetwork, a Tiantan fará a transferência de tecnologia e o fornecimento complementar de parte da demanda, garantindo o abastecimento integral da rede pública enquanto a produção nacional não atinge escala total.

Hoje o Brasil ainda depende de importação para parte desses medicamentos. A meta, já anunciada à OPAS em 2025, é ousada: até 2027, a Hemobrás deve alcançar produção 100% nacional de ao menos seis hemoderivados — albumina, imunoglobulina, fator VIII, fator IX, complexo protrombínico e fator de Von Willebrand — beneficiando mais de 30 mil pessoas com coagulopatias.

R$ 50 milhões para pesquisa em Pernambuco

Outro anúncio de peso foi a criação do Laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento Industrial (PDI) na fábrica da Hemobrás em Goiana, na Zona da Mata Norte de Pernambuco. Serão R$ 50 milhões do Novo PAC para uma estrutura de alta complexidade dedicada a pesquisa aplicada, desenvolvimento de processos, biofármacos e hemoderivados estratégicos — com capacidade para produzir lotes experimentais destinados a estudos pré-clínicos.

As obras estão previstas para 2026 e 2027, com a primeira fase durando cerca de 18 meses, segundo o n3news. E o investimento em pesquisa se soma ao que já está em curso: a Hemobrás já aplica outros R$ 150 milhões do Novo PAC na compra de 104 equipamentos para a linha de produção de imunoglobulina — 47 já foram entregues e 20 estão em construção.

A cadeia do plasma também recebeu reforço: desde 2025, R$ 116 milhões foram investidos em 604 equipamentos de cadeia fria para 125 serviços de hemoterapia nos 27 estados, com entregas concluídas entre outubro de 2025 e setembro de 2026. A expectativa é de um aumento de 30% na capacidade de armazenamento de plasma para uso industrial — matéria-prima da imunoglobulina, da albumina e dos fatores de coagulação.

Hemocentros ganham incentivo mensal inédito

Padilha assinou ainda no evento a portaria que cria o primeiro incentivo federal mensal aos hemocentros de todas as unidades da federação: R$ 38 milhões por mês, vinculados a critérios como qualidade da gestão, eficiência, envio de plasma à Hemobrás, cobertura, doação voluntária e redução de desperdício. Não se trata de repasse por procedimento, mas de um estímulo à boa gestão da rede.

A hemorrede brasileira reúne 2.097 serviços de hemoterapia, dos quais 1.722 na rede pública, segundo o Ministério da Saúde.

Terapia gênica 100% nacional

Talvez o anúncio mais simbólico do pacote seja o acordo entre Hemobrás, FarmaVax (unidade Embrapii da UFMG), Embrapii e Fundep para pesquisar e desenvolver uma terapia gênica para hemofilias A e B usando sistemas avançados de entrega por nanopartículas.

O investimento é de R$ 5 milhões, com vigência de 12 meses: R$ 2,6 milhões da Hemobrás, R$ 1,6 milhão da Embrapii e R$ 694 mil da UFMG/FarmaVax. O objetivo é desenvolver um candidato a produto para avaliação pré-clínica — ou seja, ainda é pesquisa, não um tratamento disponível. A titularidade das tecnologias será conjunta, com direito de preferência da Hemobrás para o licenciamento exclusivo.

O Brasil tem 35.852 pessoas com coagulopatias hereditárias, segundo dados oficiais do Ministério da Saúde de julho de 2026: 12.151 com hemofilia A (5.577 em forma grave), 2.425 com hemofilia B (858 graves) e 12.863 com doença de von Willebrand. O país é o terceiro do mundo em número de casos.

Na mesma linha de inovação para hemofilia, foi assinado um protocolo de intenções com a Roche para uma Parceria para o Desenvolvimento Produtivo (PDP) do emicizumabe — medicamento inovador para profilaxia da hemofilia A, já registrado na Anvisa. A parceria está condicionada às exigências regulatórias e à anuência da Chugai, detentora da tecnologia, e prevê absorção tecnológica com produção nacional.

“Nenhum país é soberano sem produzir seus insumos”

“Nenhum país pode se declarar verdadeiramente soberano sem ter a capacidade de produzir e garantir insumos essenciais para a sua própria população… a Hemobrás é uma resposta fundamental de cooperação e autonomia tecnológica”, afirmou o ministro Alexandre Padilha, segundo o LabNetwork. “O SUS é mais forte quando a gente tem uma rede mais consolidada… e quando a gente consegue ter parcerias internacionais e nacionais tão potentes”, completou, de acordo com o Ministério da Saúde.

A presidente da Hemobrás, Ana Paula do Rego Menezes, destacou o perfil dos parceiros: “Estamos lidando com profissionais, times e empresas de grande seriedade e relevantes para o nosso País”, disse ao n3news.

Criada em 2004 e sediada em Goiana (PE), a Hemobrás tem como missão garantir a soberania nacional no fornecimento de medicamentos estratégicos ao SUS — e o pacote anunciado na sexta-feira é o maior movimento da estatal nessa direção em anos. Se os cronogramas se confirmarem, o Brasil pode, até 2027, deixar de depender do mercado internacional para os principais hemoderivados — uma mudança com impacto direto na vida de dezenas de milhares de pacientes.

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Escobar Oliver é o responsável pelo conteúdo do RSO Notícias, portal de notícias do Brasil e do mundo.