
Depois de três meses de alívio, o carrinho do supermercado voltou a ficar mais pesado. A inflação oficial do país avançou 0,82% em setembro, e a alimentação consumida dentro de casa registrou alta de 0,96%, com vilões bem conhecidos da feira: o tomate disparou 37,76% em um único mês, a batata-inglesa ficou 24,07% mais cara e a cebola subiu 10,14%. Para as famílias, o resultado aparece na ponta mais sensível do orçamento — a compra da semana.
Inflação acelera após a deflação de agosto
O resultado de setembro marca uma virada em relação ao mês anterior, quando o índice havia registrado queda de 0,32%. A alta de 0,82% foi a maior desde março, quando a inflação tinha avançado 0,88%. Com o novo dado, o acumulado de 2026 chega a 3,95%, e a inflação dos últimos 12 meses está em 4,58%.
Não foi só a comida que pressionou. O grupo Habitação teve a maior variação do mês, com alta de 2,31%, puxado pela energia elétrica residencial, que subiu 7,98% e respondeu, sozinha, por 0,32 ponto percentual do índice — o maior impacto individual de setembro. A explicação está no fim do desconto do Bônus de Itaipu, que havia reduzido as contas emitidas em agosto: sem o benefício, a tarifa voltou ao valor cheio. Também pesaram a manutenção da bandeira tarifária amarela, que acrescenta R$ 1,885 a cada 100 kWh consumidos, e reajustes de energia em capitais como Belém, São Luís e Vitória. Sem o efeito da conta de luz, a inflação do mês teria sido de aproximadamente 0,52%.
O tomate e a horta mais cara
No grupo Alimentação e bebidas, a alta foi de 0,83% em setembro, interrompendo uma sequência de três meses de queda. Dentro de casa, além do trio tomate, batata e cebola, o arroz subiu 4,56% e as carnes avançaram 0,63%. São justamente os itens que estruturam a refeição brasileira — o prato feito, o molho, o acompanhamento —, o que torna a alta mais perceptível no dia a dia do que variações em produtos de compra eventual.
O comportamento do tomate tem explicação no campo. O frio nas áreas de plantação e as chuvas fora de época, em um período que costuma ser mais seco, prejudicaram a maturação dos frutos: os pés ficaram carregados, mas o tomate demorou a amadurecer, e a oferta ao consumidor encolheu. Em Minas Gerais, terceiro maior produtor do país, a produção caiu 4% em agosto. Hortaliças são culturas extremamente sensíveis ao clima, e qualquer quebra de oferta se traduz rapidamente em preço na gôndola. Uma estratégia que aparece nesses períodos é a oferta de tomates ainda verdes, que amadurecem na casa do consumidor e costumam custar menos.
Nem tudo subiu: frango vira alternativa
Em sentido contrário, algumas proteínas ficaram mais baratas e viraram válvula de escape para o orçamento. O frango inteiro recuou 1,96% e o frango em pedaços caiu 1,41% em setembro, reforçando o papel da ave como substituta da carne bovina quando o bolso aperta. As frutas também tiveram queda média de 1,12%.
Comer fora de casa, por outro lado, encareceu um pouco mais: a alimentação fora do domicílio passou de 0,36% em agosto para 0,48% em setembro, com a refeição subindo 0,49% e os lanches, 0,47%.
Transporte também pressiona
O grupo Transportes avançou 0,89% no mês. Os combustíveis tiveram alta média de 1,41%, com etanol subindo 3,16%, óleo diesel 1,69% e gasolina 1,21%; o gás veicular avançou 0,10%. As passagens aéreas registraram aumento expressivo de 9,66%, movimento típico de períodos de maior demanda.
Como o consumidor pode se defender
Enquanto os preços não cedem, algumas estratégias ajudam a atravessar o período de hortaliças caras. A primeira é a substituição inteligente: com frango em queda e tomate e batata em disparada, vale montar o cardápio da semana em torno dos itens em baixa e reduzir temporariamente os que lideram as altas. Outra saída é observar a maturação: tomates ainda verdes, vendidos mais baratos em feiras e mercados, amadurecem em casa em poucos dias e cumprem a mesma função no molho e na salada.
No varejo, a orientação dos especialistas é rigor no controle de perdas e ajuste consciente de margens, para reduzir o repasse ao consumidor final. E há um alívio possível no horizonte próximo: a expectativa é de queda nos preços da batata e da cenoura no mês que vem, caso a oferta se normalize — ainda que o clima siga como o grande fator de incerteza para as hortaliças.
O que isso significa para o bolso
A leitura prática do IPCA de setembro é que a pressão voltou a se concentrar em itens de compra frequente — energia, hortaliças, combustíveis —, aqueles que o consumidor percebe toda semana. É esse tipo de inflação que corrói a sensação de poder de compra mesmo quando outros preços estão estáveis, e que conversa diretamente com temas que o portal acompanha de perto, como o debate sobre o custo de vida e a jornada de trabalho nos municípios e o alívio que representa para as famílias de baixa renda o pagamento do Bolsa Família de outubro com piso reajustado para R$ 691.
Para os próximos meses, a atenção se volta ao clima: o aumento das chuvas e a consolidação do El Niño a partir de novembro podem antecipar novas perdas nas lavouras de hortaliças, mantendo a pressão sobre itens como tomate e batata. No sentido oposto, há expectativa de recuo para produtos como a batata e a cenoura caso a oferta se normalize. A inflação de setembro não define uma tendência sozinha, mas acende o sinal amarelo: depois de um trimestre de respiro, encher a despensa voltou a custar mais caro.
