
O tarifaço imposto pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros deixou um rastro de prejuízo direto nas economias locais: 1.135 municípios registraram impacto negativo e somam perdas de R$ 66,8 bilhões nas exportações. Em 271 cidades, as vendas para o mercado norte-americano simplesmente zeraram. Os dados cobrem os 12 meses entre agosto de 2025 e julho de 2026, o primeiro ano das sobretaxas americanas, e mostram que a participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras caiu de 12,3% para 9,4%, o menor patamar desde 2021.
Um prejuízo espalhado pelo mapa
A retração não ficou concentrada em poucos polos exportadores. Ao todo, 1.643 municípios brasileiros venderam algum produto aos Estados Unidos em pelo menos uma das duas janelas de 12 meses comparadas — e mais de dois terços deles saíram perdendo. As exportações brasileiras para o mercado norte-americano recuaram US$ 6,7 bilhões no período, de US$ 41,5 bilhões para US$ 34,8 bilhões, uma queda de 16,2%. Em volume, os embarques caíram de 40,9 milhões de toneladas para 33,6 milhões de toneladas, retração de 17,9%.
A soma das perdas municipais, de R$ 66,8 bilhões, é maior do que a retração líquida do país porque uma parte dos municípios conseguiu ampliar as vendas e compensar parcialmente o resultado agregado. Mas é no recorte local que o tamanho do estrago aparece com clareza: menos dólares entrando significa menos produção, menos encomendas para fornecedores da região e menos impostos circulando na economia de cada cidade exportadora.
271 cidades pararam de vender aos EUA
Do total de municípios afetados, 271 zeraram completamente as vendas para os Estados Unidos. Antes do anúncio das sobretaxas, essas cidades movimentavam R$ 588 milhões em receitas com o mercado norte-americano. De um ano para o outro, essa fonte de renda simplesmente desapareceu.
Outros 864 municípios registraram queda média de 30% no valor exportado. Para cidades pequenas, nas quais uma única indústria, cooperativa ou fazenda responde pela maior parte dos embarques, uma redução dessa ordem se traduz em pedidos cancelados, turnos de trabalho reduzidos e uma cadeia inteira de serviços locais sem demanda. É nesses municípios que o efeito do tarifaço deixa de ser um número de balança comercial e vira problema de emprego e arrecadação.
Café e petróleo puxam as perdas
As maiores retrações se concentraram nas cadeias do petróleo, do café, do suco de laranja, do ferro-gusa e da silvicultura. Juntos, os cinco produtos com sobretaxa mais afetados acumulam redução de cerca de US$ 1 bilhão em receitas no período analisado.
No café e no petróleo, a queda de faturamento veio acompanhada de um tombo no volume embarcado: as quantidades exportadas recuaram 43% no caso do café e 28% no do petróleo. O suco de laranja seguiu o caminho inverso — e nem por isso escapou do prejuízo: o volume exportado cresceu 13,6%, mas o preço médio do produto despencou 33,7%, corroendo a receita dos exportadores. Já o ferro-gusa e os produtos da silvicultura perderam nas duas frentes ao mesmo tempo: venderam menos quantidade e por preços médios menores.
Minas Gerais lidera as perdas entre os estados
No recorte por estado, Minas Gerais foi o mais atingido, com redução de US$ 1,8 bilhão nas vendas para os Estados Unidos, puxada pela retração do café e do ferro-gusa, dois pilares da pauta exportadora mineira. Na sequência aparecem São Paulo, com queda de US$ 1,7 bilhão, e o Rio de Janeiro, com US$ 1,4 bilhão a menos.
O café de Minas chegou a enfrentar sobretaxa de 50% entre agosto e novembro de 2025, período em que o produto esteve no centro das cobranças adicionais americanas, o que pressionou os embarques para um dos principais mercados consumidores do mundo. O ferro-gusa, insumo básico para a produção de ferro e aço, também viu as vendas encolherem sob as novas condições comerciais impostas pelos Estados Unidos, mesmo para produtos que não estavam no centro das sobretaxas.
A maioria não conseguiu compensar com outros mercados
Para 657 municípios — 58% do total de afetados —, a conta não fechou: as vendas para outros países não foram suficientes para substituir o mercado norte-americano. A dificuldade é mais severa nos municípios de pequeno porte, que têm menos estrutura comercial para prospectar novos compradores, adaptar produtos a outras exigências e negociar logística de exportação.
Nem todos perderam, porém. Na outra ponta do levantamento, 366 municípios ampliaram as vendas para os Estados Unidos, com incremento conjunto de aproximadamente US$ 3 bilhões, e 144 cidades que não exportavam para os americanos passaram a embarcar, somando US$ 35 milhões em novos negócios. O contraste mostra que o tarifaço redesenhou o mapa do comércio exterior municipal brasileiro, com ganhadores pontuais e perdas disseminadas por todas as regiões.
Efeito chega à arrecadação e ao emprego
Exportação menor significa menos produção, menos horas trabalhadas e menos recursos girando nas cidades. É um impacto que se soma a outros custos que já pressionam as contas das prefeituras — como mostrou a estimativa de que o fim da escala 6×1 pode gerar custo de R$ 5,14 bilhões para os municípios, outro tema que mexe diretamente com a capacidade de investimento local.
A saída apontada para reduzir a dependência é a diversificação de destinos. Em outro movimento de abertura de mercados, as exportações para a União Europeia subiram 30,7% e somaram US$ 44,17 bilhões no ano, mostrando que há demanda para produtos brasileiros fora do eixo tradicional. Ainda assim, mercados novos levam tempo para amadurecer — e o desempenho das vendas externas será uma das variáveis decisivas no cenário em que o Brasil deve voltar a ser a 8ª maior economia do mundo em 2027. Para os 1.135 municípios que perderam receita, a recuperação passa por reconstruir, cliente a cliente, o espaço que o tarifaço tomou.
