Da devoção cega ao arrependimento profundo, ex-simpatizantes de Donald Trump lotam reuniões virtuais de um grupo de apoio fundado para ajudá-los a romper com o movimento “Make America Great Again” (MAGA). A iniciativa, batizada de Leaving MAGA, funciona nos moldes de programas para dependentes químicos: ali, cada participante relata como se envolveu em teorias conspiratórias, militou em campanhas do ex-presidente e, por fim, decidiu abandonar a retórica radical que marcou a política norte-americana na última década.
Criada em 2024 pelo escritor e ex-militante conservador Rich Logis, a organização já espalhou letreiros em vinte estados dos EUA com a mensagem “Tem dúvidas? Você não está sozinho”, convidando os arrependidos a procurar ajuda. O objetivo é fornecer uma rede de acolhimento a quem perdeu amigos, familiares e estabilidade emocional depois de anos defendendo Trump com fervor quase religioso.
De ativista apaixonado a crítico ferrenho
Rich Logis descreve o próprio processo de ruptura como “uma batalha interna exaustiva”. Em 2015, ele viu no empresário republicano o elemento disruptivo capaz de destruir a ordem política tradicional. Tornou-se comentarista frequente em veículos conservadores, participou diretamente das campanhas de 2016 e 2020 e chegou a publicar artigos exaltando o estilo beligerante do então presidente.
O encanto começou a ruir durante a pandemia de Covid-19, quando Logis se diz “chocado” com a condução de Trump diante da crise sanitária. A invasão ao Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, selou o desencanto. “Quando finalmente saí, troquei o caos pela estabilidade”, recorda ele, que oficializou o desligamento em 30 de agosto de 2022. A experiência virou livro – “One betrayal too many: why I left MAGA” – e serviu de base para estruturar o Leaving MAGA.
Relatos que escancaram o custo social do fanatismo
Identidade diluída em memes e teorias
A designer Jennie Gage, do Arizona, lembra que o rosto de Trump ocupava até a foto de perfil em suas redes sociais. “O MAGA se tornou minha identidade completa”, afirma. Criada em ambiente religioso conservador, ela acreditava que o ex-presidente havia sido “chamado por Deus” para liderar o país. Ao perceber que o movimento atraía grupos supremacistas e pregadores de ódio, começou a questionar a própria fé e, mais tarde, abandonou o cristianismo.
Vergonha ao encarar a realidade
Para Belle Sarnes, criada em comunidade mórmon de Utah, o ponto de virada veio quando Trump foi citado nos arquivos do criminoso sexual Jeffrey Epstein e defendeu deportações em massa durante o segundo mandato. “Sinto vergonha de ter acreditado que imigrantes estavam dominando o país. Eles só visam pessoas de pele morena; é um Holocausto moderno”, desabafa.
Como funciona a “desintoxicação” política
Segundo Logis, romper com o MAGA não se resume a mudar o voto; exige reconstruir laços sociais. Por isso, o Leaving MAGA mantém o Solutions and Serenity, espaço virtual onde parentes aprendem a lidar com quem ainda está imerso em discursos conspiratórios. As reuniões seguem um roteiro que mistura escuta ativa, checagem de fatos e estratégias para reduzir o consumo de conteúdo tóxico em redes sociais.
Quem adere ao programa passa por três fases:
- Reconhecimento – assumir publicamente o erro de ter propagado desinformação.
- Reparação – restabelecer diálogo com amigos e familiares afastados.
- Reengajamento cívico – participar de debates políticos sem recorrer ao extremismo.
Billboards: um chamado às margens das rodovias
Os outdoors espalhados pelo país surgem em estradas da Flórida a Washington com uma arte simples: fundo branco, letras vermelhas e um QR code que leva ao site da ONG. A campanha mira principalmente eleitores que, embora ainda filiados ao Partido Republicano, já manifestam desconforto com a violência verbal e física associada ao MAGA.
Números internos compartilhados pela entidade indicam que, desde o lançamento dos painéis, o tráfego na página quintuplicou e as inscrições em reuniões semanais saltaram de 50 para quase 300 participantes.
Por que é tão difícil abandonar o MAGA?
Ecossistema de mídia fechado
Especialistas ouvidos pela organização apontam que parte do engajamento se sustenta em influenciadores como Ben Shapiro, Tucker Carlson e o falecido radialista Rush Limbaugh, responsáveis por alimentar diariamente a sensação de cerco – a ideia de que “o sistema” conspira contra Trump e seus seguidores.
Identidade e pertencimento
O cientista político Alan Montoya, voluntário no Leaving MAGA, explica que muitos aderem ao movimento em busca de uma comunidade. “Sair significa perder amigos, redes de negócios e até a própria família”, observa. Esse vácuo social é o que o grupo de apoio tenta preencher.
A porta de saída
Para Logis, o rompimento costuma começar com pequenas fissuras: dúvidas sobre declarações do ex-presidente, frustrações econômicas ou choques morais diante de episódios violentos. “Quando a pessoa percebe que não está sozinha, o muro cai”, diz.
Próximos passos
Em expansão, o Leaving MAGA pretende abrir pontos de encontro presenciais em cinco estados até o fim de 2027. A entidade também negocia parcerias com faculdades comunitárias para oferecer bolsas de estudo a quem perdeu emprego ou abandonou a formação acadêmica durante o período de militância radical.
Enquanto o cenário político aquece para as eleições de 2028, Logis afirma que não se trata de convencer ex-trumpistas a virar democratas, mas de “recolocá-los na realidade factual”. “Se no fim eles votarem em um republicano moderado, tudo bem. O que importa é que voltem a debater com base em fatos, não em fantasias”, conclui.