Em 1966, o Guinness World Records confirmou o que o mercado já intuía: o americano J. Paul Getty era o homem mais rico do planeta. Dono de um império petrolífero construído em cinco continentes, ele administrava bilhões de dólares sem sair do campo inglês, trancado em Sutton Place, uma mansão do século 16 que transformou num bunker high-tech cercado por cães de ataque, cercas eletrificadas e até um leão doméstico chamado Nero.
A riqueza monumental contrastava com hábitos de pão-duro. Getty instalou orelhões para que convidados arcassem com suas próprias ligações, esperava promoções na porta de exposições caninas e jantava tarde apenas para escapar da taxa de orquestra. Era capaz de gastar o equivalente a US$ 400 mil numa festa para dois mil aristocratas e, ao mesmo tempo, recusar o pagamento imediato do resgate de um neto sequestrado. O enigma entre ostentação, avareza e medo moldou a figura que morreu em 1976, aos 83 anos, ainda tentando explicar a si mesmo o preço de ser bilionário.
Ascensão meteórica do império Getty
Jean Paul Getty nasceu em 1892, em Minneapolis, mas foi em Oklahoma que a sorte da família mudou. Em 1903, seu pai, George Franklin Getty, investiu US$ 5 mil — algo como US$ 190 mil hoje — em 1.100 acres de território indígena. O poço jorrou petróleo, inaugurando um negócio que, três décadas depois, valeria US$ 10 milhões (cerca de US$ 200 milhões atuais).
Primeiro milhão aos 24 anos
O herdeiro apressou-se a ampliar as reservas. Aos 24 anos, tornou-se milionário quando descobriu petróleo em um campo próprio, também em Oklahoma. Seu lema era simples: “Acorde cedo, trabalhe duro e encontre petróleo”. Combinava agressividade comercial a apostas arriscadas em concessões remotas, da Arábia ao México. Quando morreu, seu patrimônio era estimado em US$ 4 bilhões — valor que, corrigido, beira US$ 23,5 bilhões.
O legado paterno
Embora agradecesse o pai pelo ponto de partida, Getty não herdou a soma integral. O patriarca, metodista rígido, deixou “apenas” US$ 500 mil (hoje, US$ 10 milhões) ao filho único, descontente com o divórcio recente do rapaz. Getty atribuía a disciplina financeira — e parte da avareza — a esse aperto inicial.
Entre o luxo e a avareza
A contradição ficou escancarada em julho de 1960. Na festa de Sutton Place, fotógrafos registraram alta sociedade britânica se acotovelando no salão principal até que um profissional insistente demais acabou arremessado na piscina. O evento consumiu o equivalente a US$ 400 mil, mas quem precisasse telefonar encontraria só um orelhão a fichas.
Reportagens da época colecionam histórias de economia miúda. Getty contava, sem constrangimento, que aguardava o fechamento das bilheterias de competições caninas para obter descontos e que preferia iniciar o jantar apenas quando a banda do restaurante se recolhia, eliminando o couvert artístico.
Sutton Place, uma fortaleza Tudor
Comprada em 1959, a casa em estilo Tudor — que já fora residência de verão de Henrique VIII — possuía 72 cômodos, duas piscinas, quadras de tênis e 700 acres de parques. Getty interligou todos os cômodos, inclusive 14 banheiros, a um sistema de alarmes e instalou barras nas janelas. Placas de “Proibida a entrada” cercavam as estradas internas que levavam às 30 casas de empregados, ao riacho de trutas e ao canil.
Medo constante
A jornalistas, o bilionário dizia apenas temer “malucos com dinamite”. Netos relatam algo mais palpável: cercas eletrificadas com arame farpado, guarda-costas armados e o leão Nero vigiando os jardins. Getty, que também evitava aviões e transatlânticos, preferia administrar contratos globais por telefone, telex e telegramas, sem sair do refúgio.
Família e tragédia
Cinco casamentos curtos renderam cinco filhos e 19 netos. Em 1973, o nome Getty ocupou as manchetes pelo sequestro de John Paul Getty III, então com 16 anos, em Roma. Os criminosos exigiram US$ 16 milhões (US$ 120 milhões atuais). O avô recusou: “Tenho outros 14 netos; se pagar agora, todos serão sequestrados”. Cinco meses depois, com a orelha de John enviada a um jornal italiano, a família desembolsou US$ 2,8 milhões (cerca de US$ 21 milhões), valor cuja origem exata permanece nebulosa.
O episódio reforçou a fama de avarento, ainda que amigos apontassem outro traço dominante: o medo. Para muitos analistas, a intransigência do magnata refletia a convicção de que ceder significaria abrir as portas do castelo a perigos ainda maiores.
Arte como cartão de visitas
Se dinheiro não saía fácil do bolso, obras de arte passavam sem resistência alguma. Em Sutton Place, pendiam pinturas de Veronese, Gainsborough, Renoir, Rembrandt e Rubens. Já em Malibu, onde mantinha mais de 600 peças, Getty abriu ao público, em 1954, o Museu J. Paul Getty, embrião do atual Getty Center de Los Angeles. O colecionador defendia que “um grande quadro vale mais do que um poço de petróleo”.
Riqueza e solidão
Getty dava entrevistas raramente. À BBC, em 1963, confessou: “Nunca me senti cheio de dinheiro. Se vendesse tudo, talvez então percebesse o quanto tenho”. Atribuía parte da infelicidade ao “peso das responsabilidades financeiras” e lembrava que os melhores momentos da vida não lhe custaram nada: “Estar numa prancha, esperando a onda perfeita. O sol e o mar são de graça”.
Até morrer de insuficiência cardíaca, em 1976, o bilionário manteve a rotina solitária, acompanhado apenas pelo pastor-alemão que lhe fazia companhia à mesa de quase cinco metros de comprimento. Do interior dessa fortaleza, comandou acordos que definiram o preço do petróleo no pós-guerra, mesmo sem voar, navegar ou, segundo ele próprio, gastar um centavo além do estritamente necessário.