Apontado durante anos como uma das vozes mais estridentes a favor das deportações em massa nos Estados Unidos, o influenciador britânico de extrema direita Milo Yiannopoulos, 41, sentiu na própria pele a ação dos agentes que exaltava. Detido no Aeroporto Internacional Louis Armstrong, em Nova Orleans, ele foi algemado, colocado em correntes nos pés e removido do país, numa operação que classificou como “brutal” e “humilhante”.
De volta ao Reino Unido desde a semana passada, Yiannopoulos relatou em entrevista ao apresentador Piers Morgan que sentiu “muito, muito medo” enquanto era transferido de um centro de detenção a outro sem explicações. O Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) sustenta que o britânico permaneceu nos EUA além do prazo autorizado, versão que ele contesta ao alegar ter iniciado, em 2017, o processo de obtenção de green card por meio de casamento com um cidadão norte-americano.
Prisão em Nova Orleans
A captura ocorreu na quinta-feira, 27 de julho, quando agentes federais abordaram o influenciador ainda na área de embarque do aeroporto. Fotografado pelas autoridades com o uniforme laranja típico de detentos, Yiannopoulos permaneceu sob custódia federal até ser colocado em um voo de deportação na semana seguinte.
Nos anos em que viveu nos EUA, ele foi um entusiasta declarado do ICE. Chegou a defender a criação de postos de verificação em supermercados para expulsão sumária de pessoas que não conseguissem comprovar status migratório regular e sugeriu imunidade jurídica total para agentes envolvidos em operações letais. A ironia de ter se tornado alvo da mesma força que exaltava virou tema recorrente nas redes sociais desde a divulgação da foto de sua prisão.
Acusações de violência e relato de trauma
Em sua versão, o procedimento padrão do ICE extrapola limites de humanidade. “Eles algemam mãos e pés e conectam tudo com correntes, como se toda pessoa presa fosse integrante de uma gangue”, descreveu. Segundo Yiannopoulos, a dor física se intensifica quando o detento precisa se movimentar em filas ou subir degraus. Ele disse ainda que a falta de informações sobre horário de transporte, destino ou duração da custódia torna a experiência “desorientadora”.
Ao desembarcar em Londres, afirmou ter chorado por uma hora ao perceber o impacto psicológico da detenção. Para ele, houve “institucionalização da brutalidade” no sistema migratório norte-americano. Antigo defensor de Donald Trump, o britânico atacou o próprio governo republicano, dizendo-se surpreso com “setores do Estado dispostos a se alinhar a uma mentira”.
Divergência sobre status migratório
O Departamento de Segurança Interna (DHS), ao qual o ICE é subordinado, informou que Milo Yiannopoulos ingressou legalmente nos EUA em maio de 2019, mas “optou por permanecer além do período permitido”. O influenciador rebateu: “Sou casado com um americano. Não faz sentido eu ficar em situação irregular”. Ele sustenta ter protocolado o pedido de residência permanente em 2017, direito garantido a cônjuges de cidadãos norte-americanos, e sugere falha ou má-fé burocrática na análise do processo.
Especialistas em imigração ouvidos por veículos locais observam que o casamento não garante permanência imediata; até a emissão do green card, o solicitante precisa renovar vistos temporários e manter documentação em dia. Caso algum prazo vença sem prorrogação formal, o estrangeiro pode ser considerado “overstay”, categoria em que se enquadraria a acusação oficial.
Histórico de polêmicas
Figura do ecossistema ultraconservador desde meados da década passada, Yiannopoulos ganhou projeção como editor do site Breitbart, onde impulsionou teorias da conspiração — entre elas a falsa alegação de que o massacre de Sandy Hook, em 2012, teria sido uma farsa. A postura provocadora levou gigantes de tecnologia a banirem seu perfil em diversas plataformas.
Entre 2022 e 2024, ele se envolveu em duas campanhas políticas inusitadas: atuou como assessor da deputada republicana Marjorie Taylor Greene e, em seguida, integrou a equipe do rapper Kanye West, que ensaiou candidatura presidencial marcada por propostas confusas. A parceria terminou em meio a brigas públicas e acusações mútuas.
Defesa das políticas mais duras de Trump
Durante o mandato de Donald Trump (2017-2021), o influenciador tornou-se um dos rostos internacionais das políticas migratórias linha-dura. Ele comparecia a manifestações, elogiava publicamente o aumento de batidas do ICE e pedia ampliação de centros de detenção. A retórica incluía críticas a qualquer forma de anistia ou regularização coletiva de imigrantes sem status.
Próximos passos e incertezas
Até o momento, não há confirmação de que Yiannopoulos tenha contratado advogados especializados para contestar a deportação nem se pretende apelar administrativamente contra o DHS. Fontes próximas ao influenciador, ouvidas por veículos independentes, afirmam que ele estuda processar o governo norte-americano por danos morais, hipótese que exigiria comprovar tratamento abusivo além dos protocolos vigentes no sistema migratório.
Embora a legislação dos EUA permita a reentrada de deportados em casos de reversão judicial ou concessão de visto humanitário, o caminho costuma ser longo. Caso permaneça no Reino Unido, Yiannopoulos pode seguir influente entre núcleos de extrema direita on-line, mas deverá adequar seu discurso às restrições migratórias que um dia defendeu com fervor — agora, segundo suas próprias palavras, “com o peso de quem sabe o que é sentir medo de verdade”.