Violência doméstica, saúde e políticas de cuidado aparecem com destaque em grande parte dos 12 programas de governo registrados para a corrida presidencial de 2026. A conclusão é do Instituto Update, que examinou ponto a ponto as menções expressas a mulheres nos documentos oficiais das candidaturas.
Embora o problema da violência tenha presença maciça – nove programas tratam dele de forma explícita – pautas que envolvem participação política feminina, ocupação de espaços de poder e segurança no ambiente público ocupam posição secundária. Apenas um candidato apresentou proposta detalhada para aumentar a representação de mulheres na política, incluindo combate à violência de gênero no processo eleitoral.
Participação política ainda é exceção
A pesquisa foi categórica ao mostrar que as mulheres surgem mais como destinatárias de políticas do que como formuladoras ou protagonistas delas. Segundo o levantamento Mulheres em Diálogo (2025), também do Instituto Update, 72% das entrevistadas apoiam fortemente maior presença feminina em cargos eletivos. Mesmo assim, somente um plano propõe mecanismos concretos para ampliar a participação, prevendo desde formação de lideranças até mudanças no financiamento partidário.
Quando o recorte é ampliado para liderança em outros poderes, um segundo candidato entrou no radar por prometer incentivo à chefia feminina em diferentes esferas e a indicação de mulheres ao Supremo Tribunal Federal. De resto, a representação de mulheres como agentes políticos permanece tratada de maneira genérica ou inexistente nos demais programas.
Distância entre percepção social e propostas
Para a diretora-executiva do Instituto Update, Carol Althaller, o contraste evidencia um descompasso: as mulheres reconhecem sua capacidade de desenhar soluções, mas os programas de governo não lhes abrem o devido espaço de decisão. O mesmo padrão se repete em temas como segurança pública. Num estudo recente conduzido pelo Update em parceria com a plataforma Fogo Cruzado, 70% das entrevistadas afirmaram que mulheres têm melhores ideias para o setor. Apesar disso, a liderança feminina nessa pauta mal aparece nos planos presidenciais.
Violência e segurança dominam a cena
Nove dos 12 programas (75%) trazem algum tipo de proposta sobre violência contra a mulher, feminicídio ou proteção às vítimas. Se somados os textos que citam violência doméstica sem recorte de gênero, o número sobe para dez. O cardápio de soluções envolve:
- ampliação de redes de proteção e casas-abrigo;
- integração entre segurança, Justiça, saúde e assistência social;
- monitoramento eletrônico de agressores e fortalecimento das medidas protetivas;
- endurecimento de penas para crimes de gênero.
Na avaliação do instituto, os programas reconhecem amplamente a mulher como vítima, mas quase não abordam a insegurança que afeta sua mobilidade. Apenas uma candidatura liga explicitamente segurança feminina a transporte urbano ou iluminação pública, pontos citados por 79% das mulheres entrevistadas em 2026 que declararam sentir medo ao sair de casa à noite.
Segurança cotidiana fora do radar
Nos grupos de discussão qualitativa promovidos pelo Update, surgem demandas como melhoria da iluminação de ruas, recuperação de áreas abandonadas e reforço das redes comunitárias. Esses aspectos do cotidiano costumam ficar fora de uma agenda centrada apenas em policiamento e punição, assinala Althaller.
Autonomia econômica: mesma meta, caminhos distintos
Sete programas – o equivalente a 58% – citam explicitamente iniciativas para fortalecer a autonomia econômica feminina. As propostas vão de igualdade salarial a acesso a crédito, passando por empreendedorismo, creches públicas e proteção social. A convergência gira em torno da crença de que autonomia financeira reduz ciclos de violência e dependência; a divergência mora nos meios.
- Em parte das candidaturas, o foco recai sobre salário, direitos trabalhistas e ampliação da rede de creches, entendidas como políticas de Estado.
- Outros planos destacam educação financeira, microcrédito e estímulo ao empreendedorismo, apostando no mercado para gerar renda e patrimônio.
O instituto observa que ambos os blocos usam a noção de “autonomia”, porém com significados distintos – diferença que explica como a mesma palavra pode aparecer em projetos políticos antagônicos.
Igualdade salarial tem apoio quase unânime
A adesão social ao tema é robusta: 94% das mulheres ouvidas pelo Update em 2025 defendem salários iguais para funções equivalentes. Mesmo assim, apenas cinco planos detalham mecanismos de equiparação remuneratória, como fiscalização das empresas ou critérios de compras governamentais que premiem igualdade de gênero.
Quem cuida do cuidado
Outro eixo que atravessa sete programas (58%) é o das políticas de cuidado. Aqui, de novo, o consenso para na superfície. Em metade das propostas, o cuidado é tratado como infraestrutura pública que libera tempo das mulheres, amplia sua presença no mercado de trabalho e reduz desigualdades. Na outra metade, o tema aparece ligado à maternidade e ao fortalecimento da família, com sugestão de incentivos a organizações comunitárias ou ao setor privado.
Apesar dos diferentes enfoques, todos partem da premissa de que a organização do cuidado impacta diretamente a autonomia feminina. A controvérsia gira em torno de quem deve assumir tal responsabilidade – Estado, família ou mercado – e em que medida.
Creches como política econômica
Programas que tratam creche como política de desenvolvimento articulam a expansão das vagas a metas de geração de emprego. Já os que reforçam o caráter familiar propõem bolsas a mães cuidadoras ou estímulo fiscal a empresas que ofereçam espaços de acolhimento infantil. O instituto destaca que essa clivagem revela visões opostas sobre a divisão sexual do trabalho doméstico.
Metodologia do levantamento
O estudo analisou somente menções que identificavam explicitamente mulheres como público-alvo. Assim, políticas universais de segurança, trabalho, saúde, educação ou transporte não entraram no cômputo automático. Além disso, o Update diferenciou menção de proposta estruturada: passagens sem detalhamento de metas, instrumentos ou articulação com políticas já existentes foram classificadas como referências de baixo nível programático.
Com base nas evidências, o instituto conclui que a maior parte dos programas reconhece problemas que atingem diretamente as mulheres, mas avança pouco na incorporação delas como protagonistas de decisões. A lacuna se evidencia sobretudo na participação política e na concepção de segurança, ainda restrita à lógica da punição, sem contemplar o direito pleno à cidade.
Ao final, o levantamento indica uma disputa de narrativas: enquanto há convergência sobre temas como violência, autonomia e cuidado, divergem os caminhos para solucioná-los e, principalmente, o lugar que as próprias mulheres ocupam na construção dessas respostas.