Equipes de emergência travam uma batalha contra o tempo para localizar centenas de operários desaparecidos nos túneis de grandes hidrelétricas no centro do Nepal, seis dias depois de avalanches e enchentes devastarem encostas do Himalaia. As autoridades confirmam mais de 900 mortos e atualizam para 3.925 o número de desaparecidos, o que eleva a tragédia a uma das piores do país desde o terremoto de 2015.
Entre os sumidos, 639 trabalhadores ligados a 13 projetos de geração de energia concentram a atenção dos socorristas. Muitos podem estar encurralados em galerias subterrâneas que desviam rios montanhosos para turbinas, agora bloqueadas por lama, rochas e destroços. Cada hora sem contato reduz as chances de sobrevivência, mas relatos de bolsões de ar e de sistemas de ventilação mantêm viva a esperança de familiares que se aglomeram na entrada das obras.
Avalanches e enchentes ampliam desastre no corredor do Trishuli
O mau tempo que atingiu o Nepal e a região autônoma do Tibete na quarta-feira passada provocou correntes de água e neve capazes de arrastar pontes, estradas e vilarejos inteiros. No Nepal, o distrito de Rasuwa, fronteira com a China, foi o mais atingido. Os rios Bhote Koshi e Trishuli, turbinados por degelo e chuvas intensas, transbordaram em questão de horas.
Essa área montanhosa tornou-se nos últimos anos o maior polo hidrelétrico do país, abrigando usinas concluídas, em expansão ou ainda em construção. O crescimento rápido da atividade concentrou centenas de operários pouco treinados em canteiros de obras escavados em encostas instáveis. Quando a enxurrada chegou, túneis de adução — capazes de receber caminhões — transformaram-se em armadilhas subterrâneas.
Túneis viram labirintos de lama
Trishuli-3A: foco principal das buscas
Construída entre 2011 e 2019, a hidrelétrica Trishuli-3A opera com duas turbinas de 30 MW ligadas a um túnel de mais de 4 quilômetros. Centenas de operários trabalhavam na manutenção da galeria quando o volume de água subitamente subiu. Cerca de 90 socorristas — entre militares, policiais e bombeiros — abriram um acesso vertical de dez metros utilizando explosões controladas. Após lançar mensagens pelo orifício, não obtiveram resposta.
Outras usinas afetadas
- Trishuli-1 e Trishuli-3B — ainda em construção, registram dezenas de funcionários sem contato.
- Chilime — inaugurada em 2003, teve túneis parcialmente alagados; resgates continuam.
- Rasuwagadhi — soldados percorreram a galeria com drones, mas não encontraram sobreviventes.
Em todos os locais, a instabilidade do terreno e o risco de novos deslizamentos dificultam o avanço de máquinas escavadeiras, bombas de drenagem e cães farejadores.
Mobilização internacional acelera operações
Diante da dimensão do desastre, Kathmandu solicitou apoio de países vizinhos. Equipes especializadas da China, Índia e Coreia do Sul chegaram ao vale do Trishuli nas últimas 24 horas, trazendo sensores de eco, câmeras de fibra óptica e unidades de ventilação de grande potência. O objetivo imediato é restabelecer oxigênio nos túneis e abrir corredores seguros para acesso de médicos.
Além de escavadeiras, os resgatistas utilizam drones equipados com termografia para identificar pontos de calor que indiquem a presença de pessoas, enquanto pequenos explosivos removem rochas maiores sem provocar colapsos. No fim de semana, 279 operários conseguiram ser retirados com vida de diferentes usinas, resultado comemorado mas insuficiente diante do total de desaparecidos.
Famílias à espera de notícias
Do lado de fora das obras, a ansiedade é crescente. Sita Pandey, cujo marido trabalhava em Trishuli-3A, mantém um frágil otimismo: “Ainda acredito que ele possa respirar lá dentro, mas cada hora pesa”. Priya Kharel, irmã de um funcionário de Trishuli-1, conta que colegas que escaparam viram outros presos: “Se o exército chegar rápido, eles têm chance”.
A sensação de lentidão nas buscas gera protestos. Parentes cobram mais equipamento pesado e maior número de socorristas. Muitos não compreendem por que a injeção de ar comprimido só começou dias depois do bloqueio. “Cada segundo conta”, resume Jiban Khadka, que perdeu contato com um primo.
Indústria hidrelétrica sob pressão
O Nepal aposta na venda de energia para Índia e China como saída econômica e, por isso, multiplicou concessões hidrelétricas na última década. O capital chinês financia parte expressiva das obras em Rasuwa, onde leitos de rios íngremes oferecem queda d’água ideal para turbinas. Especialistas alertam, porém, que o impulso não foi acompanhado de protocolos adequados de segurança em ambiente sujeito a sismos, enchentes repentinas e deslizamentos.
Jakob Steiner, pesquisador da Universidade de Graz, lembra que os túneis de adução podem servir de abrigo temporário porque possuem galerias de manutenção elevadas. “Há bolsões de ar e sistemas de ventilação, mas tudo depende de a estrutura permanecer estável e sem alagamento total”, explica. Ainda assim, a pressão da água e o acúmulo de sedimentos podem comprometer a oxigenação em poucas horas.
Sobreviventes relatam momentos críticos
Resgatado no sábado, o operário Ram Chandra contou que precisou permanecer pendurado em uma viga para não ser engolido por uma mistura de água e cimento. “A cada minuto o nível subia. Se eu soltasse, seria arrastado”, descreveu, ainda coberto de lama. Relatos como o dele reforçam a urgência em alcançar quem continua isolado.
Próximos passos e desafios
As equipes planejam ampliar a ventilação nos principais túneis e escavar saídas secundárias. No entanto, a previsão de novas chuvas ameaça atrasar o cronograma. Geólogos alertam para riscos de colapso em galerias já abaladas por vibrações de explosivos e tremores secundários.
Mesmo com essas barreiras, o governo nepalês afirma que não medirá esforços para salvar os trabalhadores restantes. A operação envolve mais de mil pessoas entre militares, engenheiros civis, médicos e voluntários. Ainda não há prazo para conclusão; o resultado dependerá da estabilidade do terreno e da resistência dos sobreviventes confinados.
Enquanto a corrida contra o tempo continua, o país se mobiliza em doações de sangue, alimentos e equipamentos, na expectativa de transformar cada novo buraco aberto em sinal de vida dentro da montanha.