Madri elevou a temperatura diplomática nesta segunda-feira (31) ao acusar Rússia e Israel de alimentarem, via redes sociais, uma onda de desinformação que resultou na travessia irregular de cerca de 72 mil pessoas do Marrocos para Ceuta entre 30 e 31 de julho. Segundo o premiê Pedro Sánchez, a campanha digital prometia residência automática na Espanha e desencadeou a maior corrida migratória já registrada na fronteira terrestre da União Europeia com a África.
Ao afastar qualquer responsabilidade de Rabat, o líder socialista contrariou opositores espanhóis e parte de ONGs que culpavam o governo marroquino por liberar a passagem. A narrativa, no entanto, expôs novo atrito com Moscou e Tel Aviv: ambos os governos rechaçaram a acusação, chamando-a de “mentira descarada”.
Uma explosão migratória sem precedentes
Em apenas 48 horas, o enclave espanhol recebeu mais gente do que sua própria população fixa. Autoridades locais relatam pelo menos 100 mortes na travessia: muitos tentaram chegar a nado ou em pequenas embarcações, guiados por vídeos que circulavam no TikTok, Facebook e aplicativos de mensagens.
O que viralizou nas redes
O conteúdo prometia que qualquer pessoa que tocasse a praia de Ceuta teria direito a permanecer na Espanha, sem deportação e com acesso a benefícios sociais. A Polícia Nacional identificou influenciadores falsos gravando depoimentos supostamente feitos já em território espanhol — todos produzidos fora da Península Ibérica, segundo o governo.
Bastidores da investigação europeia
De acordo com Sánchez, um dossiê do Serviço Europeu para a Ação Externa (SEAE) aponta a coordenação de “redes russas e israelenses, em aliança com grupos de extrema direita europeus”, para amplificar as postagens. O relatório, ainda confidencial, sugere que a iniciativa buscava punir Madri pelo apoio à Ucrânia e pelas críticas à ofensiva israelense em Gaza.
Embora cite “indícios sólidos”, o premiê não divulgou trechos do documento nem detalhou a participação específica de cada país. Diplomaticamente, a estratégia sinaliza pressão sobre Bruxelas para adotar medidas de cibersegurança focadas em fluxo migratório, questão sensível no bloco.
Réplica imediata de Moscou e Tel Aviv
- Gideon Sa’ar, chanceler israelense, classificou a fala de Sánchez na rede X como tentativa de “desviar a atenção de fracassos domésticos”.
- Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin, disse que a Rússia “jamais interferiria em assuntos internos espanhóis” e acusou o premiê de buscar “bode expiatório externo”.
Papel de Marrocos segue em debate
Em julho, analistas espanhóis cogitaram que Rabat teria afrouxado a vigilância fronteiriça por três motivos:
- Desgaste com um draft de lei espanhol que estenderia cidadania a saarauís nascidos até 1977, época da administração espanhola no Saara Ocidental.
- A reaproximação de Madri com a Argélia, rival regional de Marrocos, coroada por visita de Sánchez a Argel em 20 de julho.
- As históricas reivindicações marroquinas sobre Ceuta e Melilla, enclaves espanhóis no norte da África.
Apesar desses pontos de fricção, Sánchez foi taxativo: “A crise resolve-se com cooperação, não com desconfiança em relação ao Marrocos”.
Schengen à prova
A chegada massiva abalou um dos pilares da UE. O governo italiano, liderado por Giorgia Meloni, restabeleceu controles de fronteira para viajantes vindos da Espanha por 30 dias. Madri retaliou sete dias depois, criando uma cadeia de checagens que, nesta segunda, foi prorrogada por mais 15 dias por ambos os lados.
Em Bruxelas, diplomatas admitem que novos incidentes podem levar outros países a suspender temporariamente o Acordo de Schengen, ameaçando a livre circulação de 420 milhões de europeus.
Situação humanitária em Ceuta
Cerca de 5 mil migrantes permanecem no enclave, grande parte dormindo em barracas improvisadas na praia de El Trampolín. Moradores organizam protestos regulares contra “riscos sanitários e de segurança”, enquanto grupos de ultradireita tentam capitalizar politicamente o clima de tensão.
No fim de semana, três cidadãos marroquinos foram detidos após lançar garrafas com substância corrosiva contra uma patrulha do Exército que faz ronda no litoral. Não houve feridos graves, mas o episódio reforçou pedidos da oposição conservadora para repatriar todos os recém-chegados, inclusive menores.
Próximos movimentos
Sánchez prometeu apresentar o relatório do SEAE ao Parlamento na próxima semana. Enquanto isso, Italia e Espanha mantêm o apertado balcão de fronteiras, e Bruxelas corre para aprovar um pacote de monitoramento digital destinado a identificar campanhas de desinformação que explorem rotas migratórias. A crise em Ceuta, agora envolta em disputa geopolítica, transforma o enclave numa peça-chave da segurança europeia e de seu debate sobre as futuras regras de acolhimento.