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Juros de 30 anos nos EUA batem máxima em 24 anos e acendem alerta nos mercados

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Resumo da Notícia

  • O rendimento do Treasury americano de 30 anos chegou a cerca de 5,70% nesta quarta-feira (7), o maior patamar desde 2002
  • Inflação persistente, economia americana mais forte que o esperado e preocupações com a dívida federal puxam os juros para cima
  • A taxa da hipoteca de 30 anos nos EUA já ultrapassou 7%, e o mercado aguarda a ata da reunião de setembro do Fed

O rendimento do título do Tesouro americano de 30 anos atingiu nesta quarta-feira (7) cerca de 5,70% — o maior patamar em 24 anos, desde 2002. A máxima, registrada antes da divulgação da ata da reunião de setembro do Federal Reserve (Fed), acendeu o alerta nos mercados globais sobre a trajetória dos juros na maior economia do mundo.

O título de 10 anos acompanha o movimento: em 1º de outubro, chegou a 5,34%, também máxima em 24 anos, com alta de 87,1 pontos-base no terceiro trimestre — a maior alta trimestral desde 1994.

O que está puxando os juros

A combinação por trás da escalada é conhecida, mas cada vez mais intensa. A inflação americana segue persistente: o índice PCE, o preferido do Fed, está em 3,4% na leitura cheia e 3,0% no núcleo — bem acima da meta de 2%. O índice de preços do ISM, que mede a atividade industrial, saltou 6,8 pontos, para 77,9.

Ao mesmo tempo, a economia americana se mostra mais forte do que o esperado. O PIB do segundo trimestre foi revisado para 2,2%, e as estimativas para o terceiro trimestre giram em torno de 4%. Os pedidos de seguro-desemprego caíram para 197 mil — abaixo dos 200 mil esperados — e a taxa de desemprego está em 4,1%, patamar de pleno emprego.

“Há uma carnificina no mercado de títulos. A preocupação é que o crescimento dos EUA está muito mais forte do que o esperado”, disse Neil Wilson, estrategista do banco Saxo, à CNN.

A trajetória fiscal também pesa. O endividamento federal dos Estados Unidos cruzou a marca de US$ 40 trilhões, segundo a CNBC, alimentando temores sobre a sustentabilidade das contas públicas. “Inflação persistente, atividade resiliente e ventos contrários fiscais levaram os mercados a precificar uma trajetória mais alta para os juros”, avaliou a State Street Investment Management em nota ao Wall Street Journal.

E há o petróleo: o Brent opera acima de US$ 101 o barril, em alta de mais de 1% no dia, após o Irã intensificar ataques a petroleiros no Estreito de Ormuz nos últimos dias — um componente geopolítico que pressiona o prêmio de risco dos títulos.

O Fed no centro do tabuleiro

O Federal Reserve elevou os juros em 25 pontos-base em setembro — a primeira alta em três anos — para a faixa de 3,75% a 4,00%, em decisão unânime. A ata dessa reunião, divulgada nesta quarta às 18h GMT, era aguardada com ansiedade pelo mercado em busca de pistas sobre os próximos passos.

Os contratos futuros indicam cerca de 63% de chance de manutenção dos juros na reunião de outubro, mas o mercado já precifica pelo menos três altas até meados de 2027. Neel Kashkari, presidente do Fed de Minneapolis, afirmou que a inflação “ainda está muito alta”, mesmo após dados mais suaves do PCE.

Os efeitos colaterais

O impacto mais direto aparece no bolso do americano comum: a taxa da hipoteca de 30 anos nos Estados Unidos ultrapassou 7% pela primeira vez desde o início de 2025, segundo a CNN, com pedidos de financiamento e vendas pendentes em queda. A taxa média da hipoteca de 30 anos está na máxima em três anos.

Nos mercados, o quadro é de tensão crescente. O S&P 500 ainda opera perto de máximas históricas — “investidores em ações permanecem majoritariamente não afetados” até agora, segundo o Motley Fool —, mas os spreads de crédito começam a mostrar sinais de estresse. O ouro opera sob pressão, e o dólar segue sustentado.

A curva de juros vive um “bear-steepening”: a ponta longa dos títulos vende mais rápido que a curta, com o rendimento de 2 anos em 4,88% a 4,91%. É o mercado dizendo, em alto e bom som, que espera juros altos por mais tempo.

Uma sequência de recordes

A máxima desta quarta não veio do nada: é o coroamento de uma sequência de recordes. Em 29 de setembro, o título de 30 anos já havia batido 5,612% — então a maior marca desde 2002. Em 1º de outubro, subiu para 5,69%. Agora, a 5,70%, o mercado consolida a leitura de que a era dos juros baixos ficou definitivamente para trás.

Para efeito de comparação: no auge da pandemia, em 2020, o Treasury de 30 anos chegou a render menos de 1,5% ao ano. Em seis anos, o custo do dinheiro longo americano quase quadruplicou — uma mudança de regime que redefine preços de ativos no mundo inteiro, de imóveis a ações de tecnologia.

O que isso significa para o Brasil

Juros longos em alta nos Estados Unidos costumam ser más notícias para mercados emergentes. O dólar forte pressiona o real, encarece importações e pode forçar o Banco Central brasileiro a manter a Selic elevada por mais tempo — mesmo com a inflação doméstica sob controle.

Por outro lado, o Brasil tem cartas na manga: o superávit comercial robusto, as reservas internacionais e o fluxo de investimentos em energia e agronegócio funcionam como amortecedores. Mas a mensagem dos mercados é clara — o dinheiro global ficou mais caro, e a competição por ele, mais acirrada.

“O cenário geopolítico e a elevação das pressões de preços e dos yields governamentais continuam pesando no sentimento e no apetite por risco”, resumiu Simon Ballard, economista-chefe do First Abu Dhabi Bank, ao WSJ.

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Escobar Oliver é o responsável pelo conteúdo do RSO Notícias, portal de notícias do Brasil e do mundo.