Brasília – Integrantes do Palácio do Planalto avaliam que as sanções impostas pelo governo dos Estados Unidos a dois brasileiros apontados como ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC) teriam produzido efeitos mais amplos caso a parceria técnica entre os dois países não tivesse perdido fôlego nos últimos anos.
Segundo assessores presidenciais, o intercâmbio de informações no combate ao crime organizado “era muito bom”, mas começou a arrefecer durante a gestão do presidente norte-americano Donald Trump, antes mesmo de Washington classificar PCC e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais – medida anunciada no fim de maio e efetivada em junho.
Falta de pedido de cooperação
O governo brasileiro afirma não ter recebido solicitações de apoio dos EUA antes da inclusão dos alvos na lista de sanções. Com isso, o país não pôde adotar providências internas, como bloqueio de contas bancárias.
“Não chegou nenhum pedido formal”, declarou um assessor, lembrando que, em anos anteriores, iniciativas semelhantes envolviam troca prévia de informações entre autoridades dos dois lados.
Alterações em Washington
Fontes do Planalto atribuem o esfriamento à mudança de comando em órgãos norte-americanos, entre eles o Departamento de Justiça, e à influência de quadros alinhados politicamente ao secretário de Estado Marco Rubio. A situação se agravou após a rotulagem das facções brasileiras como terroristas.
Sanções anunciadas
Na quarta-feira (1º), o Departamento do Tesouro dos EUA bloqueou bens e proibiu transações com:
- Brasileiros: Victor Henrique de Oliveira Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira.
- Empresas: Victory Trading Intermediação de Negócios Cobranças e Tecnologia Ltda; Pixwave Soluções de Pagamentos Ltda; Wave Construções Inteligentes Ltda; e Avenidas Flutuantes Unipessoal Lda (Portugal).
É a primeira rodada de penalidades econômicas desde que PCC e CV foram classificados como grupos terroristas. No comunicado, Washington descreveu o PCC como a “maior organização criminosa transnacional do Hemisfério Ocidental” e alegou que a facção ameaça a segurança dos EUA ao utilizar o sistema financeiro americano para lavar dinheiro.
Detalhes das acusações
As autoridades norte-americanas apontam Victor Shimada como elo entre membros do PCC na Flórida e traficantes internacionais, acusando-o de lavar mais de US$ 30 milhões por meio de criptomoedas. Já Stella teria atuado como secretária e intermediária na movimentação de grandes quantias em espécie.

Imagem: ligação com PCC
Shimada responde no Brasil a denúncia do Ministério Público de São Paulo por lavagem de dinheiro no caso VaideBet, envolvendo patrocínio ao Corinthians. A Victory Trading, da qual é sócio, teria sido usada para ocultar valores desviados do clube, segundo os EUA.
Próximos passos
O governo brasileiro pretende retomar negociações para reforçar a cooperação com os EUA no enfrentamento ao crime organizado. A proposta foi apresentada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Donald Trump, mas ainda aguarda resposta oficial.
Embora a operação norte-americana não tenha gerado impactos significativos no território nacional, Brasília teme efeitos colaterais, como sanções a bancos que mantenham relações com os alvos listados.
Até o momento, não há indicação de novas iniciativas conjuntas, mas o Planalto insiste que a retomada da colaboração é fundamental para aumentar a eficácia de ações futuras.
Com informações de G1