Buscadores que exibem respostas prontas elaboradas por inteligência artificial, como o AI Overviews do Google, estão drenando parte expressiva do público que antes clicava nos links de sites jornalísticos. A queda de audiência corrói receitas publicitárias, agrava o cenário financeiro de redações brasileiras e reacende o debate sobre a cobrança de direitos autorais das plataformas.
Diante do panorama, associações de imprensa pressionam a Câmara dos Deputados a votar o PL 2338/2023, que institui o Marco Regulatório da IA e impõe remuneração pelo uso de conteúdo protegido. O projeto, no entanto, está parado desde o fim de 2025, travado por disputas entre grupos de mídia, big techs e parlamentares.
Audiência em queda expõe fragilidade do modelo de negócios
Levantamento da Associação de Jornalismo Digital (Ajor), que representa 152 veículos on-line, aponta que um em cada quatro portais perdeu mais de 20 % do tráfego em 2025. Para diretora de Relações Institucionais da entidade, Carla Egydio, o impacto é “preocupante” porque publicidade e programas de assinaturas dependem diretamente das métricas de acesso.
“O ecossistema jornalístico já convive com verbas migrando para as redes sociais. Quando o buscador oferece um resumo automatizado, o leitor deixa de visitar o site e as redações perdem páginas vistas, dados de engajamento e, consequentemente, faturamento”, afirma Egydio. Segundo ela, as plataformas se apropriam de trechos das reportagens sem conceder o contexto completo, prática que pode resultar em desinformação ou mesmo plágio.
Dois exemplos internacionais e o efeito dominó
O fenômeno não se restringe ao Brasil. Nos Estados Unidos, o Business Insider cortou 21 % do quadro de funcionários em maio de 2025, citando “sensibilidade extrema” ao tráfego gerado por buscadores. Analistas de mídia temem que veículos de médio porte, com menor reserva financeira, não consigam absorver quedas tão bruscas.
Risco de desinformação e plágio aumenta
Além do aspecto econômico, especialistas alertam que resumos criados por IA podem embaralhar fatos, omitir nuances ou combinar fontes sem checagem. Num ambiente já tensionado pelas fake news, qualquer distorção se espalha rapidamente pelas mesmas plataformas que exibem as respostas automatizadas.
“Sem a leitura integral da reportagem, o usuário perde detalhes essenciais para a formação de opinião. Há ainda casos em que o texto é copiado literalmente, configurando violação de direitos autorais”, reforça Carla Egydio.
Marco Regulatório da IA emperra na Câmara
O PL 2338, aprovado no Senado e em debate na Câmara desde março de 2025, determina que sistemas de IA remunerem autores quando utilizarem conteúdo protegido durante treinamento ou exibição de resultados. A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) sustenta que a medida é vital para salvar empregos e garantir diversidade de fontes.
“O lobby das big techs quer suprimir o trecho sobre direitos autorais. É o principal impasse”, relata a presidenta da Fenaj, Samira de Castro. Ela reconhece fragilidades do texto, mas vê “avanços importantes” para responsabilizar empresas que lucram com produção alheia.
Prioridade declarada que não saiu do papel
O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), citou o tema como prioridade do primeiro semestre de 2026. No entanto, a comissão especial não se reúne desde novembro passado e o relator, deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), pede “debate adicional”, sobretudo sobre como operacionalizar o pagamento a criadores independentes. Com o calendário eleitoral, a votação foi adiada para depois de outubro.
Big techs reagem e alertam para “isolamento” do país
Entidades como a Brasscom, que representa empresas de tecnologia, afirmam que a redação vinda do Senado “inviabiliza” o desenvolvimento de modelos de IA no Brasil, pois imporia custos altos e barreiras de acesso a bases de dados globais. Segundo nota conjunta, “o país pode ficar para trás em investimento em infraestrutura digital”.
O governo federal discorda. Para o secretário de Direitos Autorais do Ministério da Cultura, Marcos Alves de Souza, a judicialização sobre uso indevido de obras cresce e o PL dará segurança jurídica: “Hoje, treinar IA com material protegido infringe ao menos sete artigos da lei de direito autoral”, disse em audiência no Congresso.
Investigação no Cade e acordos privados avançam
Em paralelo ao impasse legislativo, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) abriu investigação, em abril, sobre possível abuso de posição dominante do Google ao incorporar conteúdo noticioso em recursos de IA sem remunerar as publicações. O órgão apura se a prática distorce a concorrência no mercado de mídia digital.
Ao mesmo tempo, grandes jornais brasileiros buscam soluções diretas. A Folha de S.Paulo fechou acordo com a OpenAI após processar a empresa por uso de reportagens, enquanto O Estado de S. Paulo assinou parceria comercial com o Google. Os valores não foram divulgados, mas sinalizam tentativa de compensar perdas de audiência por meio de licenciamento de conteúdo.
Próximos passos e tensão permanente
Com audiências em queda, redações pressionam o Congresso a votar o Marco Regulatório ainda em 2026. Do outro lado, plataformas globais reforçam o lobby contra exigências consideradas onerosas. A disputa coloca em jogo não apenas a sobrevivência financeira da imprensa, mas também a qualidade da informação que circula no ambiente digital brasileiro.