Resumo da Notícia

  • Os escritórios do USCIS aprovaram 57.697 pedidos de naturalização entre abril e junho de 2026, contra 241.326 no mesmo período de 2025 — uma queda de cerca de 76%, segundo análise dos dados oficiais divulgada pela Bloomberg Law e pelo VisaVerge.
  • A fila de processos de cidadania aguardando decisão cresceu 40% em um ano e chegou a 742.138 casos em 30 de junho de 2026, enquanto a taxa de aprovação caiu de 91,2% para 81,8%.
  • Para os brasileiros que já protocolaram o pedido ou planejam protocolar, o efeito prático é espera maior: o tempo mediano de conclusão dos casos regulares ficou em 9,5 meses no trimestre, e levantamentos apontam esperas médias próximas de 13 meses.
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O sonho da cidadania americana ficou mais demorado. Os escritórios de campo do USCIS, o serviço de cidadania e imigração dos Estados Unidos, aprovaram 57.697 pedidos de naturalização entre abril e junho de 2026. No mesmo período de 2025, haviam sido 241.326 aprovações. A queda é de cerca de 76% em apenas um ano, segundo a análise dos dados trimestrais oficiais da agência divulgada pela Bloomberg Law — que calcula retração de aproximadamente 75% — e compilada pelo VisaVerge a partir dos arquivos de desempenho do formulário N-400, o pedido de naturalização.

O dado é geral: vale para todos os pedidos decididos nos Estados Unidos, e não apenas para brasileiros. Mas ele atinge em cheio uma das comunidades que mais buscam a cidadania americana. Os brasileiros estão, ano após ano, entre os grupos que mais se naturalizam no país, de acordo com as estatísticas anuais do Departamento de Segurança Interna (DHS), e milhares de residentes permanentes nascidos no Brasil estão neste momento em alguma etapa do processo — do protocolo do N-400 à espera pela cerimônia de juramento.

O que os números mostram

A desaceleração não é só de aprovações. De acordo com o USCIS, os escritórios receberam 145.872 novos pedidos no trimestre, contra 251.467 um ano antes — uma queda de 42% nas entradas. Mesmo assim, como as decisões caíram ainda mais rápido, a fila cresceu: os processos pendentes chegaram a 742.138 em 30 de junho de 2026, alta de 40% sobre os 529.018 registrados um ano antes, o maior patamar da série trimestral analisada pelo VisaVerge.

As negativas também diminuíram em número absoluto — cerca de 12.800 no trimestre, contra 23.269 em 2025 —, mas passaram a pesar mais no total de decisões: a fatia de negativas subiu de cerca de 9% para 18%, e a taxa de aprovação recuou de 91,2% para 81,8%. O retrato, portanto, não é o de uma agência que passou a negar muito mais, e sim o de uma máquina que passou a decidir muito menos: a média mensal de aprovações em 2026 ficou em torno de 22 mil, contra cerca de 70 mil por mês em 2024 e 2025, segundo levantamento da NPR. O Washington Post, por sua vez, apontou queda de 72% nas aprovações entre janeiro e agosto de 2026 na comparação com 2025, com a fila total superando 800 mil casos.

A freada foi nacional, mas desigual. Segundo o VisaVerge, as aprovações caíram em 57 dos 70 escritórios grandes o bastante para comparação trimestral. Em San Jose, na Califórnia, foram decididos apenas 408 casos, contra 9.281 um ano antes — tombo de 96%. Baltimore e San Francisco registraram quedas em torno de 93%.

Por que o ritmo caiu

O USCIS não publicou uma explicação oficial vinculada aos números. Procurada pela imprensa americana, a agência afirmou, por meio do porta-voz Zach Kahler, que está conduzindo “revisões mais rigorosas” dos processos. O Departamento de Segurança Interna, em balanço divulgado em 2 de outubro, listou a “queda de 75% nas naturalizações” entre os resultados de suas políticas.

As análises apontam uma combinação de medidas que adicionaram etapas ao caminho de cada processo. Desde 1º de janeiro de 2026, segundo o VisaVerge, a agência passou a segurar pedidos de benefícios — incluindo naturalização — de cidadãos dos 39 países incluídos na versão ampliada da proibição de viagens do governo, e iniciou a reavaliação de aprovações concedidas desde 20 de janeiro de 2021. Em 27 de abril de 2026, já dentro do trimestre medido, o USCIS começou a reenviar as impressões digitais da maioria dos casos pendentes para uma verificação ampliada de antecedentes criminais junto ao FBI, etapa adicional que ajuda a explicar por que a queda se aprofundou justamente entre abril e junho. Tribunais federais, depois, anularam e bloquearam os memorandos que sustentavam as retenções, em decisões de junho e de agosto de 2026 — mas os efeitos práticos sobre o ritmo dos escritórios ainda aparecem nos dados.

Para quem vive o processo por dentro, o cenário se soma a outras frentes de aperto na imigração americana, como a revogação de mais de 300 mil vistos pelos EUA desde 2025 e o endurecimento nas fronteiras e na fiscalização, que já colocou brasileiros detidos pelo ICE entre os grupos com maior proporção de deportações.

O que muda, na prática, para os brasileiros

Para quem já protocolou o N-400, a principal mudança é o tempo. O tempo mediano de conclusão dos casos regulares decididos entre abril e junho ficou em 9,5 meses, pelos dados do próprio USCIS, e a NPR relatou esperas médias que praticamente dobraram, de cerca de seis meses para algo próximo de 13 meses. Há ainda relatos de cerimônias de juramento adiadas para quem já foi aprovado, última etapa antes de receber o certificado de naturalização.

Para quem ainda pretende protocolar, o recado dos números é que a fila de entrada está mais longa e o relógio corre mais devagar: entrar no processo hoje significa, na média atual, esperar mais do que esperava quem entrou em 2024 ou 2025. Isso não significa, porém, que o processo esteja suspenso — o USCIS não anunciou nenhuma paralisação geral da naturalização, e os escritórios seguem recebendo e decidindo casos, apenas em ritmo bem menor.

O que fazer enquanto espera

A recomendação prática de especialistas e dos próprios canais oficiais é não deixar o processo parado por descuido. Quem tem caso em andamento deve acompanhar o andamento pelo sistema de consulta de casos do USCIS com o número do recibo, manter o endereço sempre atualizado junto à agência — a mudança de endereço é obrigatória e feita pelo formulário AR-11 — e responder dentro do prazo a qualquer correspondência, pedido de evidências ou convocação para biometria e entrevista, já que uma notificação perdida pode travar ou encerrar o caso.

Também vale organizar desde já a documentação que costuma ser exigida na entrevista: green card, passaportes, certidões, comprovantes de declaração de impostos e de residência contínua nos Estados Unidos. Quem está prestes a se tornar elegível pode aproveitar o período para reunir esses papéis e revisar os requisitos de inglês e de educação cívica cobrados no exame. E, em situações mais complexas — histórico de viagens longas para fora do país, problemas fiscais ou qualquer antecedente que possa gerar questionamento —, a orientação é buscar um advogado de imigração licenciado nos Estados Unidos antes de protocolar, em vez de tentar resolver sozinho. Nenhum dado público, porém, permite prometer prazo ou resultado: com a fila em 742 mil casos e os escritórios decidindo no ritmo atual, a única certeza que os números de 2026 oferecem é a de que a cidadania americana, para brasileiros e para todos os demais, ficou para depois.

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Escobar Oliver é o responsável pelo conteúdo do RSO Notícias, portal de notícias do Brasil e do mundo.