
Resumo da Notícia
- Flávio Bolsonaro divulgou nesta quarta-feira (28) uma carta em que se declara “o verdadeiro presidente eleito do Brasil”, horas depois de chegar a Miami com a família.
- No texto, ele contesta o resultado do segundo turno, vencido por Lula, e acusa o processo eleitoral de fraude, sem apresentar provas das alegações.
- O resultado anunciado pelo TSE permanece válido: Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) divulgou nesta quarta-feira (28) uma carta em que se declara “o verdadeiro presidente eleito do Brasil”. O texto foi publicado horas depois de ele chegar a Miami, nos Estados Unidos, com a mulher e as duas filhas, em um jato particular que pousou no aeroporto executivo de Opa-locka, ao norte da cidade, às 9h20 da manhã, segundo o jornal El País.
Na carta, dirigida ao povo brasileiro e à comunidade internacional, Flávio contesta o resultado do segundo turno da eleição presidencial, realizado no domingo (25), e afirma que a vitória lhe foi tirada por meio de um “golpe de Estado”. Ele não apresenta provas das acusações no documento. O resultado oficial, anunciado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), deu a reeleição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio.
“Me dirijo ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o verdadeiro presidente eleito de Brasil”, escreveu o senador no início do documento, conforme a reprodução publicada pelo portal Metrópoles. A carta, de três páginas, foi encaminhada pelo empresário Paulo Figueiredo, que mora nos Estados Unidos e é próximo de Eduardo Bolsonaro, irmão do senador.
Segundo a Reuters, Flávio afirmou na carta que deixou o país alegando ser o legítimo presidente eleito, apesar da derrota no domingo, e denunciou o que chamou de “uma caça às bruxas politicamente motivada”. “Quero deixar claro: não fugi do Brasil, eu saí pelo Brasil, saí de um regime de exceção para poder ser o líder que o meu povo merece”, escreveu.
O senador disse que, na noite de domingo, viu “com consternação como se produzia um fraude eleitoral ante meus próprios olhos”. Ele atribui a derrota a supostas irregularidades, entre elas a prorrogação do horário de votação em municípios onde eleitores enfrentaram dificuldades para chegar às seções, medida determinada pela Justiça Eleitoral após pedidos das duas campanhas. Flávio também questionou o crescimento da votação de Lula entre o primeiro e o segundo turno, que ele classificou como uma “impossibilidade matemática”, e acusou o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, de ter autorizado a extensão do horário. Com base nessas alegações, ele defende a cassação da chapa formada por Lula e Geraldo Alckmin.
No texto, Flávio agradece ao presidente da Argentina, Javier Milei, “por sua valentía, seu sentido de justiça e seu respeito pela legalidade”, e ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e ao “maravilhoso povo estadounidense” por acolhê-lo. Ele também compara sua saída do Brasil à de líderes como Charles de Gaulle, Rui Barbosa, José Martí, Juan Guaidó, Edmundo González e María Corina Machado, e anuncia que pretende dirigir a oposição brasileira a partir do território americano, por meios que descreve como pacíficos e legítimos.
As acusações feitas por ele são alegações do senador. Até a publicação desta matéria, não foram apresentadas provas que comprovem fraude eleitoral ou manipulação do resultado, e o resultado anunciado pela Justiça Eleitoral permanece válido.
A carta foi divulgada no mesmo dia em que Flávio chegou aos Estados Unidos, depois de uma saída do Brasil cercada de sigilo. A viagem ocorreu após o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinar a entrega dos passaportes do senador à Polícia Federal, no âmbito de uma investigação sobre suspeita de lavagem de dinheiro. Flávio não cumpriu o prazo para a entrega dos documentos.
De acordo com o registro da Direção Nacional de Migrações da Argentina, Flávio entrou no país vizinho na noite de terça-feira (27), com três familiares, pela Ponte Internacional Tancredo Neves, na província de Misiones, às 22h50. Segundo o Metrópoles, ele embarcou em um voo privado com destino ao Equador e, na sequência, seguiu para Miami, onde desembarcou na manhã desta quarta-feira. A Polícia Federal apura as circunstâncias da viagem, incluindo a ausência de registro regular de saída nos controles migratórios brasileiros. Até a publicação desta matéria, não havia notícia de mandado de prisão contra ele.
Na terça-feira, uma autoridade de alto escalão do Departamento de Estado dos Estados Unidos afirmou à Reuters que seriam concedidos vistos de entrada a Flávio e à sua família. Nesta quarta-feira, o presidente Donald Trump disse a jornalistas, na pista da Base Conjunta de Andrews, que aprova a vinda do senador aos Estados Unidos. “Bem, eu aprovaria”, disse Trump, que chamou Flávio e a família de “pessoas legais” e voltou a criticar a eleição brasileira, que classificou como “muito estranha”. Trump acrescentou, porém, que não tomou partido na disputa: “Conheço os dois. Conheço o Lula. Conheço um pouco o Flávio. Conheço muito bem o pai”, disse, referindo-se ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
No Brasil, a saída de Flávio já havia provocado reação do presidente Lula, que na terça-feira chamou a partida de “ato vergonhoso”. “Quem não deve, não teme”, disse Lula, segundo a cobertura da viagem. A carta desta quarta-feira acrescenta um novo capítulo à disputa política após as eleições de 2026: pela primeira vez, o senador derrotado no segundo turno se apresenta publicamente como “presidente eleito”, ignorando o resultado das urnas.
A declaração não tem efeito legal sobre o resultado da eleição. O TSE já anunciou a vitória de Lula, e a posse do presidente reeleito segue o calendário constitucional. O que a carta faz, na prática, é abrir uma frente política no exterior: Flávio promete apresentar, nos próximos dias, uma estratégia para mobilizar a oposição a partir dos Estados Unidos, onde diz ter encontrado acolhimento e proteção.
Enquanto isso, as autoridades brasileiras acompanham os desdobramentos da viagem e da investigação que motivou a ordem de entrega dos passaportes. O senador, por sua vez, afirma que a família está em segurança nos Estados Unidos e que não abandonou os brasileiros. Resta saber como a autoproclamação será recebida pelos partidos, pelo Congresso e pela comunidade internacional — e se algum governo estrangeiro reconhecerá, de alguma forma, a reivindicação feita na carta.
Leia mais: a viagem de Flávio aos Estados Unidos já havia sido contada aqui, com a polêmica entre a versão do site argentino e as negativas de aliados, em Flávio Bolsonaro teria chegado aos EUA após PF cancelar passaportes; Lula chama saída de vergonhosa (https://rsonoticias.com/flavio-bolsonaro-viagem-eua-site-argentino/). O resultado do segundo turno, com a vitória de Lula, está em Lula vira o jogo, vence Flávio no 2º turno e é reeleito presidente do Brasil (https://rsonoticias.com/lula-reeleito-presidente-segundo-turno-2026/).
