
Resumo da Notícia
- Putin abriu a 3ª Cúpula Rússia-África em Moscou, com delegações de 48 países e 22 líderes africanos, e apresentou a Rússia como parceira melhor que o Ocidente, que chamou de “colonial”.
- Ele prometeu ampliar o fornecimento de grãos e fertilizantes — hoje feito a mais de 40 países africanos — e defendeu produção local, transferência de tecnologia e maior peso da África no FMI e no Banco Mundial.
- O encontro deve adotar uma declaração final, um plano de ação para 2027-2029 e uma declaração sobre inteligência artificial, no esforço de Moscou para ampliar sua influência no continente em meio à guerra na Ucrânia.
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, abriu nesta quarta-feira (28), em Moscou, a 3ª Cúpula Rússia-África e apresentou seu país como o melhor parceiro do continente, em um discurso marcado por ataques ao Ocidente, que ele classificou como “colonial”. Segundo a Reuters, o evento de dois dias reúne líderes africanos e delegações governamentais de 48 países, e Putin terá conversas individuais com muitos dos 22 líderes africanos presentes, em uma agenda que inclui comércio, segurança, armas e grãos.
“A África está se afirmando cada vez mais como um dos principais atores na economia e na política globais”, afirmou Putin, de acordo com a Reuters. Na mesma fala, o presidente russo disse que o surgimento de um mundo multipolar enfrenta resistência de países “acostumados a pensar em termos de seu passado colonial e a enriquecer-se fabulosamente”. Sem citar nomes, ele acusou países ocidentais de tentarem levar os africanos de volta à “servidão por dívida”, impondo recursos financeiros em condições que chamou de predatórias — algo que, segundo ele, retardou o desenvolvimento de longo prazo do continente.
Grãos, fertilizantes e produção local
A principal promessa econômica de Putin foi a ampliação do fornecimento de alimentos e insumos agrícolas. De acordo com a Reuters, a Rússia já entrega grãos e fertilizantes a mais de 40 países africanos e está pronta para fornecer a mais nações. Nos primeiros nove meses deste ano, segundo o presidente russo, o país embarcou 13 milhões de toneladas de produtos agrícolas para a África. A agência EFE acrescentou que os embarques para alguns países se multiplicaram “não só em porcentagem, mas em termos absolutos”, e que as exportações africanas para a Rússia também crescem: hoje cobrem 8% das necessidades do mercado russo, percentual que, nas palavras de Putin, “deve crescer e vai crescer”.
Em contraste com o modelo que atribui ao Ocidente, Putin afirmou que a Rússia está pronta para compartilhar conhecimento — inclusive na área digital — e instalar produção local, em vez de apenas comprar matérias-primas. Segundo ele, os negócios russos não praticam o que chamou de exploração “neocolonial predatória” de recursos naturais e humanos, mas ampliam o processamento de matérias-primas no próprio continente, criando empregos e receita tributária. O presidente também defendeu maior influência africana no Fundo Monetário Internacional (FMI) e no Banco Mundial, disse que Moscou está pronta para projetos conjuntos de infraestrutura de transporte e agricultura e destacou que um número recorde de africanos — cerca de 40 mil — estuda atualmente em universidades russas. Ainda de acordo com a EFE, Putin convidou companhias aéreas africanas a começar a operar voos para a Rússia.
Documentos e plano até 2029
A cúpula deve consolidar a aproximação em documentos formais. Segundo o Kremlin, citado pela EFE, os participantes adotarão três textos principais: a declaração final do encontro, uma declaração de cooperação no campo da inteligência artificial e o plano de ação do Fórum de Parceria Rússia-África para o período 2027-2029. Também está prevista a assinatura de pelo menos 33 documentos intergovernamentais, memorandos e contratos comerciais. Como parte desse pacote, o chanceler russo, Serguei Lavrov, e o presidente da Comissão da União Africana, Mahmoud Ali Youssouf, assinaram um plano de cooperação entre a Rússia e a comissão para 2027-2029, abrangendo tecnologia, educação, agricultura, paz e segurança.
A sessão plenária é copresidida por Putin e pelo presidente do Burundi, Évariste Ndayishimiye, na condição de presidente em exercício da União Africana, segundo o Jornal de Angola. Entre os chefes de Estado presentes estão os do Egito, Congo, Mali, Níger, Burkina Faso, Moçambique e Guiné Equatorial, além dos dirigentes das principais organizações regionais, como a União Africana e a Área de Livre Comércio Continental Africana. Para Moçambique, é a primeira participação do presidente Daniel Chapo na cúpula: ele afirmou que o objetivo é “estreitar cada vez mais as nossas relações de amizade e cooperação, que são históricas”, com foco em energia, agricultura e educação.
O pano de fundo: Ucrânia e a disputa com a Europa
A ofensiva diplomática em direção à África faz parte da estratégia de Moscou para contrabalançar a pressão ocidental desde a invasão da Ucrânia, em um xadrez que inclui desde o impasse em torno de uma trégua energética entre Ucrânia e Rússia anunciada por Trump até o endurecimento da União Europeia contra Moscou após episódios de tensão em território europeu. Nesse contexto, conquistar a simpatia de líderes africanos e de outros países do chamado Sul Global virou prioridade do Kremlin.
Governantes ocidentais acusam a Rússia de explorar o passado colonial da África em benefício próprio e afirmam que forças paramilitares russas, como o Corpo Africano, apoiam juntas militares — a do Mali é o exemplo mais citado — para reforçar a influência geopolítica de Moscou e afastar antigas potências coloniais, como a França. Moscou rejeita as alegações. Na cúpula, o primeiro-ministro de Burkina Faso, Rimtalba Jean Emmanuel Ouedraogo, saiu em defesa da parceria: disse ao canal estatal russo RT, segundo a Reuters, que a cooperação com a Rússia é transparente, garante os interesses de ambos os lados e não tenta apagar línguas e culturas africanas. “Isso é completamente diferente do que vivemos com a França imperialista”, afirmou.
Energia nuclear e mineração nas margens do encontro
À margem da plenária, empresas estatais russas aproveitaram o encontro para avançar negócios. A Rosatom, estatal nuclear russa, informou que está em negociações avançadas para fornecer usinas nucleares flutuantes a países costeiros africanos — Egito, Togo, Namíbia e Tanzânia estão entre os citados por seus executivos, segundo a Reuters. A empresa já constrói no Egito a usina de El Dabaa, a primeira do país, com quatro reatores russos. A energia é um dos eixos mais desenvolvidos da relação, num cenário em que rotas e infraestrutura energéticas seguem no centro da geopolítica global, como mostrou a tensão recente em torno de petroleiros no Estreito de Ormuz. Também nas margens da cúpula, a estatal russa de geologia Rosgeologiya assinou acordos com o Mali para elaborar um mapa geológico digital de mais da metade do território do país e criar um sistema de gestão de dados do setor de mineração.
Uma relação que vem de 2019
É a terceira edição do encontro. A primeira Cúpula Rússia-África foi realizada em outubro de 2019, em Sochi, sob o lema “Pela paz, segurança e desenvolvimento”; a segunda ocorreu em julho de 2023, em São Petersburgo, também com delegações de 48 países, e os participantes decidiram repetir o fórum a cada três anos. Depois da cúpula de 2023, Moscou entregou gratuitamente 200 mil toneladas de grãos a Burkina Faso, Zimbábue, Mali, Somália, República Centro-Africana e Eritreia, cumprindo uma promessa feita por Putin.
O comércio dá a medida do avanço pretendido: segundo o assessor presidencial russo Iuri Uchakov, o intercâmbio entre a Rússia e os países africanos superou US$ 27 bilhões em 2025, contra cerca de US$ 16,8 bilhões em 2019, e Moscou trabalha com a meta de chegar a US$ 50 bilhões. A cúpula termina nesta quinta-feira (29), quando Putin e Ndayishimiye devem apresentar à imprensa o balanço do encontro — e será a implementação dos acordos, mais do que o número de documentos assinados, que dirá se a corte de Moscou à África se converte em influência duradoura.
