Resumo da Notícia

  • O presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, decretou emergência nacional (Decreto Supremo 5759) para enfrentar as secas e as enchentes associadas ao El Niño 2026-2027, apelidado de “Super El Niño”.
  • A seca já atinge 114.048 famílias em 63 municípios de seis departamentos, com mais de 60 mil hectares de cultivos perdidos e mais de 75 mil cabeças de gado mortas, segundo o Ministério da Defesa boliviano.
  • A ONU alertou que o episódio atual pode atingir uma intensidade sem precedentes; no Brasil, o padrão esperado de um El Niño forte é de chuvas acima da média no Sul e seca mais intensa no Norte e no Nordeste.
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A Bolívia entrou oficialmente em estado de emergência nacional por causa do clima. O presidente Rodrigo Paz anunciou neste sábado (31) a assinatura do Decreto Supremo 5759, que declara a emergência em todo o país para enfrentar as secas e as enchentes associadas ao fenômeno El Niño 2026-2027, apelidado de “Super El Niño” pela intensidade com que vem se formando no oceano Pacífico. Segundo o governo boliviano, a medida foi adotada por recomendação do Conselho Nacional para a Redução de Riscos e Atenção de Desastres (Conarade) e já foi publicada na Gaceta Oficial, o diário oficial do país.

No anúncio, Paz foi direto sobre o que espera os bolivianos nos próximos meses. O fenômeno, disse o presidente, terá “impactos muito severos em termos de seca e inundações”, e o país vai precisar “da cooperação de todas as instituições” para atravessar o período. O texto do decreto declara a emergência diante do “risco iminente de geadas, granizo, incêndios florestais, inundações, enxurradas e transbordamentos associados ao fenômeno El Niño 2026-2027” — ou seja, a Bolívia se prepara ao mesmo tempo para a falta e para o excesso de água.

O que a emergência permite

Na prática, a declaração de emergência nacional destrava a resposta do Estado. A medida libera recursos econômicos e humanos de forma mais rápida, autoriza o envio de equipes de resgate e de ajuda humanitária às regiões críticas e permite mobilizar as Forças Armadas e a polícia em apoio às operações locais. Também fortalece a coordenação entre ministérios, governos departamentais e prefeituras, e abre caminho para a cooperação internacional no atendimento às famílias atingidas, de acordo com o governo boliviano.

Os ministros foram instruídos a executar as ações previstas no decreto, com foco declarado em proteger a vida, a saúde e os meios de subsistência da população. A estratégia é dupla: socorrer agora as comunidades que já sofrem com a estiagem e, ao mesmo tempo, posicionar recursos para a temporada de chuvas, que na Bolívia vai de novembro a março e pode transformar o problema da seca em um problema de enchentes em questão de semanas.

O tamanho da seca: 114 mil famílias em 63 municípios

Os números oficiais explicam a urgência. De acordo com o ministro da Defesa, Ernesto Justiniano, o balanço mais recente, que cobre o período de 1º de junho a 29 de outubro, registra 114.048 famílias atingidas pela seca em 63 municípios de seis departamentos: La Paz, Oruro, Potosí, Chuquisaca, Cochabamba e Santa Cruz. Desse total, 78.217 famílias estão classificadas como afetadas e 35.831 como desabrigadas, em 1.486 comunidades alcançadas pela estiagem.

O estrago no campo é igualmente grande. O mesmo relatório aponta 167.511 hectares atingidos, dos quais 60.106 hectares de cultivos foram dados como perdidos, e a morte de 75.013 cabeças de gado. Para um país em que grande parte da população rural depende da agricultura familiar e da pecuária, o impacto vai muito além do prejuízo imediato: segundo o jornal boliviano La Razón, a seca já coloca em risco a segurança alimentar das regiões atingidas, porque compromete a produção de alimentos e a renda de quem vive da terra.

O que é o “Super El Niño” — e por que ele assusta

O El Niño é um fenômeno climático natural que aparece a cada dois a sete anos: as águas da superfície do Pacífico equatorial, na faixa central e leste do oceano, ficam mais quentes do que o normal e os ventos alísios enfraquecem. Essa mudança na temperatura do mar altera a circulação da atmosfera em escala global e redistribui as chuvas pelo planeta — algumas regiões sofrem secas prolongadas, enquanto outras enfrentam temporais e inundações.

O episódio atual, porém, vem sendo tratado pelos especialistas como fora do comum. Nesta semana, a Organização das Nações Unidas (ONU) alertou que o El Niño deste ano “poderá atingir uma intensidade sem precedentes, ultrapassando literalmente as escalas” usadas no monitoramento do fenômeno há quatro décadas. A Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência da ONU para o clima, projeta que as temperaturas da superfície do mar no Pacífico tropical central e oriental alcancem níveis recordes entre outubro e dezembro de 2026, com probabilidade próxima de 100% de que o fenômeno persista pelo menos até fevereiro de 2027. Como o RS Notícias já mostrou, o pico do El Niño é esperado entre outubro e dezembro, com potencial para ser o mais forte desde 1950.

É por isso que governos da região falam em “Super El Niño”: se as projeções se confirmarem, o episódio 2026-2027 pode entrar para a história como um dos mais intensos já registrados, com efeitos que devem se estender ao longo de 2027 mesmo depois do pico.

Os reflexos no Brasil

A decisão boliviana interessa diretamente ao Brasil, que divide com a Bolívia mais de 3 mil quilômetros de fronteira e sofre os efeitos do mesmo fenômeno. O padrão clássico de um El Niño forte no território brasileiro é conhecido: chuvas acima da média no Sul, com risco de enchentes e deslizamentos, e estiagem mais severa no Norte e no Nordeste, com impacto sobre reservatórios, navegação fluvial e produção agrícola. No Centro-Oeste e no Sudeste, o comportamento costuma ser mais irregular, com ondas de calor e chuvas mal distribuídas.

O setor produtivo brasileiro já se movimenta. Como detalhou o RS Notícias, a Embrapa apresentou estratégias específicas por região para o El Niño 2026/27, com recomendações de calendário de plantio, manejo de água e escolha de cultivares para reduzir as perdas no campo. Para os estados amazônicos, a preocupação é a combinação de calor e pouca chuva sobre a floresta e os rios; para gaúchos, catarinenses e paranaenses, o alerta é o oposto: excesso de chuva concentrada em poucos dias.

Próximos passos em La Paz

Com o decreto em vigor, o governo boliviano passa agora à fase de execução: liberação efetiva dos recursos, envio das equipes às áreas mais críticas e articulação com os governos departamentais e municipais, que foram chamados a coordenar as ações em seus territórios. A busca por cooperação internacional também está na agenda, como forma de reforçar o atendimento às famílias e a proteção das fontes de água.

O desafio de La Paz é administrar duas crises em sequência — ou ao mesmo tempo. A seca que hoje atinge 114 mil famílias pode, com a chegada da estação chuvosa, dar lugar a rios transbordando e estradas cortadas nas mesmas regiões. É exatamente esse cenário de extremos que o Decreto Supremo 5759 tenta antecipar. E, com o pico do Super El Niño ainda por vir, a Bolívia pode ser apenas o primeiro país da América do Sul a recorrer a uma emergência nacional nesta temporada.

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Escobar Oliver é o responsável pelo conteúdo do RSO Notícias, portal de notícias do Brasil e do mundo.